Claudio
de Moura Castro
O
dever da impopularidade
"Nossos
homens de ciências e de letras têm obrigações
perante a sociedade. Sua ânsia de ser aplaudidos não pode
obliterar esses deveres"
Ale Setti
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Faz algum tempo, participei de uma mesa-redonda, tripulada por grandes
figuras de nossas letras e intelectualidade. Na audiência, milhares
de pessoas aplaudiam as frases bem esculpidas, as sínteses elegantes
e as críticas virulentas. Um belo espetáculo de uso eloqüente
da palavra.
Mas fui para casa com um grande desconforto. Essas pessoas estavam traindo
os deveres essenciais do intelectual: 1) dizer o que precisa ser dito
de acordo com o julgamento próprio e não dizer o que traz
aplauso; 2) mostrar o caminho percorrido e não a resposta pronta;
3) não falar sobre o que não entende, pois desvaloriza a
própria atividade intelectual. Meus colegas de mesa haviam pecado.
Falar mal do governo traz aplausos? Pois lancemos uma crítica fulminante.
Qual é a bola da vez? Perdoemos talvez os políticos que
precisam de votos ou que não tiveram tão burilada educação.
Mas, se a liberdade de cátedra e a estabilidade funcional dos professores
não lhes dão coragem o bastante para dizer o que pensam,
para que servirão?
Quantas vezes ouvimos professores de universidades públicas falando
em privado contra os desmandos lá observados, mas sem ousar repeti-lo
em público. Onde está a ousadia para reclamar dos colegas
que não dão aulas ou não cumprem muitas outras regras,
sendo seus salários pagos pelo contribuinte? Onde está a
responsabilidade social para reclamar em público de quem denigre
a reputação da universidade, pela preguiça, indolência
ou desperdício? Onde estão nossos cientistas de primeira
linha quando se arrastam greves sem inspiração?
Aqueles que, à custa de enormes gastos do contribuinte, receberam
a mais primorosa educação têm o dever de educar os
que não tiveram esse privilégio. Portanto, a frase feita
com a resposta não é o que se espera. O que se espera é
que mostrem o caminho que os leva a esta ou àquela conclusão.
Afinal de contas, em ciência o que valida os resultados são
a limpidez da lógica e o uso disciplinado das informações.
É sua competência nessa manipulação simbólica
e empírica que valida o resultado, não a extensão
dos currículos ou o impacto político do que é dito.
Não basta dizer que o governo é imbecil ou a oposição
ridícula, a política daquele partido cretina ou que a globalização
é uma trama diabólica. Repetir essas palavras está
ao alcance de qualquer um. É preciso explicar, guiar, mostrar a
lógica do raciocínio e as margens de erro contidas nas análises.
É mais difícil, mais enfadonho, produz menos frases de efeito
e poucas palmas. Mas é o que a sociedade deveria esperar.
A reputação na ciência e nas letras é conseguida
à custa de dedicação e disciplina. Não vem
do dia para a noite o domínio da profissão. Portanto, ao
defrontar-se com um público e morrer de vontade de ser aplaudido,
é preciso resistir à tentação de falar com
leviandade sobre as ciências dos outros. Quem anda falando do Proer
conhece a história dos bancos e do que já aconteceu em clima
de pânico? Quem fala em renegar a dívida externa sabe o que
aconteceu com todos os que tentaram fazê-lo? Sabem quanto aumentou
o spread do juro ao Brasil quando um presidente deu uma única declaração
de que não ia pagar a dívida? Melhorar a distribuição
de renda? É preciso dizer como. Os não-economistas não
podem ser alijados dessas discussões. Mas tampouco podem olimpicamente
ignorar o conhecimento acumulado ao longo dos anos. Isso é tanto
mais grave e imperdoável quando dito por pessoas cuja vida foi
dedicada a dominar algum campo do saber e, por pura vaidade, desrespeitam
outras áreas que requerem pelo menos tanto esforço para
dominar.
Nossos homens de ciências e de letras têm obrigações
perante a sociedade. Sua ânsia de ser aplaudidos não pode
obliterar esses deveres. Eles têm de criticar, mostrar problemas,
participar da vida nacional. Mas o que deve falar é sua consciência,
e não a vontade de ganhar palmas. Esperamos deles a coragem dos
comunistas que denunciaram o stalinismo ou dos direitistas que denunciaram
o macarthismo. O primeiro dever é o da impopularidade.
Claudio
de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)
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