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Por que corremos riscos

Levadas pelos amigos, pela vontade
de fugir do tédio e pelo puro prazer,
as pessoas voam, saltam e mergulham
em busca do frio
na barriga

Bel Moherdaui

A boca seca, as pupilas dilatam-se, a pele empalidece, o coração dispara, os pêlos se eriçam, o estômago vira. Em seguida vêm o alívio, a satisfação, o intenso prazer. A seqüência de emoções é típica das situações de alto risco que encantam e atraem um número cada vez maior de adeptos no Brasil e no resto do mundo – gente que, em vez de ter os dois pés seguramente plantados no chão, prefere desafiar a sorte, abrindo um negócio próprio, aplicando dinheiro em ações ou então vivendo na vizinhança do risco físico. Alguns mergulham no meio de tubarões. Outros preferem andar em montanha-russa, vencer corredeiras em um bote inflável ou subir e descer paredões de montanhas. Trata-se de uma tendência mundial, que tem sua maior comprovação no crescimento do número de praticantes de esportes radicais. Entre as várias formas de exercícios, essa é a modalidade que mais ganha adeptos no planeta. No Brasil, existem atualmente 5.000 praticantes ativos de snowboard, o esqui largo de uma única tábua para a neve. Esse número é dez vezes maior que o de cinco anos atrás, com um detalhe: não há uma única região brasileira em que caia neve para a prática desse esporte. A Confederação Brasileira de Pára-Quedismo calcula que 10.000 pessoas tenham sentido o frio na barriga de uma queda livre ao menos uma vez no último ano. No início da década de 90, menos da metade experimentava a sensação. O Centro Excursionista Brasileiro, associação de montanhismo carioca, estima que existam no país cerca de 12.000 alpinistas, quatro vezes mais que há cinco anos. Por que tanta gente corre atrás de aventuras? Por que colocar a vida em risco?

Fotos arquivo pessoal
vo pessoal
Luiz Makoto Ishibe, 41, alpinista, praticante de escalada sem cordas de segurança
"Acho que existe um tanto de vaidade na prática de um esporte arriscado. É uma sensação muito boa estar bem em uma situação adversa. Quantas pessoas agüentariam? Sou um privilegiado."

"Nada se compara ao prazer de ver as janelas passando, a queda livre acelerando você e o chão crescendo na sua frente. É a adrenalina, a emoção, o vento, tudo isso misturado", tenta explicar o paulista Luiz Henrique Tapajós, o Sabiá, 30 anos, que já fez cerca de 700 saltos de base jump, um dos esportes com mais risco de morte do mundo. Munido de um pára-quedas especial, maior que o normal, o praticante salta ou de um prédio (o b, de building em inglês), ou de uma antena (o a, de antenna), ou de uma ponte (o s, de span), ou de um monte (o e, de earth) – ou de qualquer outro objeto fixo que tenha altura suficiente para que o pára-quedas se abra. O salto de um prédio de trinta andares (cerca de 100 metros) dura em média doze segundos, sendo três de queda livre e nove de pára-quedas, que é acionado a cinqüenta metros do solo. Nada pode dar errado, porque não há segunda chance. Sabiá, o maior especialista brasileiro no assunto, contabiliza pelo menos vinte conhecidos mortos em saltos, dois deles grandes amigos seus que dominavam plenamente a técnica do esporte. Ainda assim, o base jump ganha cada vez mais adeptos. Nos Estados Unidos, são quase 2.000. Sabiá, o 468º praticante no mundo a ter completado o circuito dos quatro pontos que formam a sigla b.a.s.e. – contabilidade feita pela Associação de Base dos Estados Unidos –, calcula que aqui no Brasil cerca de vinte pessoas já praticaram o base jump.

Turismo sacrificado – Se a descrição de Sabiá do momento do pulo soa emocional, é porque emoção é justamente o que ele busca em cada salto. Sempre foi assim: Sabiá é uma lenda do esporte radical brasileiro, que desde os 15 anos corre atrás do perigo. Não admira que sejam poucos os praticantes desse desafio à sobrevivência que é o base jump. Mas o cordão dos que aderem ao pára-quedas ou ao rappel (descida de montanhas com cordas) é hoje um sólido batalhão que reúne de estudantes a donas-de-casa e funcionários de escritórios. "O público urbano vive trancado em prédios, onde há pouco espaço para ação, e sente falta de coisas estimulantes", explica o psicólogo Antonio Carlos Amador Pereira, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Por algo estimulante, entendam-se um salto assistido de pára-quedas ou de asa-delta, uma descida de corredeiras com monitores, coletes salva-vidas e equipe de apoio. Prova desse interesse é a Adventure Sports Fair, feira que reúne empresas de equipamentos, escolas e agências do chamado turismo de aventura, que atraiu a São Paulo, em outubro, 75.000 visitantes, quase o dobro da primeira edição, há dois anos, e movimentou aproximadamente 50 milhões de reais.

