Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo A irresistível atração
da insensatez
Notas de um caderno
de viagem: a Espanha, mesmo tão próspera, sofre
a febre dos separatismos
Se o leitor pensa
que um país próspero, bem aquinhoado pela natureza,
com problemas sociais bem encaminhados e de povo educado está
livre de crises de irracionalidade, atente para o caso da
Espanha. A Espanha é um dos melhores países
para se estar, no momento. É bonito, rico em monumentos
históricos de variadas épocas e culturas, rivaliza
nas artes com o que há de melhor no mundo, as cidades
são animadas, o clima é agradável, o
povo é simpático, a comida é boa, o vinho
idem e o pão, esse primordial indicador do bom trato
dispensado por um povo a si próprio, é de primeira
qualidade. A isso se somam as conquistas, recentes, de uma
democracia impecável e de uma prosperidade que, in
loco, salta à vista, e à distância,
da perspectiva destes Brasis, se mede pelo avanço dos
investimentos da pátria que outrora foi de Dom Quixote
e que hoje é do Banco Santander, da editora Santillana,
da Telefónica e da administradora de rodovias OHL.
Não era
para estar satisfeito? Normalmente era, mas o que é
"normalmente", na vida de uma nação (ou na vida
em geral)? A velha questão do separatismo ferve. A
Constituição de 1978, que enterrou a ditadura
franquista, garante às regiões alto grau de
independência. "Comunidades autônomas" é
como elas são chamadas, e o nome faz jus à coisa.
O estatuto compensa com largueza o sufoco do período
franquista, em que o poder central caía sem dó
até sobre o direito de a Catalunha, o País Basco
e a Galícia se expressarem em seus idiomas. Passados
trinta anos de liberdade, governos autônomos e uso e
abuso das línguas locais, era para todo mundo estar
satisfeito. Em setembro, no entanto, o lehendakari
(presidente) do País Basco, em desafio a Madri, marcou
um plebiscito sobre a independência para o ano que vem.
Na cidade de Girona, na Catalunha, o rei Juan Carlos foi recebido
com apupos e desordens, episódio a que se seguiu, nas
semanas seguintes, a queima de retratos do rei em várias
localidades catalãs.
O separatismo do
País Basco, por ter no terrorismo uma de suas expressões,
é o mais conhecido mundo afora. O da Catalunha é
para um estrangeiro mais surpreendente, por sua extensão,
e mais incompreensível, por se manifestar na região
mais rica e historicamente mais cosmopolita da Espanha. Merece
um brinde com a melhor cava (o espumante catalão) quem
descobrir em Barcelona mais de uma bandeira espanhola para
cada cinqüenta da Catalunha, e merece outro quem achar
mais de uma referência, nos monumentos ou nomes de ruas,
a fatos da história da Espanha, contra outros cinqüenta
referentes à história regional perdão:
"nacional" é a palavra correta da Catalunha.
O jornalista brasileiro Ricardo A. Setti, que visita Barcelona
com freqüência, contou num artigo que placas de
automóvel têm o "E" de Espanha substituído
por seus proprietários por um "CAT" de Catalunha, "sob
a cumplicidade da polícia local".
É no culto
à língua que mais se manifesta o nacionalismo
local. O povo é bilíngüe, e nenhum catalão
deixará de falar espanhol com um estrangeiro, mas a
Cataluña oficial cada vez mais deixa de sê-lo.
Nomes de ruas e de estações de metrô só
se vêem em catalão. Menos mau, para o estrangeiro
de língua latina, que dá para entender. É
até pitoresco saber que se está circulando pela
"Avinguda Diagonal" e ler num bar o aviso de que não
se vendem "begudes alcohòliques a menors de 18 anys".
Mas há na insistência pela exclusividade da língua
um traço que, fácil, fácil, descamba
para a intolerância. A Generalitat (governo local)
expediu, semanas atrás, instrução aos
professores para que vigiem se, no recreio, as crianças
continuam falando catalão. Uma escritora uruguaia radicada
em Barcelona, Cristina Peri Rossi, foi excluída do
programa de que participava na Rádio da Catalunha por
se expressar em castelhano.
As relações
entre o governo espanhol e a Catalunha são como entre
um pai que se arma de paciência para não brigar
e um filho que não se cansa de provocar. A chantagem
está implícita no discurso do filho: "Olha que
eu me separo, hein?". O catalanismo não se contenta
em se afirmar dentro da Espanha; só tem graça
fazê-lo contra a Espanha. E aqui chegamos ao
centro da questão. País Basco e Catalunha, como
partes da Espanha, integram um dos maiores países da
Europa, dos mais prósperos do mundo e que tem como
língua franca uma das mais faladas do planeta. Caso
o País Basco se separe, encolherá às
proporções de pouco mais que um Luxemburgo.
A Catalunha virará quando muito uma Bélgica.
É isso que querem? A pura racionalidade não
o aconselharia. Mas, como se sabe, não é a racionalidade
que move as nações (nem as vidas).
Outro assunto: Néstor
é como Perón, mas melhor, para o gosto vigente.
Cristina é como Evita, mas melhor, para o gosto vigente.
A Argentina promove o aggiornamento do atraso. Outro
ainda: Verônica, mulher do senador Renan Calheiros,
revelou à Folha de S.Paulo que faz tratamento
para engravidar. Quer dar uma filha ao marido. Será
lindo se tudo terminar com uma visita da cegonha.