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Edição 1 725 - 7 de novembro de 2001
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Ameaça nuclear do Islã

AFP
AP
SEGUNDA ONDA
Paquistaneses protestam em Karachi: receio de golpe levou o governo Bush a preparar plano para se apoderar do arsenal nuclear do Paquistão

O Paquistão é o aliado estratégico mais vital dos Estados Unidos na luta contra o regime Talibã e na perseguição à quadrilha de Osama bin Laden. Mas é também a fonte de uma grande dor de cabeça para os americanos. O problema: os paquistaneses têm mais de vinte bombas atômicas armazenadas que podem ser lançadas de aviões. O temor é de que o atual governo paquistanês, simpático aos EUA, seja derrubado por fanáticos apoiadores do Talibã afegão. Nesse caso, os novos governantes teriam acesso ao arsenal nuclear do país. Essa hipótese é uma das mais delicadas com que os americanos têm de se defrontar. Entre os chefes do serviço secreto, militares e cientistas que cuidam do arsenal nuclear do Paquistão estão alguns simpatizantes e, suspeita-se, partidários dos talibãs do vizinho Afeganistão. "A situação é literalmente explosiva", disse um diplomata ao repórter Seymour Hersh, da revista americana New Yorker. Hersh é um dos mais respeitados repórteres investigativos dos Estados Unidos e autor de oito livros sobre os envolvimentos militares americanos. Numa reportagem Hersh descreve um plano secreto que os americanos tocam com ajuda dos israelenses para tomar de assalto as instalações nucleares do Paquistão caso o governo seja derrubado pelos opositores radicais. O governo paquistanês não comentou oficialmente a preocupação americana. Nem podia fazê-lo. Admitir que tem conhecimento de um plano com participação israelense para atacar um país muçulmano, no caso o próprio país, seria a sentença de morte para o presidente Pervez Musharraf.

Alguns fatos mostram, porém, que algo de muito anormal anda acontecendo nos porões do aliado-problema. Três cientistas nucleares foram detidos para averiguações no Paquistão. Dois deles, Bashirudin Mahmood e Chaudry Majid, são velhos conhecidos dos serviços de inteligência da Inglaterra e de Israel. Ambos estão aposentados mas têm amigos e colaboradores entre os cientistas com acesso ao projeto nuclear paquistanês. Ainda há denúncias de que o ISI, o serviço secreto paquistanês, estaria envolvido no assassinato de Abdul Haq, líder da Aliança do Norte que combatia o Talibã e seria uma peça-chave em um futuro governo afegão. O próprio ISI monitorava os passos de Haq e a CIA suspeita de que sua morte no mês passado tenha sido tramada pela inteligência paquistanesa. O presidente Musharraf mandou afastar do ISI uma meia dúzia de espiões com conhecida atuação partidária no radicalismo islâmico. Mas a situação não é tranqüila. Quatro semanas de bombardeios depois e o destino da guerra no Afeganistão ainda é um enigma. Quanto mais tempo dura a caçada a Osama bin Laden, mais cresce o risco de o Paquistão mergulhar numa crise política insolúvel. A crise pode muito bem culminar com um golpe contra Musharraf, que, aliás, chegou ao poder em 1999 pela força, ao derrubar um governo eleito. Ele tomou o poder um ano depois de o Paquistão testar seu primeiro artefato nuclear. Acredita-se que atualmente o país possua ogivas atômicas, embora seja consenso que lhe faltem os veículos lançadores – os mísseis de grande alcance e capacidade.

Hoje, o presidente paquistanês mal se equilibra entre as exigências de lealdade aos americanos e o descontentamento da população e de parte da cúpula militar. As pesquisas palacianas informam que ele tem o apoio de sete em cada dez paquistaneses. Institutos independentes, porém, dão conta de que ele enfrenta a insatisfação de 87% da população. Muito provavelmente, a verdade nesse caso está nos números das pesquisas independentes. No último domingo, o presidente paquistanês sofreu outro golpe. Um grupo de extremistas islâmicos abriu fogo contra uma multidão de cristãos que rezava numa igreja na cidade de Behawalpur, na província de Punjab, matando quinze pessoas. Apenas 2% dos 145 milhões de paquistaneses são cristãos, que se converteram na época da colonização inglesa na esperança de melhorar de vida. Cinco décadas depois, são considerados a escória da sociedade pela maioria muçulmana. O massacre da semana passada foi mais um indício de que o presidente paquistanês está longe de controlar os extremistas, dentro e fora do governo.

