Chacinas como a
da escola Columbine, nos Estados Unidos na qual dois
estudantes armados mataram treze pessoas, entre colegas e
professores, em 1999 , costumam desafiar toda explicação.
As respostas automáticas quando o tema é a violência
juvenil não parecem suficientes. Não, os assassinos
adolescentes não são vítimas da exclusão
social ou fruto do descaso dos pais. A americana Lionel Shriver,
de 50 anos, escreveu um livro polêmico e primoroso do
qual essas teses primárias saem totalmente demolidas:
Precisamos Falar sobre o Kevin (tradução
de Beth Vieira e Vera Ribeiro; Intrínseca; 464 páginas;
49,90 reais). Sétimo romance da autora, a obra ganhou
o Prêmio Orange, da Inglaterra, em 2005, e se tornou
best-seller merecidamente. Uma de suas grandes qualidades
está na forma como a escritora evita os estereótipos
sobre o tema. O assassino que ela criou não pertence
a minorias, não vem de família desestruturada
nem foi rejeitado na escola.
Kevin é
um menino bonito e introspectivo, mimado pelo pai e admirado
pelos professores. Sua mãe, Eva, narradora do romance,
também é dedicada ao garoto, apesar dos desentendimentos
que os separam. No entanto, ele é uma criança
perversa, que distribui maldade ao seu redor. Esse jovem de
classe média assassina onze pessoas, num crime planejado
com muita frieza. Depois de recusar as razões mais
óbvias para a chacina, a narradora apresenta duas respostas
de ordem mais existencial: os jovens matam com um senso de
espetáculo, para ocupar um lugar no mundo das celebridades,
e porque são atormentados pelo senso de absurdo numa
sociedade fundada no materialismo.
Divulgação
Lionel Shriver e os assassinos
de Columbine (acima): crimes que desafiam os clichês
Eva Khatchadourian,
a mãe de Kevin, é ela mesma assolada por uma
sensação de permanente absurdo. Tem o sentimento
de ser uma estrangeira em seu próprio país.
Ela recusa os valores americanos mais consumistas e enaltece
suas origens armênias. Por ironia, casa-se com um típico
americano, que encarna os valores que ela abomina. Dentro
de uma casa com ideais antagônicos, filho e mãe
mantêm uma relação de conflito. A inadequação
de Eva é intensificada com o crime de Kevin, que destrói
a própria família. Esse, aliás, parece
ser o grande objetivo oculto de sua perversidade.
Depois da tragédia,
Eva resolve escrever para entender o ato do filho, empreendendo
um monólogo solitário sobre a maternidade em
uma série de cartas. Mesmo se passando nos dias de
hoje, com referências a e-mails, Precisamos Falar
sobre o Kevin retoma a tradição do romance
epistolar, em uma narrativa mais lenta que nem por
isso se cala diante dos sentimentos mais selvagens da mãe.
O romance termina, no entanto, com um fio de esperança.
Depois da imensa incompreensão mútua e das piores
conseqüências, a mãe e o filho que
cumpre pena em um presídio começam a
expressar seus afetos. Eva, a estrangeira, talvez possa fazer
da maternidade sua terra natal.