Edição 1934 . 7 de dezembro de 2005

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Internet
A biblioteca do Google

O gigante da internet oferece um novo
serviço de pesquisa do conteúdo de livros
e assusta o mundo editorial


Paula Aoyagui

 

Tony Cenicola/The New York Times


NESTA REPORTAGEM
Quadro: O que oferecem os dois maiores serviços de pesquisa em livros da internet
Quadro: Ficha completa

O site de buscas Google nunca usou de modéstia para anunciar seus objetivos. Quando estreou, sete anos atrás, a empresa criada pelos americanos Sergey Brin e Larry Page afirmou que não queria nada menos do que "organizar o caos de informações da internet". Agora, ao lançar uma ferramenta que permite vasculhar o conteúdo de livros digitalizados, o Google recorre a linguagem semelhante: seu propósito é "tornar acessível a qualquer internauta o texto de todos os livros do mundo". O serviço, batizado de Google Book Search, começou a operar no mês passado em versão experimental. Para dar início à sua "estante virtual" – ou seja, a seu banco de dados –, o Google fechou acordo com cinco instituições. Vai digitalizar milhões de volumes da Biblioteca Pública de Nova York e dos acervos de quatro universidades – Harvard, Stanford e Michigan, nos Estados Unidos, e Oxford, na Inglaterra. Estima-se que o Google tenha investido 200 milhões de dólares na empreitada – e os administradores da biblioteca de Michigan ajudam a entender o que esse tipo de investimento torna possível. A universidade já havia começado a digitalizar seu acervo de 7 milhões de livros por conta própria e calculava que despenderia 400 anos na tarefa. "O Google prometeu fazer o mesmo serviço em seis anos", diz Kelly Cuningham, porta-voz da biblioteca. Essa iniciativa ambiciosa deixou o mundo editorial em polvorosa e, assim como tem colhido elogios, já encontrou também quem a conteste nos tribunais.

O Google não foi o primeiro a lançar uma ferramenta de busca do conteúdo de livros. Em outubro de 2003, o portal de compras Amazon.com lançou o seu Search Inside the Book. Para fazer isso, entrou em entendimento com as editoras: cabe a elas liberar os livros para digitalização e estabelecer a porcentagem de páginas que poderá ser lida on-line. Estima-se que, hoje, metade das obras vendidas pela livraria possa ser pesquisada dessa forma. O Google não fez nenhum acordo do tipo. Por causa disso, a Associação de Editoras Americanas deu início a um processo contra o site em outubro, antes mesmo do lançamento da ferramenta. "O Google não negociou conosco. Preferiu infringir a lei de direitos autorais", diz o vice-presidente da associação, Allan Adler. A Associação dos Autores, representante de mais de 8.000 autores americanos, também levou a briga para a Justiça.

Tim Boyd/AP

Dan Brown, autor do best-seller O Código Da Vinci: dificuldade mediana


O site diz que sua intenção não é fraudar direitos autorais, tanto assim que convida editoras de todos os portes a participar de seu projeto. A empresa alega que só permite a leitura integral de textos que já caíram em domínio público – das demais obras, oferece apenas trechos (mas de tamanho indefinido). Para estabelecer a quantidade de texto oferecida aos usuários, o Google se ampara num dispositivo da lei de proteção à propriedade intelectual conhecido como fair use (algo como "uso justo"). Mas os limites legais dessa prática são nebulosos. "A lei não deixa claro quanto se pode copiar. Um parágrafo? Um capítulo?", diz John Dozier, advogado americano especializado em direito autoral. Outro ponto polêmico é o controle técnico que o Google de fato tem sobre o acesso às páginas digitalizadas. Já existe na internet um blog que ensina como burlar as restrições do site. O blogueiro se gaba de ter lido 92% de uma obra.

Seja qual for o desfecho da briga, o fato é que a pesquisa do conteúdo de livros na internet veio para ficar (a Microsoft e o Yahoo! já se uniram ao Open Content Alliance, cujo lançamento está previsto para o ano que vem, para fazer concorrência). Por enquanto, os serviços do Google e da Amazon têm diferenças consideráveis. A Amazon, graças a seu trânsito com as editoras, oferece títulos recentes de todos os gêneros. No Google é quase impossível localizar, por exemplo, obras de ficção contemporânea – em compensação, há muitos livros raros e fora de catálogo. As experiências de busca também são distintas. O método de varredura do Google é muito amplo – livros relevantes para a busca aparecem lado a lado com aqueles que não são. A Amazon é mais "concentrada". Num primeiro passo, sua ferramenta apresenta resultados com base no título e no nome do autor. Uma vez selecionado um livro, o usuário pode mergulhar em seu conteúdo.

 
Andy Rogers
Ben Margot/AP
Jeff Bezos, da Amazon.com, e Sergey Brin e Larry Page, do Google: milhões de livros on-line

Uma diferença óbvia, mas significativa, é que a Amazon.com é uma loja virtual – ou seja, ela trabalha para vender livros aos seus visitantes. Jeff Bezos já anunciou seu próximo lance comercial: vender "pedaços" digitalizados – como um poema por exemplo – dos livros de seu catálogo. O preço por página deve ficar em centavos de dólar. O Google não faz vendas diretas. Encaminha seu usuário a bibliotecas ou a outros sites (como o da própria Amazon.com) por meio dos chamados "links patrocinados", que são sua principal fonte de recursos. Há boatos de que o site tem planos para revolucionar o comércio on-line – um serviço com esse objetivo, batizado provisoriamente de Google Wallet, estaria em desenvolvimento. Mas isso já é outra história.

 
 
 
 
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