AP
INTOLERÂNCIA
Funeral dos quinze cristãos mortos por extremistas islâmicos na província de Punjab

A hipótese de o governo paquistanês cair e, com ele, o arsenal nuclear passar às mãos dos radicais deixou há bom tempo de ser apenas um cenário pavoroso. Ela é real. "O Ocidente conhece a ponta de um iceberg muito sério", disse a Seymour Hersh um alto funcionário do serviço secreto paquistanês. A força de elite que estaria sendo treinada para tomar o arsenal paquistanês trabalha em conjunto com a Unidade 262 do Exército israelense. É o mais reputado comando do mundo. Foram seus membros que, em 1976, realizaram o resgate histórico no Aeroporto de Entebe, em Uganda, considerada a mais bem-sucedida ação de comando da história bélica moderna. Na ocasião, o comando israelense invadiu o avião, matou sete seqüestradores e resgatou mais de 100 passageiros – apenas o comandante da operação e dois reféns morreram na ação. Dessa vez, a missão tem um grau de risco muito maior devido à total ausência de dados: a CIA ainda não dispõe de informações precisas sobre a quantidade de ogivas nucleares existente e tampouco onde estão guardadas no Paquistão. E, sem informações, não há missão.

A apreensão de Washington quanto ao futuro do arsenal paquistanês não é exagerada. A possível queda de Musharraf, além de atrapalhar de vez a caçada a Osama bin Laden, causaria uma reviravolta na geopolítica mundial. De um lado, daria o empurrão que os fundamentalistas islâmicos do Paquistão esperavam para declarar a Jihad ("guerra santa") e levantar de vez a população do país contra a operação militar americana no Afeganistão. Não é difícil imaginar a revolta se alastrando rapidamente para outros países muçulmanos. Há ainda o chamado "fator apocalipse" – a ameaça de uma guerra nuclear entre Paquistão e Índia. O Paquistão realizou com sucesso o primeiro teste nuclear em 1998, um feito que foi comemorado nas ruas como se o país tivesse vencido uma Copa do Mundo. Estima-se que o Paquistão conte hoje com pelo menos 24 ogivas nucleares, que podem ser disparadas de mísseis de médio alcance ou de caças F-16. A "bomba islâmica" é o maior trunfo paquistanês contra o inimigo histórico, a Índia. Os dois países vivem às turras desde 1947, quando a Índia foi dividida em duas regiões. A de maioria hindu se tornou a República da Índia. Na região de maioria muçulmana foi fundado o Paquistão. A divisão não impediu que as duas nações se engalfinhassem numa disputa territorial pela região da Caxemira – província indiana de maioria muçulmana que já foi motivo de duas guerras entre indianos e paquistaneses.

Os analistas sustentam que a melhor maneira de os Estados Unidos ajudarem seu bom amigo Musharraf é colocar um fim aos ataques ao Afeganistão, o que por enquanto está fora de cogitação. O desgaste do presidente paquistanês é crescente. A cada semana, ele parece lentamente seguir a trilha de isolamento de outro líder acuado por extremistas, o palestino Yasser Arafat. Musharraf faz o que pode para tranqüilizar os americanos. Seu governo declarou que pretende retomar as negociações de paz com a Índia e, como primeiro passo, ofereceu condolências pela morte de trinta pessoas num atentado realizado pela guerrilha muçulmana na Caxemira, há um mês. O gesto pode mudar a maneira com que o governo paquistanês encara os grupos fundamentalistas da região. O Paquistão esteve sempre ao lado dos terroristas da Caxemira por considerá-los organizações separatistas que lutam pela independência da Índia. A história se repete. Os radicais do lado certo são chamados de combatentes. Os do outro lado, de terroristas.

 
 
   
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