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Roberto
Pompeu de Toledo
Em
busca de um desfecho
Está
difícil identificar
um
final
claro
e satisfatório
para
a
guerra
no Afeganistão
Com
todo o respeito, e ainda que mal se pergunte, esta guerra é para
quê? Para capturar o arquiterrorista Osama bin Laden, foi-nos dito
no início. Ultimamente mudou, e parece que é para derrubar
o governo do Afeganistão. Os bombardeios passaram a se concentrar
na capital, Cabul, mais ou menos articulados com as forças de oposição
conhecidas como Aliança do Norte. No início a ênfase
era na busca dos possíveis refúgios do terrorista e sua
turma. Eram-nos apresentados foguetes capazes de entrar nas mais recônditas
tocas e explodir-lhes as paredes. Como se passaram uma, duas, três
semanas e os terroristas não foram encontrados, a impressão
que dá, a nós aqui, desinformados e distantes, é
que se reinventou um objetivo, para não dar a impressão
de que a guerra, com permissão do presidente Fernando Henrique
Cardoso, que recentemente repatenteou a expressão, se desenvolvia
com o senso de direção de baratas tontas.
A dificuldade desta guerra está em identificar-lhe um fim claro
e satisfatório. Vá lá: o fim continua sendo capturar
Laden. Nem pelo fato de os caminhos percorridos, ou descaminhos, terem
conduzido ao desvio da derrubada do governo, o objetivo final deixa de
ser Laden. Tanto se falou dele, tanto se inflou sua fama que não
pode ser de outra forma. A derrubada do governo do Afeganistão
seria o desfecho adequado a uma guerra clássica. Toma-se a capital
do inimigo, desarticula-se seu comando, e ponto. Ocorre que, como nos
alertaram desde o início, esta não é uma guerra clássica,
por mais que, ultimamente, com o avanço rumo a Cabul, ficasse parecendo.
Não é, entre outros motivos, porque não faz sentido
derrubar o governo e deixar de capturar os terroristas.
Laden é então o objetivo. Mas... que fazer com ele? A melhor
hipótese, como admitiu o primeiro-ministro Tony Blair, é
matá-lo em combate. Seria muita gentileza, da parte dele, se facilitasse
as coisas nesse sentido. Se, ao contrário, cometer a perfídia
de deixar-se apanhar vivo, segue-se uma série de dúvidas.
Levá-lo a julgamento? Onde? Nos Estados Unidos ou em outro país?
Julgamento com júri e publicidade, ou militar, secreto? E que pena
lhe atribuir? Prisão perpétua, para virar objeto igualmente
perpétuo de pressão, por sua libertação, da
parte das multidões muçulmanas que o tomam como herói?
Pena de morte, para virar mártir?
Em qualquer caso, da captura do terrorista em diante, é previsível
que multidões muçulmanas se inflamem e, caso se inflamem
muito, governos tremam. Avançando nas especulações,
e se um desses governos for o da Arábia Saudita? A Arábia
Saudita é pró-americana e antiterrorista, mas, em matéria
de fundamentalismo, quase se iguala ao Afeganistão. Laden, ele
próprio um saudita, goza lá, segundo consta, de considerável,
ainda que velado, prestígio. Ora, lembre-se que o outro nome da
Arábia Saudita é petróleo. E que o outro nome dos
EUA é insaciável consumidor de petróleo, o da Arábia
Saudita principalmente. Isso tudo nos leva a concluir, com um toque de
cinismo: não seria melhor deixar Laden em paz em sua toca? Claro
que não!, apressamo-nos em esclarecer. Os EUA têm a obrigação
moral de fazer justiça pela agressão sofrida. Mas... Deus,
em que confusão estão metidos!
Os
americanos têm uma relação tranqüila com seu
presidente. Ele ocupa o mais alto cargo e como tal é respeitado,
sem prejuízo das críticas a suas políticas e do jogo
partidário. Na semana passada George W. Bush foi a um jogo de beisebol
em Nova York e, mesmo com todas as dúvidas sobre a guerra, sua
condução e seus objetivos, que estão longe de habitar
a cabeça apenas do escrevinhador destas linhas, mereceu aplausos
da numerosa platéia. No Brasil a relação é
crispada. A política brasileira é crispada. Não há
espaço aqui para o que nos EUA se chama de bipartisanship,
a convergência dos dois partidos em questões em que se identifica
o interesse nacional. A relação com o presidente é
desassossegada. Na imprensa, bem como nas rodas elegantes, se alguém
o elogia é "chapa branca". De bom-tom é desancá-lo.
Não fosse assim, os meios políticos e adjacentes não
teriam recebido com a indiferença que receberam o discurso do presidente
Fernando Henrique Cardoso na Assembléia Nacional francesa. Foi
um de seus melhores, se não o melhor. "A barbárie não
é somente a covardia do terrorismo, mas também a intolerância
ou a imposição de políticas unilaterais em escala
planetária", disse. Fernando Henrique propôs uma ordem mundial
sem "o predomínio de uns Estados sobre outros, de uns mercados
sobre outros". Para voltar ao começo, e terminar com uma nota edificante,
eis aí, independentemente da derrubada ou não do governo
afegão, da captura ou não de Laden, o melhor desfecho para
a guerra. Que ela desperte as consciências para a inviabilidade
de um mundo tão desequilibrado. O presidente brasileiro tem usado
o prestígio de que goza no exterior e a oportunidade da atual crise
para bater nessa tecla.
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