
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Ameaça
nuclear do Islã
AFP
 |
AP
 |
SEGUNDA
ONDA
Paquistaneses protestam em Karachi: receio de golpe levou o governo
Bush a preparar plano para se apoderar do arsenal nuclear do Paquistão |
O
Paquistão é o aliado estratégico mais vital dos Estados
Unidos na luta contra o regime Talibã e na perseguição
à quadrilha de Osama bin Laden. Mas é também a fonte
de uma grande dor de cabeça para os americanos. O problema: os
paquistaneses têm mais de vinte bombas atômicas armazenadas
que podem ser lançadas de aviões. O temor é de que
o atual governo paquistanês, simpático aos EUA, seja derrubado
por fanáticos apoiadores do Talibã afegão. Nesse
caso, os novos governantes teriam acesso ao arsenal nuclear do país.
Essa hipótese é uma das mais delicadas com que os americanos
têm de se defrontar. Entre os chefes do serviço secreto,
militares e cientistas que cuidam do arsenal nuclear do Paquistão
estão alguns simpatizantes e, suspeita-se, partidários dos
talibãs do vizinho Afeganistão. "A situação
é literalmente explosiva",
disse um diplomata ao repórter Seymour Hersh, da revista americana
New Yorker. Hersh é um dos mais respeitados repórteres
investigativos dos Estados Unidos e autor de oito livros sobre os envolvimentos
militares americanos. Numa reportagem Hersh descreve um plano secreto
que os americanos tocam com ajuda dos israelenses para tomar de assalto
as instalações nucleares do Paquistão caso o governo
seja derrubado pelos opositores radicais. O governo paquistanês
não comentou oficialmente a preocupação americana.
Nem podia fazê-lo. Admitir que tem conhecimento de um plano com
participação israelense para atacar um país muçulmano,
no caso o próprio país, seria a sentença de morte
para o presidente Pervez Musharraf.
Alguns
fatos mostram, porém, que algo de muito anormal anda acontecendo
nos porões do aliado-problema. Três cientistas nucleares
foram detidos para averiguações no Paquistão. Dois
deles, Bashirudin Mahmood e Chaudry Majid, são velhos conhecidos
dos serviços de inteligência da Inglaterra e de Israel. Ambos
estão aposentados mas têm amigos e colaboradores entre os
cientistas com acesso ao projeto nuclear paquistanês. Ainda há
denúncias de que o ISI, o serviço secreto paquistanês,
estaria envolvido no assassinato de Abdul Haq, líder da Aliança
do Norte que combatia o Talibã e seria uma peça-chave em
um futuro governo afegão. O próprio ISI monitorava os passos
de Haq e a CIA suspeita de que sua morte no mês passado tenha sido
tramada pela inteligência paquistanesa. O presidente Musharraf mandou
afastar do ISI uma meia dúzia de espiões com conhecida atuação
partidária no radicalismo islâmico. Mas a situação
não é tranqüila. Quatro semanas de bombardeios depois
e o destino da guerra no Afeganistão ainda é um enigma.
Quanto mais tempo dura a caçada a Osama bin Laden, mais cresce
o risco de o Paquistão mergulhar numa crise política insolúvel.
A crise pode muito bem culminar com um golpe contra Musharraf, que, aliás,
chegou ao poder em 1999 pela força, ao derrubar um governo eleito.
Ele tomou o poder um ano depois de o Paquistão testar seu primeiro
artefato nuclear. Acredita-se que atualmente o país possua ogivas
atômicas, embora seja consenso que lhe faltem os veículos
lançadores os mísseis de grande alcance e capacidade.
Hoje, o presidente paquistanês mal se equilibra entre as exigências
de lealdade aos americanos e o descontentamento da população
e de parte da cúpula militar. As pesquisas palacianas informam
que ele tem o apoio de sete em cada dez paquistaneses. Institutos independentes,
porém, dão conta de que ele enfrenta a insatisfação
de 87% da população. Muito provavelmente, a verdade nesse
caso está nos números das pesquisas independentes. No último
domingo, o presidente paquistanês sofreu outro golpe. Um grupo de
extremistas islâmicos abriu fogo contra uma multidão de cristãos
que rezava numa igreja na cidade de Behawalpur, na província de
Punjab, matando quinze pessoas. Apenas 2% dos 145 milhões de paquistaneses
são cristãos, que se converteram na época da colonização
inglesa na esperança de melhorar de vida. Cinco décadas
depois, são considerados a escória da sociedade pela maioria
muçulmana. O massacre da semana passada foi mais um indício
de que o presidente paquistanês está longe de controlar os
extremistas, dentro e fora do governo.
