Do
começo do verão americano de 2000 até
meados de 2001, o escritor paquistanês Mohsin Hamid
redigiu aquele que seria o primeiro dos sete rascunhos de
seu segundo romance. A obra colocava em cena um conterrâneo,
com uma promissora carreira numa empresa de Nova York, dividido
entre converter-se definitivamente ao modo de vida americano
e a saudade da terra natal isso em meio à paixão
por uma garota de Manhattan. O manuscrito original não
sobreviveu: com o atentado às torres gêmeas,
em 11 de setembro, o autor concluiu que, se o mundo não
seria mais o mesmo, não haveria de ser o seu romance
que permaneceria intacto. Quase seis anos e centenas de laudas
depois do ataque terrorista sofrido pelos Estados Unidos,
Hamid pôs o ponto final em O Fundamentalista Relutante
(tradução de Vera Ribeiro; Objetiva/Alfaguara;
176 páginas; 29,90 reais), um retrato das desconfianças,
ambigüidades e radicalismos que passaram a tomar conta
das relações entre as potências ocidentais
e o mundo muçulmano. Traduzido em dezesseis idiomas,
o livro consagrou o autor num tema que já mobilizou
nomes do porte dos americanos John Updike (Terrorista)
e Don Delillo (Homem em Queda).
O atentado ratifica
em Changez, o protagonista de O Fundamentalista Relutante,
a sensação de que sua existência é
movida por forças que lhe escapam do controle. O episódio
transforma o que era um contido desconforto de imigrante em
antiamericanismo explícito. A despeito de seu ótimo
entrosamento com os colegas de trabalho e de um evidente orgulho
do emprego, Changez não consegue evitar um sorriso
e a idéia de que finalmente alguém pusera os
Estados Unidos de joelhos. "Por mais desprezível que
isto soe, minha reação inicial foi ficar extraordinariamente
satisfeito", confessa ele, num café em Lahore, no Paquistão,
a um desconhecido americano a quem relata sua trajetória
recente.
O
livro, aliás, se constrói em cima dessa que,
para o leitor, não chega a ser nunca uma conversa.
O que se lê é um monólogo de Changez,
que não só fala de si como também registra
as reações do estranho. "Estou lhe contando
uma história, e na história é a força
da narrativa que importa, e não a exatidão dos
detalhes", observa Changez. O texto, no entanto, não
cumpre à risca essa plataforma. É apenas fluente
longe de ser "uma escrita levada ao extremo", como
o saudou o jornal The Washington Post. Há tolices,
como a mania do personagem de se referir aos Estados Unidos
como AmErica referência a Erica, o tal amor que
o arrebata. Atormentada pela lembrança do namorado
morto, a moça é, aliás, a melhor surpresa
do livro. Changez também foi moldado com apuro, a partir
de traços biográficos do autor. Hamid, porém,
faz questão de guardar distância das idéias
extremadas do narrador de seu livro. "Em relação
à América, escrevo de uma postura simultaneamente
crítica e amorosa", comenta, pelo sim, pelo não,
o ficcionista.