O Vaticano combate
secularização da Espanha
com beatificação de mortos na Guerra Civil
Denise Dweck
AP
Republicanos alvejam imagem
de Cristo nos arredores de Madri, durante o conflito:
a Igreja apoiava os fascistas
O
Vaticano realizou na semana passada a maior cerimônia
de beatificação de sua história nos tempos
modernos. No domingo, mais de 40.000 pessoas se aglomeraram
na Praça de São Pedro para assistir à
missa em que foram beatificados 498 católicos mortos
durante a Guerra Civil Espanhola, ocorrida entre 1936 e 1939.
Os novos beatos eram padres, freiras, bispos e diáconos
assassinados pelos republicanos por apoiar o levante das forças
fascistas do general Francisco Franco. Os republicanos foram
derrotados, a guerra deixou um saldo de meio milhão
de mortos e a ditadura de Franco duraria quase quarenta anos,
até sua morte, em 1975. Os religiosos foram beatificados,
segundo o Vaticano, por ter morrido em nome da fé.
"Esse martírio ocorrido com pessoas comuns é
um testemunho importante para a sociedade secularizada de
hoje", discursou o papa Bento XVI, no domingo. O processo
de resgate dos mártires da Guerra Civil Espanhola começou
no papado de João Paulo II, que beatificou 977 católicos
assassinados no conflito, dos quais onze já se tornaram
santos. Embora a Igreja sempre tenha lembrado e reverenciado
seus mártires, a pertinácia com que o Vaticano
celebra os pastores mortos no conflito espanhol tem um evidente
viés político. Ela denota apoio à luta
interna da Igreja espanhola para frear o processo de secularização
do país.
Andrew
Medichini/AP
O papa Bento XVI saúda
fiéis após a beatificação:
"Testemunho importante para a sociedade de hoje"
"A
beatificação da semana passada é uma
forma de a Igreja mostrar força diante das mudanças
de âmbito moral e administrativo propostas pelo governo
do primeiro-ministro José Luis Zapatero", diz o filósofo
Flávio Senra, coordenador do mestrado em ciências
da religião da Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais. Em 2005, o governo socialista conseguiu aprovar
o casamento entre homossexuais, inclusive com direito à
adoção de crianças. A disputa de forças
está ligada ainda ao projeto de Zapatero de rever o
legado de Francisco Franco, com a criação da
Lei de Memória Histórica, que ordena a retirada
de símbolos do franquismo de prédios públicos
e amplia indenizações às famílias
das vítimas da ditadura fascista. A lei foi aprovada
na quarta-feira passada pela Câmara Baixa do Parlamento
e será votada no Senado. Some-se a isso o fato de que,
embora a identidade cultural da Espanha tenha sido construída
pelo cristianismo, a debandada do rebanho católico
nos últimos tempos foi avassaladora. Cerca de 77% dos
espanhóis se declaram católicos, mas apenas
20% dos fiéis vão à missa todas as semanas
entre os jovens católicos, só 10% o fazem.
Reacender a fé católica na Espanha seria outro
motivo do Vaticano para promover as beatificações
em massa dos mártires da Guerra Civil.
AFP
Corpos de católicos expostos
na rua em Barcelona:
7 000 padres e freiras foram mortos
Estima-se
que 7.000 integrantes da Igreja Católica tenham sido
mortos durante a Guerra Civil Espanhola. Na Catalunha e em
Valência, padres foram queimados e castrados. Alguns
foram enterrados vivos após ser obrigados a abrir suas
próprias covas. Outros, depois de assassinados, ficavam
expostos à população dentro de seu caixão.
Muitas igrejas foram vandalizadas e incendiadas. Em algumas
cidades, múmias das catacumbas de conventos foram exumadas.
O fato de a Igreja cerrar fileiras com as forças fascistas
deve-se às circunstâncias políticas da
época. Os nacionalistas, liderados pelo general Franco,
tencionavam livrar o país da influência comunista
e resgatar os valores da Espanha tradicional, autoritária
e católica. Para chegar a esse objetivo, era preciso
esmigalhar a República, proclamada em 1931 com a queda
da monarquia. Já os republicanos tinham urgência
em deter o avanço do fascismo, que já havia
conquistado a Alemanha, a Itália e a Áustria.
AFP
O ditador Francisco Franco:
a Espanha moderna quer varrê-lo da memória
A
Guerra Civil Espanhola não foi apenas um conflito interno
entre os espanhóis. Era uma guerra de todas as forças
políticas que estavam em disputa na Europa. Entre os
republicanos, encontravam-se anarquistas, stalinistas, trotskistas,
socialistas moderados e democratas liberais. Entre os nacionalistas,
havia fascistas, monarquistas, latifundiários e o clero
católico. Como definiu o historiador inglês Antony
Beevor, a Guerra Civil Espanhola foi "uma guerra mundial por
procuração". As forças de Franco recebiam
apoio militar da Itália fascista de Benito Mussolini
e da Alemanha nazista de Adolf Hitler. A Frente Popular tinha
o apoio da União Soviética. O ataque aéreo
a Guernica, que devastou a cidade e inspiraria o pintor espanhol
Pablo Picasso a criar uma de suas telas mais famosas, foi
realizado integralmente pela força aérea alemã,
a temida Luftwaffe. Hoje, para o Vaticano, reverenciar o martírio
de seus fiéis na Guerra Civil Espanhola é uma
forma de ratificar sua posição conservadora.
Mesmo que isso implique trazer à memória a tenebrosa
ditadura de Francisco Franco.