
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Claudio Rossi
 |
A dificuldade
com a clareza é um traço cultural no Brasil. "Num país
com tantas carências educacionais, falar de maneira rebuscada é
indicador de status, mesmo que o falante não esteja dizendo coisa
com coisa", afirma o professor Francisco Platão Savioli, da Universidade
de São Paulo, autor de nove livros sobre o ensino do idioma. Esse
amor pelas palavras difíceis tem origem na época da transição
do Império para a República, no fim do século XIX.
Conforme explica Sérgio Buarque de Holanda, em seu clássico
Raízes do Brasil, com o advento da República o curso
superior passou a ser o principal parâmetro de reconhecimento social.
Na época, estavam em voga as escolas de direito. Assim, para ser
alguém na sociedade daquele tempo, era necessário não
apenas ser advogado, mas também falar como advogado. É daí
que surge, segundo Sérgio Buarque, a linguagem bacharelesca. Esse
estilo floresceu no começo do século XX e, a partir do modernismo,
seu prestígio foi decaindo. O português empolado persiste,
no entanto, até hoje, em formas degeneradas. Uma delas é
o chamado "burocratês", a linguagem dos memorandos das empresas,
nos quais mesmo para solicitar a compra de uma caixa de clipes são
necessárias várias saudações e salamaleques.
Outra é a retórica de parte dos políticos. O linguajar
pomposo também sobrevive nas teses acadêmicas e, como era
de esperar, no discurso dos advogados.
Há
vários indícios, no entanto, de que essa tradição
de rebuscamento está fadada a ir para a lata de lixo da História.
Na área do direito, por exemplo, existe uma corrente que defende
a simplificação da língua. Há duas semanas,
o desembargador João Wehbi Dib ganhou as manchetes de jornais pelo
tom com que redigiu seu voto num processo contra o escritor Ruy Castro,
acusado de difamar Garrincha no livro Estrela Solitária.
Entre as provas arroladas pelos advogados dos herdeiros do jogador, havia
uma descrição feita por Castro da anatomia íntima
do craque. Para choque de muitos, o desembargador Wehbi Dib discorreu
sobre o assunto sem meias palavras. "As novas gerações de
advogados perceberam que o discurso empolado, muitas vezes, atrapalha
a argumentação lógica", diz Ester Kosovski, professora
da área de direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Outro
golpe no barroquismo vem da própria popularização
do e-mail. "A linguagem da correspondência eletrônica, nas
empresas, tem de ser mais concisa e mais clara que a do memorando, porque
em geral tem o objetivo de provocar uma ação imediata",
analisa o professor paranaense Artur Roman, autor de dissertação
de mestrado sobre o assunto e funcionário do setor de treinamento
do Banco do Brasil.
Ilustraões Orlando
|
A clareza também se tornou a prioridade dos cursos de oratória.
O professor Reinaldo Polito, que há 26 anos tem em São Paulo
uma escola de expressão verbal para profissionais de várias
áreas, constatou, ao longo de sua carreira, uma mudança
significativa. Segundo ele, até pouco tempo atrás a maior
parte de sua clientela era formada por executivos na faixa dos 45 anos,
que se preocupavam, antes de tudo, com a impostação de voz
e a gestualidade. Recentemente, ele passou a ser procurado principalmente
por jovens em início de carreira que querem aprender a se expressar
de forma clara e simples. "Para atender esse pessoal, que hoje é
o grosso do meu público, tive de reorientar o curso. Passei a enfatizar
o encadeamento das idéias e a coerência da argumentação",
conta Polito. A demanda é tanta que, em março passado, ele
inaugurou outra unidade de sua escola, no bairro paulistano do Ipiranga.
Nela, há auditórios de vários tamanhos para simular
diferentes tipos de conferências. Polito tem entre seus alunos o
senador do PT Eduardo Suplicy. "Ele é um homem inteligentíssimo,
só precisa aprender a se expressar melhor. É um grande desafio
para mim", avalia Polito.
