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Um
pesadelo
Os personagens de Réquiem vão
ao
inferno atrás de felicidade
Isabela
Boscov
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Ellen
Burstyn, como a viúva Sara: ela nem sabe que está tomando drogas
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Sara
Goldfarb é viúva, idosa e o último dia feliz de que
se lembra na vida é o da formatura do colegial do seu filho, Harry
quando o marido estava vivo, o filho não lhe roubava o televisor
todas as semanas para comprar drogas e, especialmente, quando ela ainda
cabia num certo vestido vermelho. Um telefonema de uma emissora de televisão
"Você foi escolhida para aparecer no nosso programa!"
faz Sara acreditar que ela pode regressar a esse dia. Se conseguir entrar
no vestido, vai cobrir-se de glória diante das câmaras. Para
vencer os quilos que a separam dessa felicidade que, aliás,
nunca vai chegar , Sara recorre a um médico, que a entope
de pílulas. Ela nem sabe que está tomando drogas, muito
menos imagina que se tornou uma viciada. Mas sua descida ao inferno é
aniquiladora. É, talvez, o mais horrível dos quatro pesadelos
que compõem Réquiem para um Sonho (Requiem
for a Dream, Estados Unidos, 2000), desde sexta-feira em cartaz em
São Paulo e no Rio.
Adaptado de um romance de Hubert Selby Jr. (de Noites Violentas no
Brooklyn), Réquiem trata de um encontro funesto: aquele entre
pessoas infelizes e as drogas, promessa de alívio para o vazio.
O sonho do título é o sonho americano, de que a felicidade
sempre é possível. É em busca dela que os personagens
estão, ainda que pelo caminho da heroína e das anfetaminas.
Também para a platéia, essa será uma viagem de agonia.
Segundo filme do nova-iorquino Darren Aronofsky, Réquiem
duplica na cabeça do espectador as sensações experimentadas
pelos quatro protagonistas, todos dependentes de drogas pesadas. Quer
queira, quer não, ele é obrigado a subir com eles ao auge
da euforia e depois descer à depressão mais densa, até
que só sobre a degradação. Aronofsky, um talento
que acaba de despontar, se vale de toda espécie de virtuosismo
visual para recriar esse horror. Também de seus atores ele exige
o máximo e mais um tanto. Da experiente Ellen Burstyn, que faz
Sara, até os habitualmente fracos Jared Leto, Jennifer Connelly
e Marlon Wayans, é de se admirar a coragem com que enfrentaram
a desumanização exigida por seus papéis. Não
há lugar para sutilezas em Réquiem. O filme demoniza
as drogas sem nenhum meio-termo e mostra tudo aquilo que se considera
de extremo mau gosto mostrar. Mas é justamente desse exagero e
dessa fúria que ele tira sua limpidez. Sua lição,
por assim dizer, vem no espírito do pensador puritano John Bunyan:
mesmo às portas do paraíso, há uma estrada que leva
ao inferno. É desse caminho tenebroso que se ocupa Réquiem
para um Sonho.
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