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O guru que rege
uma orquestra
Maestro
inglês junta palestras
com concertos de piano e se
transforma em sucesso da auto-ajuda
Ruth de Aquino,
de Boston, EUA
Ele
conduz multidões com o carisma de um fundamentalista, mas é
inglês e agnóstico. O maestro da Orquestra Filarmônica
de Boston, Benjamin Zander, consegue que mais de 6.000 leigos em música
clássica cantem juntos (e em alemão) a Ode à Alegria,
da Nona Sinfonia de Beethoven. Não como regente, mas como
pregador e profeta. O público acaba em êxtase, aos gritos,
alguns em lágrimas. Ben Zander viaja pelo mundo falando sobre a
vida e tocando piano para platéias seletas de megacompanhias, como
Shell, IBM e British Telecom, e instituições poderosas,
como a Nasa e o Exército americano. Já foi tema de documentário
da BBC de Londres, ganhou um troféu em Davos, no Fórum Econômico
Mundial. O cachê como pregador é altíssimo. Ele tem
em casa um piano Steinway de 75.000 dólares, pago com uma só
palestra nos Estados Unidos.
Nos intervalos das pregações, Zander é um maestro
ativíssimo. Já lotou o famoso Carnegie Hall, em Nova York.
O último produto de Benjamin Zander é o livro The Art
of Possibility, Transforming Professional and Personal Life, editado
no ano passado pela Harvard Business School Press. A versão em
português, com o título A Arte do Possível,
lançada pela Editora Campus em maio, já está na segunda
edição. Quem escreveu o texto, na verdade, foi o guru de
Ben: sua mulher, Rosamund Zander, terapeuta familiar, pintora de paisagens
e conselheira de executivos em crise. Mas é assinado pelo casal.
Eles não moram juntos há quinze anos. Suas casas estão
distantes apenas quatro quarteirões num bairro elegante de Cambridge,
Massachusetts, e ambos permanecem, como dizem, "parceiros intelectuais"
inseparáveis. Sem sexo, garantem.
Mark Alcarez
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| Zander
e sua mulher, Rosamund: escrevem livros juntos mas vivem em casas
separadas |
Editado
no estilo de parábolas com mensagens, o livro conta histórias
vividas por Ben e Rosamund em ambientes que vão da cama matrimonial
aos gabinetes das empresas. Propõe receitas simples, e às
vezes nada convencionais, para o crescimento individual e coletivo, em
casa e na carreira. A obra é difícil de ser encaixada numa
categoria. Nos sites internacionais, aparece em várias listas:
de negócios, especialmente para executivos, de auto-ajuda, de saúde
e de misticismo. O casal Zander é implacável com os maestros.
Convencido de que sua profissão é um dos últimos
redutos do totalitarismo no mundo civilizado, Ben costuma citar um ditado
popular: "Todo ditador sonha ser maestro". Em um trecho ironiza Herbert
von Karajan, o mitológico regente da Filarmônica de Berlim.
Conta que, um dia, Von Karajan entrou num táxi diante da ópera
e gritou para o motorista: "Vamos, depressa!". "Muito bem, senhor", disse
o chofer: "Para onde?". "Não importa", respondeu Karajan, impaciente.
"Eles precisam de mim em todos os lugares!"
Fundador da Filarmônica de Boston e seu regente desde 1979, Benjamin
decidiu romper com a arrogância. Desceu do púlpito e pendurou
uma folha branca na parede, aberta às opiniões de seus músicos.
Após todos os ensaios e performances, a orquestra escreve ali o
que bem desejar. Críticas, elogios, sugestões e queixas
contra o desempenho do regente. Ouvir as bases é o comportamento
que os líderes de verdade deveriam imitar, se quisessem ser respeitados
e admirados. Esse é um dos conselhos dos Zander. Vaidade e tirania,
tão comuns no cotidiano competitivo das orquestras, são
tentações fáceis na vida dos gerentes e presidentes
de empresas. Ou dentro de casa.