 
Luis Roberto de Moraes, o Formiga, 38, praticante de mais de uma dezena de esportes radicais
"Não ando de moto na cidade de jeito nenhum, para não forçar o anjo da guarda a fazer hora extra. Não dá para ser um cara 100% radical."

Quem experimenta um esporte arriscado em geral adora, mas depois volta para casa e para o emprego de sempre, contentando-se com um ou outro bis de vez em quando. Uns poucos são fisgados pela adrenalina e mergulham no perigo. O paulistano Alexandre Freitas, 39 anos, foi apresentado às corridas de aventura por um colega de trabalho e nunca mais parou. Já contabiliza seis no currículo, cada qual uma provação de sete ou oito dias em que dorme pouco, come quase nada, se esfalfa em mountain bike, caminhadas, travessia de rio e rappel, tudo no meio do mato. "Eu jamais conheceria algumas regiões, como o meio da Floresta Amazônica, se não fosse pela corrida de aventura", justifica, como se a maratona no mato fosse só mais uma opção turística. Aficionado de emoções fortes, Freitas, nas horas vagas, desafia limites como administrador do mercado de ações.

 
Luiz Henrique Tapajós, o Sabiá, 30, praticante de base jump, um dos esportes mais arriscados
"Para viver do jeito que eu quero, preciso correr riscos. Não é que eu corra atrás do perigo. Ele é uma conseqüência da emoção, do prazer, da aventura."

A descarga de emoção que Freitas, Sabiá e seus colegas radicais perseguem é, fisicamente falando, uma reação bioquímica que envolve a liberação no cérebro de três substâncias: a conhecida adrenalina, a endorfina e a dopamina. Quando a pessoa começa a se aprontar para a aventura, ela recebe uma descarga de adrenalina, o mediador químico que, desde que o mundo é mundo, prepara o corpo para duas reações primordiais à vida: a fuga e a luta. É dessa descarga que vêm a boca seca, o aumento da freqüência cardíaca, a dilatação das pupilas e a redistribuição do fluxo sanguíneo. Durante a prática da atividade, entra em ação a endorfina, outro mediador químico, que tem a capacidade de amortecer a dor e o desconforto provocados por eventuais lesões – daí que muita gente só venha a perceber que quebrou o pé ou cortou o braço depois que a atividade acaba e o corpo "esfria". Por fim, entra em cena a dopamina, que atua no centro de prazer do sistema nervoso e é responsável pela sensação de satisfação ao final da prova. "Algumas pessoas têm uma regulagem diferenciada de dopamina. Quanto maior a quantidade liberada, mais o indivíduo precisa dela. Se ficar sem sua dose de dopamina, ele pode até entrar em depressão ou se tornar agressivo", alerta o professor do departamento de psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo Marco Tulio de Mello. Segundo ele, ainda não se sabe por que algumas pessoas precisam estimular mais as áreas do prazer do que outras, mas é fato comprovado que algumas desenvolvem um quadro parecido com o da dependência de drogas quando se privam dessas emoções. "Se fico muito tempo sem surfar, eu me sinto mal, deprimido, estressado", concorda o surfista Carlos Burle, de 33 anos, do Recife, especialista em ondas gigantes. Burle enfrenta "monstros" marinhos de até 15 metros de altura há muitos anos, mas confessa que dorme mal na véspera e se sente intranqüilo. "Antes de entrar, o coração dispara e a boca fica seca, é aquele nervosismo. Nem gosto de ficar olhando muito o mar", descreve. "Na hora em que estou na onda, fico tão compenetrado que nem sinto tanto prazer. Bom mesmo é quando acaba", diz.

 
Christian Gaul
Kai Konragan

Carlos Burle, 33, surfista de ondas gigantes
"Pegar uma onda gigante é uma sensação muito boa, dá um prazer muito grande. É muito arriscado, mas se fizer com consciência e preparo físico você não vai morrer."

Nem é preciso onda gigante – por muito menos, o trio adrenalina-endorfina-dopamina se faz presente. Descer na montanha-russa dá um frio na barriga? Culpa da adrenalina, que tira o sangue de áreas prescindíveis, como estômago, e o redireciona para os músculos, preparando o corpo para, mais uma vez, fugir ou lutar. "É justamente por causa da diminuição do fluxo sanguíneo no sistema digestivo que as pessoas têm enjôos em situações de risco", explica o fisiologista Turíbio Leite de Barros. Apesar de eventuais desconfortos, o casal de publicitários Simone Certain e Fabio Sgarbi, de São Paulo, adora a sensação. Os dois são fanáticos por montanha-russa e sempre que viajam dão um jeito de testar uma nova. Não aceitam qualquer carrinho, não – tem de ser no primeiro, ainda que signifique mais tempo na fila. "Faz muita diferença. Nos outros carrinhos você só enxerga a cabeça das pessoas que estão na sua frente. No primeiro a emoção é muito maior", ensina a experiente Simone. Na fila do parque de diversões, o casal Sgarbi acostumou-se a disputar lugar com um bando de adolescentes – estes, os fregueses preferenciais de uma boa montanha-russa, um temor feito na medida para essa fase da vida cheia de medos. "O adolescente sofre uma série de mudanças com a entrada na puberdade e precisa testar seus novos limites e sentimentos. Por isso ele gosta de brinquedos como a montanha-russa e de atrações de terror", diz o psicólogo Pereira.