A dificuldade
do brasileiro em falar e escrever de forma a se fazer entender não
é apenas conseqüência da tradição bacharelesca.
Há outros fatores. Para começar, lê-se pouco no Brasil.
O parâmetro de comparação que costuma ser utilizado
nessa área é a média de livros publicados per capita,
que resulta da divisão do total da produção pela
população do país. No Brasil se produzem 2,4 livros
por habitante, contra sete na França e onze nos Estados Unidos.
Esse indicador, no entanto, é imperfeito, porque ignora a taxa
de analfabetismo, a proporção de livros didáticos
no universo editorial e a quantidade de volumes que vai parar em bibliotecas.
A Câmara Brasileira do Livro divulgou recentemente um estudo que
mostra que, na verdade, os brasileiros lêem em média apenas
1,2 livro por ano. Não cultivar a leitura é um desastre
para quem deseja expressar-se bem. Ela é condição
essencial para melhorar a linguagem oral e escrita. Quem lê interioriza
as regras gramaticais básicas e aprende a organizar o pensamento.
As escolas
poderiam ensinar a escrever, mas não o fazem. Não que as
aulas de redação sejam em menor número do que o desejado.
O problema é que essa matéria é ensinada de forma
errada, por meio de assuntos distantes da vida real. "Em vez de escrever
redações sobre temas vagos, como 'Minhas férias'
ou 'Meu cachorro', o aluno deveria ser adestrado nos diferentes gêneros
da escrita: a carta, o memorando, a ficção, a conferência
e até o e-mail", opina o professor Luiz Marcuschi, da Universidade
Federal de Pernambuco. Por último, há a questão do
nível dos professores. "A maior parte da mão-de-obra nessa
área é de baixa qualificação", diz o professor
Pasquale Cipro Neto. "Como o aluno vai aprender a diferença entre
sujeito e predicado se nem o professor entende direito? Infelizmente,
não existem bons professores de português em número
suficiente para atender à imensa demanda que o país tem."
Pasquale
conhece bem as carências nessa área. Ele percorre o Brasil
para dar palestras. Transformou-se em estrela de magnitude nacional depois
de atuar em comerciais da rede de lanchonetes McDonald's, em 1997. Pasquale,
no entanto, não é uma unanimidade. Esteja em São
Paulo, Macapá ou Passo Fundo, inevitavelmente ouve críticas.
Elas ecoam o pensamento de uma certa corrente relativista, que acha que
os gramáticos preocupados com as regras da norma culta prestam
um desserviço à língua. De acordo com essa tendência,
o certo e o errado em português não são conceitos
absolutos. Quem aponta incorreções na fala popular estaria,
na verdade, solapando a inventividade e a auto-estima das classes menos
abastadas. Isso configuraria uma postura elitista. Trata-se de um raciocínio
torto, baseado num esquerdismo de meia-pataca, que idealiza tudo o que
é popular inclusive a ignorância, como se ela fosse
atributo, e não problema, do "povo". O que esses acadêmicos
preconizam é que os ignorantes continuem a sê-lo. Que percam
oportunidades de emprego e a conseqüente chance de subir na vida
por falar errado. "Ninguém defende que o sujeito comece a usar
o português castiço para discutir futebol com os amigos no
bar", irrita-se Pasquale. "Falar bem significa ser poliglota dentro da
própria língua. Saber utilizar o registro apropriado em
qualquer situação. É preciso dar a todos a chance
de conhecer a norma culta, pois é ela que vai contar nas situações
decisivas, como uma entrevista para um novo trabalho." Felizmente, a maior
parte das pessoas não está nem aí para a conversa
mole dos relativistas. Quer saber, isso sim, de falar e escrever direito.
A julgar pela máxima do filósofo austríaco Ludwig
Wittgenstein "os limites da minha linguagem são também
os limites do meu pensamento" , os brasileiros que tentam melhorar
seu português estão também aprendendo a pensar melhor.
|
|
 |
|
 |

|
 |