Os autores já têm um mérito: em vez de ensinar como
alcançar o orgasmo ou ter uma vida sexual produtiva no casamento,
tema obsessivo em casais de escritores, os Zander se propõem a
dar dicas de amadurecimento. Benjamin e Rosamund negam que o objetivo
seja oferecer estratégias para se dar bem no mundo competitivo
das grandes empresas. O livro seria um guia para "pairar acima de todas
as disputas". As "lições" do livro são, de acordo
com os autores, "tão relevantes ao mundo corporativo quanto ao
casamento; tão importantes na diplomacia quanto na resolução
de conflitos familiares".
É
curioso que, com tanta sensatez, o casal Zander não tenha conseguido
manter o casamento. Rosamund diz que ambos criaram um novo tipo de relação
que passa por cima das diferenças e mantém a amizade e a
parceria intelectual. O livro deles passa também por aí.
Como terapeuta, Rosamund acha que os pais deveriam fazer um esforço
maior para ficar juntos, em benefício dos filhos, criando novas
possibilidades de relacionamento. "As mulheres viveram muito tempo na
sombra", diz. "Hoje, têm chance de ter um caso amoroso fora do casamento,
um novo emprego, e às vezes a família se desestrutura com
isso, em vez de se reinventar. Quem perde mais são os filhos."
Ben é um homem de grandes platéias, encantado com a própria
capacidade de despertar a paixão pela música. Suas palestras
duram duas horas e se propõem a transformar a vida dos ouvintes.
Ele faz algumas exigências. Entre elas, um grande piano afinado
no centro do palco, dois quadros com lápis pretos e vermelhos,
microfone de lapela, cópias impressas da Ode à Alegria.
Uma curiosidade: as palestras funcionam melhor se forem logo antes do
almoço ou do jantar. No fim, farta venda de CDs e livros. Nascido
na Inglaterra (seus três irmãos são todos alemães),
Zander começou a compor aos 9 anos e aos 15 já estudava
na Itália e na Alemanha, sob a orientação do violoncelista
espanhol Gaspar Cassado. É fã de experiências polêmicas.
"Sou a favor de romper barreiras", diz.
Ele faz a orquestra fechar os olhos e tocar, como se todos fossem cegos,
uma sinfonia de Dvorák. Alça inesperadamente alguns músicos
à posição de maestro por um dia. Muda os músicos
de lugar para que toquem ao lado de instrumentos não-familiares.
O que ele não suporta é o pensamento para baixo, pessimista
e negativo, que, segundo ele, destrói qualquer liderança.
"Não há tempo ruim", afirma, "só roupa inadequada."
O fato de a Orquestra Sinfônica de Boston dispor de 52 milhões
de dólares de orçamento anual, enquanto sua orquestra, a
Filarmônica, conta com menos de 1 milhão de dólares
por ano, já é, para o maestro, um convite imperioso à
criatividade.
"Nunca
duvide da capacidade das pessoas de realizar qualquer coisa que você,
como líder, sonhe para elas", diz o maestro. Como professor, Benjamin
Zander decidiu dar nota 10 a toda a turma, no início do ano letivo,
e pediu aos alunos que escrevessem uma carta, com verbos no passado, explicando
por que eles mereceram a nota máxima nos meses que se passaram.
O resultado, segundo ele, foi magnífico. Todos buscaram o que havia
de melhor em si para justificar a nota.
Zander critica a maneira burocrática com que muitas orquestras
tocam sinfonias apaixonantes. "Beethoven criou a Quinta Sinfonia
como um ataque contra a complacência, contra o status quo, contra
a forma como as pessoas vêem as coisas. Ele estava erguendo seu
punho. Eu quero despertar as pessoas, pelas palavras e pelo som. Minha
função como maestro é lembrar a todos o que era a
música originalmente, no momento em que foi concebida. Em cada
ensaio, cada performance. Um dia, depois de um ensaio no Carnegie Hall,
uma mulher veio a mim, contrariada. Achei que eu tinha feito alguma coisa
terrível. Mas ela disse: 'Obrigada por me lembrar o motivo que
me levou a ser música. Eu tinha me esquecido disso nos últimos
25 anos'."
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