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LULA FALOU
E DISSE:
Toda probidade é altamente suspeita. |
Não chega não, mermão?
Aos 20 anos, abri o livro de definições
de Ambrose Bierce (Devil's Dictionary O Dicionário
do Diabo, que hoje tem tradução em português)
e li esta definição: White (substantivo): Black.
Fechei o livro. Por que continuar a ler, diante dessa definição
tão definitiva, e universal? Tudo é assim, em todas
as circunstâncias, em todas as afirmativas, em todas as filosofias,
em toda a vida: Branco é Preto.
E como poderia Bierce imaginar,
ao propor, no início do século XX, essa definição
simples e audaciosa que, trinta anos depois, um garoto carioca,
na Universidade do Meyer, iria lê-la, e entendê-la?
E por que o garoto ia continuar
a ler mais alguma coisa? Aquilo não lhe bastava?
Bastava. Bastou-me. Pra sempre
uma lição. Daí em diante, toda vez que lia
alguma coisa, e deparava com algo que me impressionava especialmente,
deixava de ler, satisfeito com o que lia. Exemplo: lendo um livro
sobre Rabindranath Tagore, também parei de estalo. O texto
dizia (guardei na memória):
"Seu pai, o Santo, viu Abdul
Khan (?), o último dos imperadores mongóis, soltando
pipa nas muralhas de sua fortaleza". Espera aí, o pai de
Rabindranath, o grande poeta da Índia, belo gigante de 2
metros de altura, músico, teatrólogo, pintor importante,
prêmio Nobel de Literatura, autor do hino nacional da Índia,
pois é, seu pai-santo (está bem, um dos milhares de
santos da Índia, mas santo, anyway) "viu o último
dos imperadores mongóis soltando pipa nas muralhas de sua
fortaleza". E eu ia ler mais? Que mais ia encontrar? Que mais eu
poderia querer depois dessa imagem, pombas?!
Pois façam como eu. Nunca
mais, em minha vida, quando qualquer coisa me enchia as medidas,
eu quis mais.
Até com Lula, apesar de
encantado com mis declarações suas, parei de ouvi-lo
depois que disse: "Minha mãe é uma mulher que nasceu
analfabeta".
A frase, capacidade de resumo
e universalidade inexcedíveis, descoberta insuperável
do óbvio, me deixou flabbergasted. E decidi cá
comigo pra mim basta (no melhor sentido) de afirmações
do presidente.
Pelo mesmo motivo, hoje em dia
não leio nem mais Paulo Coelho. Estou lendo e refletindo
apenas sobre um autor Wittgenstein. A esse, o maior filósofo
do século XX, se não de todos os tempos, a quem até
Bertrand Russel um dia deixou de entender, eu dedico agora todo
o meu tempo. Há seis meses estudo apenas sua proposição
básica:
"A é o mesmo que
a letra A".
Ainda não cheguei a uma
conclusão. Mas me disseram que Lula pensa exatamente o contrário.
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