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Edição 1 725 - 7 de novembro de 2001
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Lobby chega ao Planalto

Em sua rede de assessores em postos estratégicos, o lobista tinha até
secretária da poderosa Casa Civil

Felipe Patury e Policarpo Junior



O poderoso Gianni, da Casa Civil: partilhando secretária com lobista

O economista Silvano Gianni é um burocrata de carreira, tido como funcionário discreto e competente. É o secretário executivo da Casa Civil e trabalha no 4º andar do Palácio do Planalto. Entrou para a turma do poder em meados da década de 80. Morava em Porto Seguro, na Bahia, quando aceitou convite de seu amigo Andrea Calabi para formar a equipe inicial da Secretaria do Tesouro Nacional. Nunca mais deixou de ocupar cargos federais. Começou a despachar no Palácio do Planalto a convite de outro amigo, o então ministro da Casa Civil, Clóvis Carvalho. Está lá até hoje. Há seis meses, desde que seu atual chefe, o ministro Pedro Parente, foi escalado para coordenar o racionamento de energia elétrica, Silvano Gianni chegou ao auge de seu poder. Na prática, atua como ministro da Casa Civil, o sensível coração da burocracia do governo. Examina leis, medidas provisórias e decretos presidenciais. Sempre que o serviço assim o exige, ele despacha diretamente com o presidente Fernando Henrique Cardoso.

O nome de Silvano Gianni aparece uma vez na agenda do lobista Alexandre Paes dos Santos, o polêmico livrinho que, apreendido pela Polícia Federal no mês passado, não pára de revelar as obscuras relações entre o poder e o dinheiro em Brasília. No dia 7 de agosto passado, o lobista anotou uma audiência com Silvano Gianni e o ministro Pedro Parente, marcada para as 15 horas. Em outra anotação, o nome de Gianni integra um organograma de supostos aliados no governo federal dos pleitos do banco Opportunity. São informações irrelevantes. Um funcionário tão poderoso como Silvano Gianni não poderia estar fora da agenda de nenhum lobista que se preze, muito menos de Alexandre Paes dos Santos, considerado o gigante do ramo em Brasília. Como Gianni cuida de uma gama enorme de assuntos – greve de servidores, acordos financeiros com empresas de aviação, regulamentação do setor de medicamentos –, seria estranho que não despertasse atenção de um lobista.

 
O lobista APS: rede de assessores em postos-chave A secretária Ana Cristina: "bicos" em traduções e pedido de demissão

Mas existem estranhezas nessa história. Alexandre Paes dos Santos já disse mais de uma vez que conhece Silvano Gianni e, para alguns amigos, até já andou fazendo comentários oblíquos, insinuando que o secretário da Casa Civil teria um agudo pendor para os negócios. Mas Silvano Gianni afirma exatamente o contrário. Na semana passada, ele não quis falar diretamente com VEJA. Por meio da assessoria do Palácio do Planalto, mandou dizer que jamais esteve com o lobista, nunca teve nenhum tipo de relação comercial ou profissional com ele e não faz a menor idéia de como seu nome foi parar na agenda. É possível que Alexandre Paes dos Santos tenha garganteado ter relações próximas com funcionários influentes da Casa Civil para apresentar-se mais poderoso perante seus clientes potenciais. Afinal, ele já andou comentando que tinha acesso até ao presidente da República por intermédio de um amigo comum, o fazendeiro Jovelino Carvalho Mineiro, sócio da fazenda da família do presidente em Buritis, no interior de Minas Gerais. "Nunca vi esse sujeito", desmente Jovelino.

Mas há outras estranhezas. Dentro da equipe de secretárias de Silvano Gianni, a principal é Ana Cristina Felipe Improise. Funcionária de carreira do Itamaraty, ela já morou no exterior e, em 1996, foi requisitada pelo Palácio do Planalto para compor os quadros da recém-criada Coordenação Política, na época chefiada pelo ministro Luiz Carlos Santos, outro freqüentador da agenda do lobista. Um ano depois, foi transferida para a Casa Civil. Entre 1999 e 2000, Ana Cristina tinha dois senhores. De manhã, despachava com Silvano Gianni na Casa Civil. Atendia a telefones, agendava compromissos e organizava a rotina do gabinete. À tarde, prestava serviços na APS, a empresa de consultoria do lobista. Os funcionários sabiam da dupla militância da secretária. A situação chegou a causar alguns constrangimentos no ambiente de trabalho. "Muitas vezes se comentou que isso ia acabar dando rolo", relembra um assessor do Palácio do Planalto que desfruta a amizade de Silvano Gianni, e, por dever de ofício, conhece bem a estrutura da Casa Civil.

Ana Cristina diz que não é bem assim. Ela conta que fez apenas alguns "bicos" para o lobista, traduzindo documentos do inglês para o português. "Apenas fazia traduções de correspondência e documentos que exigiam uma elaboração maior", explica. A secretária não lembra bem o tipo de documento que traduzia, diz que eram relatórios que chegavam do exterior, nem quanto o serviço rendia a seu orçamento. Eram trabalhos informais, sem contrato ou recibo de pagamento. Ela afirma que não tinha contato direto com Alexandre Paes dos Santos. Como então o lobista descobriu seus serviços de tradutora? Ana Cristina diz que conheceu o lobista na época em que trabalhava na Coordenação Política, mas garante que foi chamada para fazer traduções por outra via. Conta que estava cadastrada numa empresa para a qual prestara o mesmo serviço. Ela acredita que, através desse cadastro, o lobista, que tem escritório em Miami, descobriu seu nome – embora ela não estivesse pedindo emprego nem anunciando seus serviços nos classificados. O lobista não quer falar do assunto. Nem precisa.

Com o conteúdo de sua agenda vindo a público, já se descobriu que ele tinha um certo apreço por funcionários de escalões inferiores lotados em postos-chave. Um era Hugo Braga, assessor parlamentar do ministro da Fazenda, Pedro Malan, que acabou demitido depois que se conheceu sua relação com Alexandre Paes dos Santos. Outro era a secretária Débora Alves, que trabalhava para o chefe da Agência de Vigilância Sanitária, Gonzalo Vecina Neto, e também foi afastada do cargo no Ministério da Saúde. No caso da assessora da Casa Civil, além das estranhezas, há uma contradição. Consultado por VEJA, Silvano Gianni diz que sabia que Ana Cristina, como oficial de chancelaria que é, fazia traduções fora do horário de expediente no Palácio do Planalto, mas jamais foi informado de que trabalhava para Alexandre Paes dos Santos. Ana Cristina, por sua vez, disse a VEJA que seu chefe sabia, sim, que entre seus clientes informais estava incluído o lobista. Como a corda se rompe no lado mais fraco, Ana Cristina já está limpando as gavetas. Na quinta-feira, pediu demissão. Servidora do Ministério das Relações Exteriores, vai voltar a seu lugar de origem – e ficar longe do ninho do lobista.

 
 
   
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