AP
 |
INTOLERÂNCIA
Funeral
dos quinze cristãos mortos por extremistas islâmicos
na província de Punjab |
A
hipótese de o governo paquistanês cair e, com ele, o arsenal
nuclear passar às mãos dos radicais deixou há bom
tempo de ser apenas um cenário pavoroso. Ela é real. "O
Ocidente conhece a ponta de um iceberg muito sério", disse a Seymour
Hersh um alto funcionário do serviço secreto paquistanês.
A força de elite que estaria sendo treinada para tomar o arsenal
paquistanês trabalha em conjunto com a Unidade 262 do Exército
israelense. É o mais reputado comando do mundo. Foram seus membros
que, em 1976, realizaram o resgate histórico no Aeroporto de Entebe,
em Uganda, considerada a mais bem-sucedida ação de comando
da história bélica moderna. Na ocasião, o comando
israelense invadiu o avião, matou sete seqüestradores e resgatou
mais de 100 passageiros apenas o comandante da operação
e dois reféns morreram na ação. Dessa vez, a missão
tem um grau de risco muito maior devido à total ausência
de dados: a CIA ainda não dispõe de informações
precisas sobre a quantidade de ogivas nucleares existente e tampouco onde
estão guardadas no Paquistão. E, sem informações,
não há missão.
A
apreensão de Washington quanto ao futuro do arsenal paquistanês
não é exagerada. A possível queda de Musharraf, além
de atrapalhar de vez a caçada a Osama bin Laden, causaria uma reviravolta
na geopolítica mundial. De um lado, daria o empurrão que
os fundamentalistas islâmicos do Paquistão esperavam para
declarar a Jihad ("guerra santa") e levantar de vez a população
do país contra a operação militar americana no Afeganistão.
Não é difícil imaginar a revolta se alastrando rapidamente
para outros países muçulmanos. Há ainda o chamado
"fator apocalipse" a ameaça de uma guerra nuclear entre Paquistão
e Índia. O Paquistão realizou com sucesso o primeiro teste
nuclear em 1998, um feito que foi comemorado nas ruas como se o país
tivesse vencido uma Copa do Mundo. Estima-se que o Paquistão conte
hoje com pelo menos 24 ogivas nucleares, que podem ser disparadas de mísseis
de médio alcance ou de caças F-16. A "bomba islâmica"
é o maior trunfo paquistanês contra o inimigo histórico,
a Índia. Os dois países vivem às turras desde 1947,
quando a Índia foi dividida em duas regiões. A de maioria
hindu se tornou a República da Índia. Na região de
maioria muçulmana foi fundado o Paquistão. A divisão
não impediu que as duas nações se engalfinhassem
numa disputa territorial pela região da Caxemira província
indiana de maioria muçulmana que já foi motivo de duas guerras
entre indianos e paquistaneses.
Os analistas sustentam que a melhor maneira de os Estados Unidos ajudarem
seu bom amigo Musharraf é colocar um fim aos ataques ao Afeganistão,
o que por enquanto está fora de cogitação. O desgaste
do presidente paquistanês é crescente. A cada semana, ele
parece lentamente seguir a trilha de isolamento de outro líder
acuado por extremistas, o palestino Yasser Arafat. Musharraf faz o que
pode para tranqüilizar os americanos. Seu governo declarou que pretende
retomar as negociações de paz com a Índia e, como
primeiro passo, ofereceu condolências pela morte de trinta pessoas
num atentado realizado pela guerrilha muçulmana na Caxemira, há
um mês. O gesto pode mudar a maneira com que o governo paquistanês
encara os grupos fundamentalistas da região. O Paquistão
esteve sempre ao lado dos terroristas da Caxemira por considerá-los
organizações separatistas que lutam pela independência
da Índia. A história se repete. Os radicais do lado certo
são chamados de combatentes. Os do outro lado, de terroristas.
|
|
 |