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Lobby
chega ao Planalto
Em sua
rede de assessores em postos estratégicos, o lobista tinha até
secretária da poderosa Casa Civil

Felipe Patury
e Policarpo Junior

O poderoso
Gianni, da Casa Civil: partilhando secretária com lobista
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O economista
Silvano Gianni é um burocrata de carreira, tido como funcionário
discreto e competente. É o secretário executivo da Casa
Civil e trabalha no 4º andar do Palácio do Planalto. Entrou
para a turma do poder em meados da década de 80. Morava em Porto
Seguro, na Bahia, quando aceitou convite de seu amigo Andrea Calabi para
formar a equipe inicial da Secretaria do Tesouro Nacional. Nunca mais
deixou de ocupar cargos federais. Começou a despachar no Palácio
do Planalto a convite de outro amigo, o então ministro da Casa
Civil, Clóvis Carvalho. Está lá até hoje.
Há seis meses, desde que seu atual chefe, o ministro Pedro Parente,
foi escalado para coordenar o racionamento de energia elétrica,
Silvano Gianni chegou ao auge de seu poder. Na prática, atua como
ministro da Casa Civil, o sensível coração da burocracia
do governo. Examina leis, medidas provisórias e decretos presidenciais.
Sempre que o serviço assim o exige, ele despacha diretamente com
o presidente Fernando Henrique Cardoso.
O nome de
Silvano Gianni aparece uma vez na agenda do lobista Alexandre Paes dos
Santos, o polêmico livrinho que, apreendido pela Polícia
Federal no mês passado, não pára de revelar as obscuras
relações entre o poder e o dinheiro em Brasília.
No dia 7 de agosto passado, o lobista anotou uma audiência com Silvano
Gianni e o ministro Pedro Parente, marcada para as 15 horas. Em outra
anotação, o nome de Gianni integra um organograma de supostos
aliados no governo federal dos pleitos do banco Opportunity. São
informações irrelevantes. Um funcionário tão
poderoso como Silvano Gianni não poderia estar fora da agenda de
nenhum lobista que se preze, muito menos de Alexandre Paes dos Santos,
considerado o gigante do ramo em Brasília. Como Gianni cuida de
uma gama enorme de assuntos greve de servidores, acordos financeiros
com empresas de aviação, regulamentação do
setor de medicamentos , seria estranho que não despertasse
atenção de um lobista.
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| O
lobista APS: rede de assessores em postos-chave |
A
secretária Ana Cristina: "bicos" em traduções
e pedido de demissão |
Mas existem
estranhezas nessa história. Alexandre Paes dos Santos já
disse mais de uma vez que conhece Silvano Gianni e, para alguns amigos,
até já andou fazendo comentários oblíquos,
insinuando que o secretário da Casa Civil teria um agudo pendor
para os negócios. Mas Silvano Gianni afirma exatamente o contrário.
Na semana passada, ele não quis falar diretamente com VEJA. Por
meio da assessoria do Palácio do Planalto, mandou dizer que jamais
esteve com o lobista, nunca teve nenhum tipo de relação
comercial ou profissional com ele e não faz a menor idéia
de como seu nome foi parar na agenda. É possível que Alexandre
Paes dos Santos tenha garganteado ter relações próximas
com funcionários influentes da Casa Civil para apresentar-se mais
poderoso perante seus clientes potenciais. Afinal, ele já andou
comentando que tinha acesso até ao presidente da República
por intermédio de um amigo comum, o fazendeiro Jovelino Carvalho
Mineiro, sócio da fazenda da família do presidente em Buritis,
no interior de Minas Gerais. "Nunca vi esse sujeito", desmente Jovelino.
Mas há
outras estranhezas. Dentro da equipe de secretárias de Silvano
Gianni, a principal é Ana Cristina Felipe Improise. Funcionária
de carreira do Itamaraty, ela já morou no exterior e, em 1996,
foi requisitada pelo Palácio do Planalto para compor os quadros
da recém-criada Coordenação Política, na época
chefiada pelo ministro Luiz Carlos Santos, outro freqüentador da
agenda do lobista. Um ano depois, foi transferida para a Casa Civil. Entre
1999 e 2000, Ana Cristina tinha dois senhores. De manhã, despachava
com Silvano Gianni na Casa Civil. Atendia a telefones, agendava compromissos
e organizava a rotina do gabinete. À tarde, prestava serviços
na APS, a empresa de consultoria do lobista. Os funcionários sabiam
da dupla militância da secretária. A situação
chegou a causar alguns constrangimentos no ambiente de trabalho. "Muitas
vezes se comentou que isso ia acabar dando rolo", relembra um assessor
do Palácio do Planalto que desfruta a amizade de Silvano Gianni,
e, por dever de ofício, conhece bem a estrutura da Casa Civil.
Ana Cristina
diz que não é bem assim. Ela conta que fez apenas alguns
"bicos" para o lobista, traduzindo documentos do inglês para o português.
"Apenas fazia traduções de correspondência e documentos
que exigiam uma elaboração maior", explica. A secretária
não lembra bem o tipo de documento que traduzia, diz que eram relatórios
que chegavam do exterior, nem quanto o serviço rendia a seu orçamento.
Eram trabalhos informais, sem contrato ou recibo de pagamento. Ela afirma
que não tinha contato direto com Alexandre Paes dos Santos. Como
então o lobista descobriu seus serviços de tradutora? Ana
Cristina diz que conheceu o lobista na época em que trabalhava
na Coordenação Política, mas garante que foi chamada
para fazer traduções por outra via. Conta que estava cadastrada
numa empresa para a qual prestara o mesmo serviço. Ela acredita
que, através desse cadastro, o lobista, que tem escritório
em Miami, descobriu seu nome embora ela não estivesse pedindo
emprego nem anunciando seus serviços nos classificados. O lobista
não quer falar do assunto. Nem precisa.
Com o conteúdo
de sua agenda vindo a público, já se descobriu que ele tinha
um certo apreço por funcionários de escalões inferiores
lotados em postos-chave. Um era Hugo Braga, assessor parlamentar do ministro
da Fazenda, Pedro Malan, que acabou demitido depois que se conheceu sua
relação com Alexandre Paes dos Santos. Outro era a secretária
Débora Alves, que trabalhava para o chefe da Agência de Vigilância
Sanitária, Gonzalo Vecina Neto, e também foi afastada do
cargo no Ministério da Saúde. No caso da assessora da Casa
Civil, além das estranhezas, há uma contradição.
Consultado por VEJA, Silvano Gianni diz que sabia que Ana Cristina, como
oficial de chancelaria que é, fazia traduções fora
do horário de expediente no Palácio do Planalto, mas jamais
foi informado de que trabalhava para Alexandre Paes dos Santos. Ana Cristina,
por sua vez, disse a VEJA que seu chefe sabia, sim, que entre seus clientes
informais estava incluído o lobista. Como a corda se rompe no lado
mais fraco, Ana Cristina já está limpando as gavetas. Na
quinta-feira, pediu demissão. Servidora do Ministério das
Relações Exteriores, vai voltar a seu lugar de origem
e ficar longe do ninho do lobista.
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