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Edição 1 725 - 7 de novembro de 2001
Brasil Rio de Janeiro

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Ele fez fortuna

Apesar da labuta política, Leonel
Brizola conseguiu, em vinte anos,
juntar dinheiro
para alcançar um
patrimônio de 15 milhões de reais

Ronaldo França

Paulo Jares

Entre as qualidades do ex-governador Leonel Brizola, uma chama a atenção: a capacidade de não descuidar das finanças pessoais mesmo quando mantém dedicação integral à política. Nos últimos vinte anos, ele esteve envolvido em nada menos que onze eleições, sendo que em seis delas diretamente como candidato. Nas outras cinco trabalhou na costura de apoios e alianças capazes de levar adiante seu projeto de criar um partido político forte e chegar à Presidência da República. Registre-se que nesse intervalo ocupou por duas vezes a cadeira de governador do Rio de Janeiro. Apesar de tanta labuta, nos últimos tempos vem colhendo mais insucessos que êxitos. Para sua sorte, as dificuldades se dão apenas na política. No plano pessoal, vive uma surpreendente prosperidade. Foi justamente nesses anos atribulados que Brizola realizou uma façanha inatingível para a maioria dos brasileiros: a de erigir um magnífico patrimônio. Mesmo sem despender a mesma energia que dedicou aos palanques – e sem chamar a atenção –, ele costurou um pé-de-meia de pelo menos 15 milhões de reais em terras e imóveis. Em outras palavras, Brizola tornou-se um abastado senhor de terras.

É bem verdade que uma parte de seus bens veio da herança recebida por sua mulher, Neusa, já falecida. Mas muito do que o casal recebeu acabou se perdendo. As dificuldades do exílio obrigaram Brizola a se desfazer da maior parte dos imóveis. Restaram apenas, a valores de hoje, 4,3 milhões de reais. Ou seja, em vinte anos, ele quase quadruplicou sua fortuna. Quando assumiu o governo do Rio, em 1983, a declaração de bens que entregou à Justiça Eleitoral registrava em seu nome apenas dois apartamentos e 1.514 hectares de terra, no Estado uruguaio de Durazno, localizado na região central daquele país. Na época, pesava sobre parte da propriedade rural uma hipoteca, assumida em 1981. A hipoteca total era de pouco mais de 1,3 milhão de reais. Ou seja, quase um quarto de tudo o que possuía estava comprometido como garantia de pagamentos. Pois, sem precisar sair de seu confortável apartamento na Avenida Atlântica, na Zona Sul do Rio, Brizola comandou um crescimento vertiginoso em suas terras e engordou o patrimônio. Foram acrescidos, entre 1984 e 1995, 5.200 novos hectares a suas fazendas. Nem tudo figura em seu nome. Com a morte da mulher, em 1993, dividiu os bens com seus três filhos, José Vicente, João Otávio e Neusa Maria, a Neusinha. Muitos ele recomprou. Outros ainda estão em nome dos filhos. Mas foi ele certamente o responsável por garantir à família um futuro tranqüilo. Sua propriedade uruguaia tem hoje uma área equivalente a 39 parques Ibirapuera ou um terço da cidade do Recife. Ou ainda, vista de outro ângulo, é do tamanho de 4,5 milhões de dólares. Algo como 12,3 milhões de reais.

 
Carlos Garcia
Oscar Cabral
Fazenda de Brizola: crescendo sem o olho do dono para engordar os bois A residência no Rio: apartamento ampliado para o prédio vizinho

Esse é o valor das terras segundo as avaliações feitas por VEJA com base em documentos oficiais obtidos na Direção Geral de Registro de Propriedades do Uruguai. Para chegar a essas cifras, VEJA procurou escritórios de negócios rurais, consultorias agropecuárias e técnicos do Ministério da Pecuária e Agricultura, pasta encarregada da atividade rural uruguaia. A avaliação de terras leva em conta não apenas a dimensão dos terrenos. É feita baseada em um complexo modelo de valoração, que inclui cálculos de índices de produtividade de cada pedaço do terreno. O Uruguai é dos poucos países do mundo em que a terra está quase inteiramente mapeada, com a qualidade e o tipo de cada solo registrados pelo governo. É possível saber quanto de carne bovina, ovina e lã se pode extrair de cada lote que se destina à pecuária. O rebanho estimado de Brizola é de 6.000 cabeças de gado bovino, das raças Aberdeen Angus e Hereford, e 10.000 ovelhas, da raça Corriedale. Por não dispor de informação atualizada, VEJA não considerou toda essa manada de 16.000 cabeças – um número em constante alteração – no cálculo do patrimônio de Leonel Brizola. Vacas e ovelhas ficaram fora da conta. Caso fossem incluídas, elevariam esse patrimônio para as vizinhanças de 19,5 milhões de reais.