"Suicídio inconsciente" – Luis Roberto Rodrigues de Moraes, o Formiga, sabe muito bem o que é um adolescente às turras com seus limites. Aos 15 anos, era surfista e campeão de skate. Aos 17, começou a aprender a voar de asa-delta. Depois, embrenhou-se pelo snowboard (o skate sem rodas na neve) e pelo skysurf (voar com uma prancha nos pés) – atividades que na época ainda eram pouco conhecidas por aqui. Hoje, pratica o dicionário inteiro dos esportes radicais, o que já lhe rendeu muitos sustos e dezessete fraturas. "Podia ter morrido pelo menos umas seis vezes. Frações de segundo antes de dar de cara em uma pedra, consegui manobrar e sair", vangloria-se aos 38 anos, ainda com pinta de garotão – tênis laranja, bermuda vermelha, camisa de surfista, colar azul, rosto queimado de sol e cabelos espetados.


Cibele Tolentino, 39, funcionária pública, fã do mergulho com tubarões
"Dá muito medo ver tubarões passando em volta da gente, mas é um medo que você quer sentir. É próprio do ser humano ficar tentando descobrir seu limite."

Nem todos os radicais têm problemas psicológicos, e nem todos os problemas são radicais. O que empurra um esportista para o perigo muitas vezes é o simples fato de o pai, ou a mãe, ou o irmão mais velho já praticarem uma modalidade mais light da atividade. Mas, no fundo, a prática do risco intenso, com possibilidade de um desfecho fatal, tem raízes complexas e em muitos casos está atrelada a um fascínio pela morte que a pessoa nem sabe que possui. "Quem se arrisca pode estar escondendo uma tentativa de suicídio inconsciente", alerta o psiquiatra e psicoterapeuta Eduardo Ferreira-Santos, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Pode ser uma pessoa que desafia a morte como se fosse um herói, onipotente, tão poderoso que pode vencer a própria morte", explica. Ferreira-Santos destaca ainda, entre os que gostam de se arriscar, "o falso corajoso, o introvertido, que tem um potencial depressivo e quer acabar com sua vida, e o psicótico, que não tem a menor noção do risco e vai subir a montanha em um processo delirante".

Medo reprisado – Distúrbios dessa natureza não fazem parte do perfil dos praticantes regulares de esportes radicais, em geral gente muito equilibrada, que tem consciência dos perigos que corre. Tanto que, ao menor indício de que estão sendo vistos como malucos, sacam de um mesmo e inevitável argumento: "É arriscado, mas é um risco calculado". Assim pontifica, sempre que provocado, o alpinista Luiz Makoto Ishibe, paulista de 41 anos que já perdeu a conta do número de vezes que praticou free solo, nome de guerra da escalada em pedra ou gelo sem cordas de proteção. Ishibe acredita que o conceito de risco está muito ligado ao que é ou não aceito pela sociedade. "Temos o mau costume de criar padrões comportamentais, e o que não se encaixa neles é tratado como loucura, inconseqüência. A Fórmula 1, por exemplo, é muito perigosa, mas já é uma atividade consagrada. Da mesma forma, quando o empresário Abilio Diniz anuncia um superinvestimento, ninguém fala de risco, mas de arrojo", compara.

A viagem de férias ideal da funcionária pública Cibele Tolentino, 39 anos, de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, é exemplo típico do que é visto como pura maluquice. Fã de mergulho, ela aproveitou uma temporada na ilha de Nassau, nas Bahamas, para confraternizar com tubarões. "De cima do barco se vê um monte deles. Daí, todo mundo pula na água. Lá embaixo, tem de ficar com os braços junto ao corpo, fazendo o mínimo possível de movimento. O instrutor leva uma caixa de isca e vai alimentando os tubarões com um arpão. Eles ficam passando em volta da gente. Às vezes esbarram, mas não fazem nada", ensina ela, que morreu de medo, adorou e repetiu a experiência. O medo, nessa hora, funciona como um alarme do corpo para dizer que o limite está sendo atingido, e tem de ser controlado, para atuar como uma forma de equilíbrio. "Tenho muito medo nas provas, minha barriga até dói", diz a paulistana Hérica Sanfelice, 24 anos, recepcionista de restaurante, que, quando pode, se arrisca em corridas de aventura. "O medo funciona para você se concentrar e ficar mais atento", acredita. Hérica está tendo, neste exato momento, a oportunidade de pôr sua experiência de atleta aventureira à prova: é uma das integrantes da equipe Água do No Limite III, que a TV Globo começou a exibir na semana passada.

   
 
   
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