Hora da limpeza
Vai ser
votada emenda que facilita
processar parlamentar criminoso
O presidente
da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG), coloca na pauta de votação
nesta semana um projeto de emenda constitucional para modificar a imunidade
parlamentar. É um avanço. De acordo com o projeto, a Justiça
poderá processar os parlamentares acusados de crimes comuns, como
faz com qualquer cidadão. Caso a emenda seja aprovada, os processos
contra parlamentares que foram engavetados no passado poderão seguir
seu curso normal. Essas peças jurídicas raramente andaram
porque a imunidade erguia uma barreira. É preciso autorização
do Congresso para levar à Justiça um parlamentar acusado
de crime comum. A história indica que esses documentos são
fadados ao engavetamento. Nos últimos doze anos, apenas dois deputados
puderam ser processados. Um estava sendo investigado por crimes contra
a Previdência Social, o outro por suspeitas de envolvimento com
o tráfico de drogas.
"Essa vai
ser a lei da limpeza", diz Aécio Neves. Faz seis anos que esse
projeto circula pelo Congresso. Entrar na pauta de votação
é um avanço digno de nota. Resta saber se os parlamentares
que não têm nada a temer estarão dispostos a enfrentar
o corporativismo da bancada dos desonestos. A última medida moralizante,
o Código de Ética dos parlamentares, não surtiu os
efeitos esperados. A idéia até era boa no nascedouro, mas
foi tão podada no plenário que se desfigurou.
Todas as
nações democráticas adotam a imunidade parlamentar.
A essência desse instrumento é garantir ao político
eleito a liberdade de se expressar livremente durante o exercício
do mandato. Já na Constituição de 1824, o Brasil
fez uma interpretação marota dessa idéia e transformou
a imunidade em um dos mecanismos mais odiosos de impunidade no país.
Ele se manteve até os dias de hoje, sendo reeditado em todas as
Constituições. É uma aberração. Nos
Estados Unidos os parlamentares só estão protegidos pelo
que falam no exercício do mandato. A Constituição
brasileira atual manda suspender automaticamente os processos movidos
contra os políticos que conseguem uma vaga na Câmara ou no
Senado. Pela emenda proposta por Aécio Neves, os crimes comuns
porventura cometidos por um político antes de sua eleição
não podem ser protegidos pelos mecanismos jurídicos da imunidade
parlamentar. Só isso já impediria que criminosos buscassem
eleger-se apenas para se livrar da perseguição da Justiça.
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