É surpreendente constatar que Brizola conseguiu amealhar todo seu esplêndido patrimônio com um salário mensal líquido equivalente hoje a 12.755 reais. Esse é o resultado da soma de suas três pensões: 5.600 reais como ex-governador do Rio Grande do Sul, 6.175 reais como ex-governador do Rio – provento interrompido a cada vez que exerceu um cargo eletivo – e uma outra renda de 980 reais, por ter sido duas vezes deputado federal, embora não tenha concluído nenhum de seus mandatos. É uma excelente aposentadoria para os padrões brasileiros. Principalmente porque, somando-se o tempo necessário para conquistá-la, Brizola conta apenas catorze anos de serviço. Hoje, o ex-governador leva uma vida tranqüila. Seus dias são dedicados a contatos políticos por telefone, na casa sempre movimentada pela presença dos velhos companheiros e netos. Atualmente, apóia as pretensões de Itamar Franco em sua possível candidatura à Presidência.

 
Carlos Garcia
Oscar Cabral
Apartamento em Montevidéu: de frente para o mar A casa em Itaipava: comprada à vista durante o primeiro governo

É um desafio entender como Brizola, com um salário de 12.755 reais, pôde acumular, em apenas vinte anos, um patrimônio de 10,7 milhões de reais, que é a diferença entre o que ele possui e o valor de seus bens no início da década de 80. Para ser mais preciso, foram onze anos, já que é no intervalo entre 1984 e 1995 que se concentram todas as aquisições. Caso não gastasse um único centavo em despesas pessoais ou com a família, seriam necessários setenta anos de poupança contínua. Não poderia nem mesmo comprar presentes para os netos no Natal. Seriam anos penosos. Caso não tivesse todas as suas contas pagas pelo Estado, nos oito anos em que foi governador, teria economizado 1,3 milhão de reais. Muito menos do que amealhou.

Foi justamente nos anos em que ocupou o Palácio Guanabara, a sede do poder fluminense, que teve seus períodos mais prósperos, tanto profissional quanto pessoalmente. No primeiro mandato, de 1983 a março de 1987, Brizola marcou sua administração com grandes obras. Entre elas, a construção do Sambódromo, no centro do Rio de Janeiro, e o projeto dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps). As 506 escolas foram edificadas ao custo de 1 milhão de dólares cada uma. O projeto dos Cieps foi questionado principalmente porque acabou por priorizar a engenharia. Para executar a tarefa de colocar de pé os prédios de concreto armado, Brizola recrutou seu filho mais novo, o também engenheiro João Otávio Brizola, que deixou o emprego público de 3.000 reais, em valores da época, como funcionário da Companhia Municipal de Conservação e Obras Públicas do Rio de Janeiro, para se tornar um abastado empresário da construção civil na Califórnia. Foi quem geriu as obras das escolas nos dois governos.

Em seu segundo ano do primeiro mandato, Brizola realizou o sonho de nove entre dez cariocas: comprou um sítio na região serrana do Rio, em Itaipava, um distrito da cidade imperial de Petrópolis. A propriedade – 144.000 metros quadrados numa das mais privilegiadas regiões da cidade – é um naco de paraíso onde o então governador passou a descansar nos fins de semana. A casa está localizada estrategicamente no alto de um monte. Da varanda se domina a visão de todo o terreno e de uma paisagem deslumbrante. Além de uma belíssima casa, tem ainda piscina e heliponto. Tamanha excelência tem seu preço: 1,2 milhão de reais. Com o metro quadrado cotado a 5 reais, somente o terreno vale 700.000 reais. A compra do sítio, em agosto de 1984, foi à vista, como informa a escritura do 10º Registro de Imóveis de Petrópolis. Na exclusivíssima tranqüilidade da serra, o ex-governador passa seus fins de semana acompanhado da família e dos amigos, muitos deles inseparáveis desde os tempos em que vivia no Rio Grande do Sul.

Depois de chacoalhar a administração estadual com obras grandiosas, Brizola pôde voltar sua atenção para Durazno. Oito meses após deixar o cargo, em março de 1987, registrou a compra de 1.092 hectares. Tudo em nome de sua mulher. Foi um negócio e tanto. São terras perfeitas para o plantio de eucaliptos, avaliadas, a preços de hoje, em 2,1 milhões de reais. O reflorestamento é uma atividade lucrativa no Uruguai porque conta com um generoso subsídio governamental e um mercado internacional forte. Os 900.000 pés de eucalipto de Brizola podem render, no mínimo, 1,6 milhão de reais – aliás, é esperado o abate das árvores para os próximos meses, a primeira leva desde que Brizola as plantou. Exatamente em função das possibilidades de grandes lucros, um solo que se preste ao plantio de eucaliptos chega a ser avaliado em 2.000 dólares, ou 5.400 reais, o hectare. Principalmente se, como os de Brizola, estiverem próximos ao leito de um rio. A compra de 1987 coroa um período próspero de Brizola como fazendeiro, embora durante os quatro anos anteriores se tivesse dedicado apenas a governar o Rio.

 

 
 
   
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