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Edição 1 725 - 7 de novembro de 2001
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CINEMA

Divulgação

Caramuru, de Guel Arraes: triângulo amoroso

Caramuru – A Invenção do Brasil
(Brasil, 2000. Estréia nesta sexta-feira no país) – Em vez de fazer o óbvio – um épico sobre o Descobrimento do Brasil –, o diretor Guel Arraes decidiu homenagear a data, no ano passado, com uma minissérie cômica sobre o romance do português Diogo Álvares (Selton Mello) com as índias Paraguaçu (Camila Pitanga) e Moema (Deborah Secco), no comecinho do século XVI. A exemplo do que foi feito com O Auto da Compadecida, o programa ganha agora uma versão condensada para cinema. O essencial está lá: o humor descontraído de Guel, sua criatividade visual e os diálogos rapidíssimos de Jorge Furtado. O elenco é outro ponto forte. Com destaque para Tonico Pereira, no papel do índio Itaparica, pai de Moema e Paraguaçu e picareta emérito.

 

LIVROS

 
AP
Faulkner: vários pontos de vista  

Enquanto Agonizo, de William Faulkner (tradução de Wladir Dupont; editora Mandarim; 230 páginas; 30 reais) – Este romance é uma obra-prima do modernismo americano – e foi escrito em oito semanas, nas horas vagas do trabalho de vigia que Faulkner desempenhava numa hidrelétrica, em 1929. A matriarca de uma família pobre, do sul dos Estados Unidos, é quem agoniza. Depois de sua morte, seu viúvo e filhos partem com o caixão para enterrá-la num local distante, numa viagem quixotesca. Mas não são as peripécias do enredo o que mais importa. Faulkner tece a narrativa alternando os pontos de vista de nada menos que quinze personagens. Mostra uma sociedade descrente da vida moderna, abraçada a anacronismos, e desdobra para o leitor um impressionante mundo de egoísmo, traição e loucura.

 
Oscar Cabral
Garcia-Roza: tiras assassinados

Uma Janela em Copacabana, de Luiz Alfredo Garcia-Roza (Companhia das Letras; 218 páginas; 26 reais) – Teórico freudiano respeitado, o psicanalista carioca Garcia-Roza trocou, nos anos 90, os escritos acadêmicos pela ficção policial. Deu-se muito bem. Nesse seu quarto romance do gênero, estão preservados os ingredientes que lhe vêm garantindo o êxito num terreno em que a ficção brasileira nunca teve tradição. Garcia-Roza criou um personagem memorável: o delegado Espinosa, um policial de carreira correto e cerebral – tão cerebral que às vezes é atropelado pelos fatos na hora de solucionar crimes. É ele o responsável pela investigação da série de assassinatos narrada no romance. A trama, que tem como ponto de partida a eliminação de três tiras, envolve até a mulher de um alto funcionário do governo federal.

 

DISCOS

Retrato do Artista Quando Coisa, Luiz Melodia (Indie) – Veterano, o cantor e compositor carioca Luiz Melodia continua à frente de todas as "revelações jovens" da música negra brasileira. Ele é um intérprete tecnicamente superior. Produz uma mistura poderosa, que adiciona à soul music doses de samba-canção. Um bom exemplo disso é a faixa de abertura, a engraçada Feeling da Música. Primeiro disco de inéditas do cantor desde Acústico, de 1999, Retrato do Artista Quando Coisa tem composições inspiradas em diversos estilos, das baladas (Lorena) ao reggae (Esse Filme Eu Já Vi). Único reparo a fazer: a capa do disco é horrenda.

Beautiful Garbage, Garbage (Universal) – Formado em 1995 por produtores tarimbados do mundo pop, o Garbage promove um cruzamento interessante entre rock e eletrônica. Seu maior trunfo, no entanto, está na vocalista Shirley Manson, uma ruiva de 35 anos que, segundo alguns, foi garota de programa na juventude. Shirley tanto seduz marmanjos, órfãos de uma cantora que encarne o espírito roqueiro, quanto o público adolescente, que vê na escocesa uma espécie de irmã mais velha e ousada de Britney Spears. Nesse terceiro CD do grupo, ela passa com facilidade de canções pesadas (Shut Your Mouth) a baladas ternas sobre a desilusão amorosa (Cup of Coffee).

Songs in Red and Gray, Suzanne Vega (Universal) – Depois de dois álbuns de experiências com a bossa nova e os ritmos eletrônicos, Suzanne Vega retoma a sua especialidade: singelas baladas ao violão interpretadas com voz sussurrante – à maneira dos sucessos Luka e Marlene on the Wall. Há uma explicação caseira para a mudança de rumo. Suzanne separou-se do marido e produtor Mitchell Froom, responsável pela guinada moderninha da compositora. O que falta em ousadia sonora sobra em letras ácidas e confessionais. O divórcio rendeu as melhores faixas de Songs in Red and Gray. Em (I'll Never Be) Your Maggie May, Suzanne assume o discurso feminista, em Penitent fala a respeito da solidão e em Soap and Water relata os efeitos da separação sobre a filha do casal.

 

LITERATURA BRASILEIRA


O Efeito Urano
Fernanda Young;
Objetiva;
139 páginas;
22,90 reais

Fernanda Young é roteirista e romancista. Assina o texto do seriado Os Normais, da Rede Globo, juntamente com seu marido, Alexandre Machado. Trata-se de um dos programas mais divertidos da TV brasileira no momento. Fernanda pode até ser perdoada por pegar algumas piadas da sitcom americana Seinfeld (como aquela sobre a data de validade do iogurte). É uma boa roteirista. Na literatura, as coisas são diferentes. Fernanda tem quatro livros publicados, além desse novo, O Efeito Urano. Em entrevistas, mostra-se orgulhosa. Diz que escreve romances destinados a entrar para a história. Mas está enganada. Fernanda escreve sobre a classe média-alta. Gente educada, que vai ao analista, que consome importados. O Efeito Urano fala de duas mulheres desse meio, que se envolvem num namoro. Ela faz ficção "contemporânea", na linha de americanos como Bret Easton Ellis. Mas escreve mal. Padece de verborragia. Também comete erros gramaticais: "O tom calmo dos histéricos que presumem-se tomados..." Essa frase horrenda, na qual o que se esquece de atrair o se, está logo nas primeiras páginas do livro. Fernanda Young não leva o trabalho literário tão a sério quanto diz. Num trecho de O Efeito Urano, a narradora avisa que não vai descrever um encontro importante. Só valeria a pena fazê-lo "se as palavras, num desempenho acima do esperado, pudessem dispensar o uso da imaginação". Como isso não ocorre, não há necessidade de arte: "Só de duas mulheres e um jantar na quinta". Mas as palavras podem ter desempenho acima do esperado. É o que mostram os bons livros. É para isso que se faz literatura. Quem não acredita, que vá jantar com os amigos. Na quinta e nos outros dias.

Carlos Graieb

 

   
 
Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano, Fnac; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva; Recife: Sodiler, Saraiva, Siciliano; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Leitura.

 

   
 
   
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