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É o PT
na fita
Gravações
mostram que o dinheiro
do
jogo do bicho pode ter passado
pela
campanha de Olívio Dutra
Diogo Schelp
Gravado em fita ou em CD, o discurso do PT do Rio Grande do Sul é
muito diferente daquela aura de santidade que o partido exibe no horário
político da televisão. Nas últimas duas semanas,
uma lufada de gravações vem complicando a vida do PT. São
conhecidas até agora três gravações de diálogos
sobre finanças, financiadores e polícia com a participação
de militantes do partido. Uma, cuja íntegra ainda estava inédita
até a véspera do feriado de sexta-feira, contém declarações
do ex-secretário de Finanças do PT gaúcho Jairo Carneiro
dos Santos nas quais ele diz que a compra de uma sede para o partido foi
feita com dinheiro do jogo do bicho, com autorização do
governador Olívio Dutra.
Jairo dos Santos negou essa história quando falou do caso na CPI
da Segurança Pública, instaurada em abril na Assembléia
Legislativa do Estado, mas sua voz está num CD que os deputados
gaúchos já tinham ouvido. "Fizeram uma janta com o Olívio",
ele conta na gravação. "O Olívio relutou muito. Acabou
autorizando." O ex-secretário de Finanças é um personagem
que se tem de ouvir com cuidado, porque antes que tudo isso acontecesse
ele foi expulso do partido, por desvio de recursos. Só que sua
versão dos fatos a gravada bate com outra gravação
que chegou à CPI, bem mais apimentada. Nesta, feita em 1999, o
delegado Luiz Fernando Tubino, então chefe de polícia, foi
flagrado conversando com Diógenes Oliveira, arrecadador de campanhas
petistas e presidente de uma entidade inventada para arrecadar dinheiro,
o Clube de Seguros da Cidadania. Diógenes Oliveira aparece dizendo
que, por delegação do governador, deve pedir docilidade
à polícia no trato com os bicheiros. "Dei um carteiraço,
falei indevidamente em nome do governador", ele afirma agora, sem negar
a conversa.
A história tem outros detalhes que deixam o PT em má situação.
Primeiro porque Diógenes conta na fita que o PT gastou 5 milhões
de reais na última campanha ao governo do Estado mas o partido
só prestou contas de 2 milhões. Depois porque esse Clube
da Cidadania comprou um prédio para servir de sede do PT, em 1998,
misturando ao dinheiro investido também doações que
recebeu supostamente para aplicar em projetos sociais. Por fim, a ligação
entre as pontas da história leva à suspeita de que o dinheiro
dos bicheiros abasteceu campanhas políticas do partido, no passado,
e também foi usado na compra da sede. Em troca, os contraventores
ganharam liberdade para explorar o jogo do bicho sem ser importunados
pela polícia. De acordo com a gravação de Jairo dos
Santos, "eram 600.000 (reais) a contribuição dos
bicheiros". Quatro delegados afirmaram à CPI ter ouvido o colega
Tubino dizer, em 1999, que a propina do jogo do bicho, antes destinada
a policiais, passaria a ser direcionada toda para obras do governo do
Estado. Ele nega ter afirmado isso.
É
tal a confusão que uma empresa que doou legalmente dinheiro para
a campanha petista, a fábrica de ônibus Marcopolo, agora
está vendo surgir cópias de recibos de donativos que jamais
fez para o Clube da Cidadania. "Nós nem sabíamos que esse
clube existia", diz Carlos Zignani, diretor corporativo da Marcopolo.
O Clube da Cidadania foi criado pelos petistas para contornar a legislação
que proíbe sindicatos de fazer doações para partidos,
entre outras atividades. De um lado, o clube pode receber das instituições
de classe. De outro, pode dar dinheiro a partidos. "O clube foi criado
para arrecadar recursos para o PT", admite Daniel Gonçalves, um
dos diretores. "Era para conseguir também lucros com seguros, mas
isso não deu muito certo." Diante do teor corrosivo dos fatos para
a imagem do governador Olívio Dutra, a cúpula petista preparou
um coro que tenta salvar-lhe a pele. "Quem andou falando com bicheiros
em nome do PT e do governador não será poupado", prometeu
o presidente do partido, José Dirceu.
Com essa posição, vai para a fogueira outra figura histórica
do PT gaúcho. Diógenes, um ex-militante do grupo Vanguarda
Popular Revolucionária, foi preso durante o regime militar, acabou
solto por exigência dos seqüestradores do cônsul japonês
em São Paulo, em março de 1970, e viveu no exílio
até 1984. Conforme os próximos capítulos do seriado
em fitas no Rio Grande do Sul, ele poderá ter outros companheiros
enfrentando a comissão de ética partidária. Já
se sabe há tempos de uma gravação em que o secretário
de Segurança, José Paulo Bisol, afirma a policiais envolvidos
num homicídio que podia aliviar suas punições se
eles entregarem superiores. O delegado Tubino contou a um amigo que tem
mais duas fitas. E o advogado Wilson Müller, que não conta
a quem representa, informa que tem mais quatro. Pelo visto, o mate está
fervendo na cuia usada pelo Palácio Piratini. Mas pode ferver também
no Norte. Um assessor do governador do Acre, o petista Jorge Viana, caiu
num grampo, legal, quando conversava com um empresário que tentava
acelerar o recebimento de créditos e cobrava o cumprimento de "acordos"com
o governo.
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CONVERSA
GRAVADA
Trechos da fita gravada em 1999, na qual um dos arrecadadores de
dinheiro do PT gaúcho, Diógenes Oliveira, pede ao
então chefe de polícia liberdade de ação
para bicheiros
"O
Olívio pediu para aproximar as relações deles
na área (...) Nós sempre tivemos uma relação
muito boa, muito estreita, com esse pessoal do Carnaval e do jogo
do bicho (...) Nós achamos que não tem de reprimir
esta gente!"
Diógenes Oliveira, presidente do Clube de Seguros da
Cidadania
"Conversei
com o Bisol. Eles que estabelecem a política de segurança
e eu executo. Eu não sei qual é o interesse dele, qual
é a, vamos dizer assim, o objetivo. É para reprimir,
não é pra reprimir?"
Luiz Fernando Tubino, delegado |
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