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Edição 1 725 - 7 de novembro de 2001
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Um pesadelo

Os personagens de Réquiem vão
ao inferno atrás de felicidade

Isabela Boscov

 

Ellen Burstyn, como a viúva Sara: ela nem sabe que está tomando drogas

Sara Goldfarb é viúva, idosa e o último dia feliz de que se lembra na vida é o da formatura do colegial do seu filho, Harry – quando o marido estava vivo, o filho não lhe roubava o televisor todas as semanas para comprar drogas e, especialmente, quando ela ainda cabia num certo vestido vermelho. Um telefonema de uma emissora de televisão – "Você foi escolhida para aparecer no nosso programa!" – faz Sara acreditar que ela pode regressar a esse dia. Se conseguir entrar no vestido, vai cobrir-se de glória diante das câmaras. Para vencer os quilos que a separam dessa felicidade – que, aliás, nunca vai chegar –, Sara recorre a um médico, que a entope de pílulas. Ela nem sabe que está tomando drogas, muito menos imagina que se tornou uma viciada. Mas sua descida ao inferno é aniquiladora. É, talvez, o mais horrível dos quatro pesadelos que compõem Réquiem para um Sonho (Requiem for a Dream, Estados Unidos, 2000), desde sexta-feira em cartaz em São Paulo e no Rio.

Adaptado de um romance de Hubert Selby Jr. (de Noites Violentas no Brooklyn), Réquiem trata de um encontro funesto: aquele entre pessoas infelizes e as drogas, promessa de alívio para o vazio. O sonho do título é o sonho americano, de que a felicidade sempre é possível. É em busca dela que os personagens estão, ainda que pelo caminho da heroína e das anfetaminas. Também para a platéia, essa será uma viagem de agonia. Segundo filme do nova-iorquino Darren Aronofsky, Réquiem duplica na cabeça do espectador as sensações experimentadas pelos quatro protagonistas, todos dependentes de drogas pesadas. Quer queira, quer não, ele é obrigado a subir com eles ao auge da euforia e depois descer à depressão mais densa, até que só sobre a degradação. Aronofsky, um talento que acaba de despontar, se vale de toda espécie de virtuosismo visual para recriar esse horror. Também de seus atores ele exige o máximo e mais um tanto. Da experiente Ellen Burstyn, que faz Sara, até os habitualmente fracos Jared Leto, Jennifer Connelly e Marlon Wayans, é de se admirar a coragem com que enfrentaram a desumanização exigida por seus papéis. Não há lugar para sutilezas em Réquiem. O filme demoniza as drogas sem nenhum meio-termo e mostra tudo aquilo que se considera de extremo mau gosto mostrar. Mas é justamente desse exagero e dessa fúria que ele tira sua limpidez. Sua lição, por assim dizer, vem no espírito do pensador puritano John Bunyan: mesmo às portas do paraíso, há uma estrada que leva ao inferno. É desse caminho tenebroso que se ocupa Réquiem para um Sonho.

   
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