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CINEMA
Divulgação

Caramuru,
de
Guel Arraes: triângulo amoroso |
Caramuru A Invenção do Brasil (Brasil, 2000.
Estréia nesta sexta-feira no país) Em vez de fazer
o óbvio um épico sobre o Descobrimento do Brasil
, o diretor Guel Arraes decidiu homenagear a data, no ano passado,
com uma minissérie cômica sobre o romance do português
Diogo Álvares (Selton Mello) com as índias Paraguaçu
(Camila Pitanga) e Moema (Deborah Secco), no comecinho do século
XVI. A exemplo do que foi feito com O Auto da Compadecida, o programa
ganha agora uma versão condensada para cinema. O essencial está
lá: o humor descontraído de Guel, sua criatividade visual
e os diálogos rapidíssimos de Jorge Furtado. O elenco é
outro ponto forte. Com destaque para Tonico Pereira, no papel do índio
Itaparica, pai de Moema e Paraguaçu e picareta emérito.
LIVROS
AP
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| Faulkner:
vários pontos de vista |
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Enquanto
Agonizo, de William Faulkner (tradução de Wladir
Dupont; editora Mandarim; 230 páginas; 30 reais) Este romance
é uma obra-prima do modernismo americano e foi escrito em
oito semanas, nas horas vagas do trabalho de vigia que Faulkner desempenhava
numa hidrelétrica, em 1929. A matriarca de uma família pobre,
do sul dos Estados Unidos, é quem agoniza. Depois de sua morte,
seu viúvo e filhos partem com o caixão para enterrá-la
num local distante, numa viagem quixotesca. Mas não são
as peripécias do enredo o que mais importa. Faulkner tece a narrativa
alternando os pontos de vista de nada menos que quinze personagens. Mostra
uma sociedade descrente da vida moderna, abraçada a anacronismos,
e desdobra para o leitor um impressionante mundo de egoísmo, traição
e loucura.
Oscar Cabral
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| Garcia-Roza:
tiras assassinados |
Uma
Janela em Copacabana, de Luiz Alfredo Garcia-Roza (Companhia das
Letras; 218 páginas; 26 reais) Teórico freudiano
respeitado, o psicanalista carioca Garcia-Roza trocou, nos anos 90, os
escritos acadêmicos pela ficção policial. Deu-se muito
bem. Nesse seu quarto romance do gênero, estão preservados
os ingredientes que lhe vêm garantindo o êxito num terreno
em que a ficção brasileira nunca teve tradição.
Garcia-Roza criou um personagem memorável: o delegado Espinosa,
um policial de carreira correto e cerebral tão cerebral
que às vezes é atropelado pelos fatos na hora de solucionar
crimes. É ele o responsável pela investigação
da série de assassinatos narrada no romance. A trama, que tem como
ponto de partida a eliminação de três tiras, envolve
até a mulher de um alto funcionário do governo federal.
DISCOS
Retrato
do Artista Quando Coisa, Luiz Melodia (Indie) Veterano,
o cantor e compositor carioca Luiz Melodia continua à frente de
todas as "revelações jovens" da música negra brasileira.
Ele é um intérprete tecnicamente superior. Produz uma mistura
poderosa, que adiciona à soul music doses de samba-canção.
Um bom exemplo disso é a faixa de abertura, a engraçada
Feeling da Música. Primeiro disco de inéditas do
cantor desde Acústico, de 1999, Retrato do Artista Quando
Coisa tem composições inspiradas em diversos estilos,
das baladas (Lorena) ao reggae (Esse Filme Eu Já Vi).
Único reparo a fazer: a capa do disco é horrenda.
Beautiful
Garbage, Garbage (Universal) Formado em 1995 por produtores
tarimbados do mundo pop, o Garbage promove um cruzamento interessante
entre rock e eletrônica. Seu maior trunfo, no entanto, está
na vocalista Shirley Manson, uma ruiva de 35 anos que, segundo alguns,
foi garota de programa na juventude. Shirley tanto seduz marmanjos, órfãos
de uma cantora que encarne o espírito roqueiro, quanto o público
adolescente, que vê na escocesa uma espécie de irmã
mais velha e ousada de Britney Spears. Nesse terceiro CD do grupo, ela
passa com facilidade de canções pesadas (Shut Your Mouth)
a baladas ternas sobre a desilusão amorosa (Cup of Coffee).
Songs
in Red and Gray, Suzanne Vega (Universal) Depois de dois
álbuns de experiências com a bossa nova e os ritmos eletrônicos,
Suzanne Vega retoma a sua especialidade: singelas baladas ao violão
interpretadas com voz sussurrante à maneira dos sucessos
Luka e Marlene on the Wall. Há uma explicação
caseira para a mudança de rumo. Suzanne separou-se do marido e
produtor Mitchell Froom, responsável pela guinada moderninha da
compositora. O que falta em ousadia sonora sobra em letras ácidas
e confessionais. O divórcio rendeu as melhores faixas de Songs
in Red and Gray. Em (I'll Never Be) Your Maggie May, Suzanne
assume o discurso feminista, em Penitent fala a respeito da solidão
e em Soap and Water relata os efeitos da separação
sobre a filha do casal.
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LITERATURA
BRASILEIRA
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O Efeito Urano
Fernanda Young;
Objetiva;
139 páginas;
22,90 reais
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Fernanda
Young é roteirista e romancista. Assina o texto do seriado
Os
Normais, da Rede Globo, juntamente
com seu marido, Alexandre Machado. Trata-se de um dos programas
mais divertidos da TV brasileira no momento. Fernanda pode até
ser perdoada por pegar algumas piadas da sitcom americana Seinfeld
(como aquela sobre a data de validade
do iogurte). É uma boa roteirista. Na literatura, as coisas
são diferentes. Fernanda tem quatro livros publicados, além
desse novo, O Efeito Urano.
Em entrevistas, mostra-se orgulhosa. Diz que escreve romances destinados
a entrar para a história. Mas está enganada. Fernanda
escreve sobre a classe média-alta. Gente educada, que vai
ao analista, que consome importados. O
Efeito Urano fala de duas mulheres
desse meio, que se envolvem num namoro. Ela faz ficção
"contemporânea", na linha de americanos como Bret Easton Ellis.
Mas escreve mal. Padece de verborragia. Também comete erros
gramaticais: "O tom calmo dos histéricos que presumem-se
tomados..." Essa frase horrenda, na qual o que se esquece
de atrair o se, está logo nas primeiras páginas
do livro. Fernanda Young não leva o trabalho literário
tão a sério quanto diz. Num trecho de O
Efeito Urano, a narradora avisa que
não vai descrever um encontro importante. Só valeria
a pena fazê-lo "se as palavras, num desempenho acima do esperado,
pudessem dispensar o uso da imaginação". Como isso
não ocorre, não há necessidade de arte: "Só
de duas mulheres e um jantar na quinta". Mas as palavras podem ter
desempenho acima do esperado. É o que mostram os bons livros.
É para isso que se faz literatura. Quem não acredita,
que vá jantar com os amigos. Na quinta e nos outros dias.
Carlos
Graieb
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