Não se
fazem mais novelas das 8 sem gays. O mais novo deles até
gosta de mulher
Marcelo Marthe
Divulgação/TV
Globo
Bernardinho, com sua drogada
ensebada: cardápio variado
Numa
cena programada para este sábado na novela Duas
Caras, Bernardinho (Thiago Mendonça) será
pego em situação delicada. Rapaz prendado que
lava, passa e cozinha para a família inteira, ele se
deixará seduzir por Carlão, um fortão
com jeito de go-go boy, a quem é apresentado num jantar
que organiza em sua casa, na favela da Portelinha. Trata-se
de uma armação de sua madrasta (que capítulos
antes insinuava: "O Carlão está louco para comer
seu bacalhau"). O objetivo da megera é fazer o pai
e os irmãos machões flagrarem-no na cama com
um homem. Se antes já despertava suspeita, Bernardinho
sairá do armário de vez no episódio.
E, assim, Duas Caras confirmará aquilo que se
tornou uma regra nas novelas das 8. De quatro anos para cá,
todas as produções da Globo no horário
tiveram personagens gays com algum grau de destaque. O lesbianismo
foi explorado em quatro delas, de Mulheres Apaixonadas
a Belíssima. Enquanto América
teve um homossexual atormentado, Páginas da
Vida e a recém-concluída Paraíso
Tropical exibiram casais gays bem resolvidos. Quando se
imaginava que tudo fora experimentado nesse campo, eis que
Aguinaldo Silva que em Senhora do Destino (2005)
mostrou um par de lésbicas certinhas e um carnavalesco
que se derretia por um brutamontes se saiu com um argumento
espantoso em Duas Caras. Bernardinho é um gay
que reverá seus conceitos ao se envolver com uma mulher,
a drogadita Dália (Leona Cavalli, que mais parece uma
vassoura de bruxa com aquele cabelão ensebado). Ou
seja: é uma espécie de vira-casaca. "As pessoas
se apaixonam por pessoas, sejam de que sexo forem", diz o
autor.
Antigamente, quando
uma novela das 8 abordava a homossexualidade, perguntava-se:
será que vai dar certo? Silvio de Abreu foi bem-sucedido
com a dupla Sandrinho e Jefferson de A Próxima Vítima
(1995), mas quebrou a cara com as lésbicas
de Torre de Babel (1998) a rejeição
foi de tal ordem que ele teve de eliminá-las com uma
explosão. Hoje, a questão não é
mais aquela e sim como será o gay da próxima
novela das 8. Os espectadores podem até estar com a
cabeça mais aberta. Mas, se o tema virou clichê,
é porque os noveleiros passaram a dominar a carpintaria
de despertar os bons sentimentos no público em relação
a esses personagens. Eles também travam uma certa disputa
para ver quem vai mais longe em ousadia. Na semana passada,
Aguinaldo Silva vangloriava-se em seu blog da "próxima
baixaria" de Duas Caras o tal flagra de Bernardinho
na cama. "Sei que vão me chamar de 'devasso' e dizer
que uso minhas novelas para fazer 'apologia do homossexualismo'",
escreveu.
Homossexual assumido,
Silva foi fustigado pela militância gay na época
de Senhora do Destino. "Me elegeram inimigo porque
achavam o carnavalesco da novela caricato", afirma. O flerte
heterossexual de Bernardinho também já irrita
os ativistas. "Um personagem assim pode reforçar a
idéia equivocada de que é possível reverter
a homossexualidade", diz Marco Trajano, do Movimento Gay de
Minas Gerais. Na verdade, é complicado entender a relação
de Bernardinho e sua musa. O gay vem cuidando de Dália
desde que ela tomou uma sova do amante traficante e foi acolhida
na tal Portelinha. Ambos já dormiram juntos
e deverão até fazer sexo. Bernardinho se verá
apaixonado, mas não deixará de ser homossexual.
"Não acredito nessa coisa de comportamentos estanques.
A sexualidade é algo muito maior", diz o autor.
O MAGO QUE VIROU
TIA
Tirar personagens
do armário virou coisa corriqueira nas novelas
brasileiras. A cada folhetim, expande-se a galeria de
tipos. Há gays atormentados, bem resolvidos,
tímidos e espalhafatosos. Coube à escritora
escocesa J.K. Rowling, contudo, idealizar o gay mágico.
No último dia 19, a autora da série Harry
Potter fez uma inconfidência ao ser questionada
sobre a vida amorosa de Alvo Dumbledore, mentor de Harry
na bruxaria. "Sempre pensei nele como gay", disse. Como
se trata de uma série infanto-juvenil com mais
de 300 milhões de livros vendidos, suas palavras
tiveram o efeito de uma bomba. Se já atacavam
Harry Potter por uma suposta apologia da magia negra,
os evangélicos americanos agora vêem sua
autora como o próprio diabo. Pastores protestaram
contra o "mau exemplo" e conclamaram a um boicote. Os
gays, claro, saudaram a chegada da nova "tia"
palavra com que se referem aos companheiros mais velhos.
Mas alguns também reclamaram. A militância
xiita criticou o fato de J.K. ter deixado para revelar
o segredo de Dumbledore numa entrevista, e não
nos livros. Sugere, agora, que algo seja feito nos dois
filmes da série que ainda estão para sair.
Para aflição dos estúdios Warner.