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Vale o que está
escrito
Como enfrentar
os testes
de grafologia,
cada vez mais usados nas contratações
Maurício
Oliveira
Provavelmente
é ingênua a idéia de que a simples análise
da letra manuscrita possa fornecer indícios de virtudes e defeitos
de uma pessoa. Ainda assim, a grafologia deixou de ser encarada como esoterismo
nos departamentos de recursos humanos de grandes empresas. Pessoas que
influenciam fortemente na contratação de profissionais,
trainees ou estagiários acreditam nela. Por essa razão,
vale a pena entender do que se trata. Pesquisa recém-concluída
pela consultoria internacional Deloitte Touche Tohmatsu, uma das mais
respeitadas no país, revelou que a análise da grafia já
é adotada como critério de seleção de pessoal
por uma entre cada três companhias instaladas no Brasil. "A adesão
cresceu mais de 50% do ano passado para cá, índice muito
superior ao constatado em outros meios de seleção, como
a entrevista pessoal, os testes práticos ou a dinâmica de
grupo", conta a responsável pelo levantamento, Cleide Nakashima,
consultora de gestão de capital humano. Realizado com 130 empresas,
o estudo mostrou que a grafologia está sendo aplicada em todos
os níveis da hierarquia, mas sobretudo nos cargos médios.
Embora costume
trazer diagnósticos incisivos e polêmicos sobre as
aptidões do candidato, o laudo grafológico é tido
como ferramenta complementar, cujo teor deve ser avaliado em conjunto
com os outros métodos adotados pela companhia. Em nenhuma dessas
empresas, é claro, a grafologia aparece como principal instrumento
para escolher os candidatos a uma vaga. O grafólogo avalia com
minúcia uma série de aspectos da escrita, como a inclinação
das letras, a distância entre as palavras ou o cuidado com a pontuação.
O desenho de cada letra também é levado em conta. A forma
como a pessoa corta o "t", por exemplo, suscita várias interpretações,
baseadas na largura e na inclinação da barra e na altura
em relação à haste. "Um texto manuscrito contém
uma incrível riqueza de informações para quem consegue
interpretá-las", diz o administrador carioca Reinaldo Faissal,
professor do MBA da Fundação Getúlio Vargas cuja
dissertação de mestrado defende a utilização
da grafologia em seleção de pessoal.
De maneira
geral, a análise da grafia é feita com base em um texto
pedido ao candidato com esse fim específico. Ele recebe uma folha
sem pauta, tamanho ofício, com a tarefa de escrever cerca de vinte
linhas sobre um assunto livre ou um tema indicado, em geral relacionado
ao ambiente corporativo ou à trajetória pessoal. É
proibido fazer rascunho. "Dificilmente deixamos de perceber quando a pessoa
tenta escrever de uma forma que não é espontânea",
assegura a grafóloga Luciana Boschi, autora do recém-lançado
livro A Personalidade Através da Escrita. Psicóloga
com pós-graduação em administração
de empresas, ela é constantemente procurada por firmas para aplicar
o teste da escrita em processos de contratação. O critério
já está incorporado em companhias de vários setores,
como Telefônica, Ponto Frio, Siemens, Golden Cross, Peugeot, Porto
Seguro, Pão de Açúcar e a farmacêutica Merck
Sharp & Dohme.
Na seguradora
Porto Seguro, a avaliação da grafia é aplicada para
cerca de 80% dos candidatos e foi ampliada também para as formas
internas de seleção, que identificam os funcionários
com potencial de crescimento. "A credibilidade do método se construiu
no cotidiano, já que fomos percebendo uma grande margem de acerto",
diz Mirian Mesquita, coordenadora de recursos humanos. Na Merck Sharp
& Dohme, nenhum processo de seleção é feito sem
essa avaliação. "Os laudos costumam trazer à tona
aspectos da personalidade que não são percebidos na entrevista",
sustenta a gerente de RH, Maria Isabel Paiva. No Pão de Açúcar,
a grafologia começou a ser adotada timidamente em 1994 na escolha
de trainees, com resistência da própria diretora de recursos
humanos, Maria Aparecida Fonseca. "A primeira sensação é
de ceticismo, mas depois se percebe a seriedade", lembra Maria Aparecida.
Hoje, por determinação dela, oito componentes da equipe
já fizeram cursos de grafologia, e a análise da letra passou
a ser adotada não apenas no processo final de seleção,
mas até na triagem dos currículos que chegam à companhia.
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