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Edição 1 725 - 7 de novembro de 2001
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O marquês guru

"Concordo com Marco Aurélio Garcia,
que quer me processar: o Brasil é
mesmo
o fim da picada"

Duas semanas atrás escrevi um artigo sobre o guru de Lula, Marco Aurélio Garcia. Ele não gostou. Disse que devo estar sem assunto para ter dedicado uma coluna inteira a alguém desimportante como ele. Tem razão: sempre sinto falta de assunto. Tanto que, no passado, já tratei até da esteira rolante do Aeroporto de Cumbica. Não creio que Marco Aurélio Garcia seja menos importante que a esteira rolante do Aeroporto de Cumbica. Além disso, eu gostaria de tranqüilizá-lo recordando que também sou pouca coisa. Como ele próprio diz, não passo de uma versão farsesca de Paulo Francis. Um pseudo-Paulo Francis. Um arremedo de Paulo Francis. Estamos todos no mesmo nível, portanto: eu, Marco Aurélio Garcia e a esteira rolante de Cumbica.

Marco Aurélio Garcia não aceita a definição de "guru de Lula". Não fui eu que dei a definição. Copiei-a de uma entrevista que ele concedeu à Folha de S.Paulo. Não vejo nada de errado em ter um guru. Paulo Francis foi meu guru. Se Lula tivesse um bom guru, sem dúvida seria muito melhor. Marco Aurélio Garcia acusa-me de ser preconceituoso. Ele acha que eu acho que "um simples metalúrgico não pode ter sozinho uma visão aprofundada da realidade brasileira". Não é verdade. A falta de visão de Lula independe da profissão que exerceu no passado. O fato de ter sido um metalúrgico não é um problema, assim como não é um mérito. O primeiro-ministro italiano, por exemplo, é o homem mais rico de seu país, mas não há ninguém mais abominavelmente impróprio que ele para governar.

Para Marco Aurélio Garcia, sou um "Ezra Pound tupiniquim". Suponho que ele não me atribua o talento literário do poeta americano. O termo "tupiniquim", então, é pejorativo. Significa pobre, de araque, de terceira categoria. Concordo com ele. O Brasil é mesmo o fim da picada. Por isso não reclamo apenas de Lula, mas de todos os políticos que este país já teve, dos índios tupiniquins em diante. Não faço como Marco Aurélio Garcia, que sente nostalgia da política econômica do regime militar. O mesmo regime militar que o prendeu, condenou e obrigou ao exílio. É a velha Síndrome de Estocolmo, que faz com que seqüestrados acabem por se identificar com seus carcereiros.

Além de guru de Lula, Marco Aurélio Garcia também é secretário da Cultura de São Paulo. Ele defende sua gestão dizendo que não limpou a estátua de Borba Gato e que abriu bibliotecas em lugares improváveis, como canteiros de obras, para servir aos peões. Marco Aurélio Garcia diz que essas bibliotecas permitem conhecer "eternas promessas da nossa literatura", referindo-se ironicamente a mim. Bobagem. Se as pessoas não me lerem, não estarão perdendo nada.

Marco Aurélio Garcia começa com a afirmação de que é desimportante, "um pobre marquês", mas logo muda de idéia, não me reconhecendo estatura moral para julgá-lo. Esses petistas são esquisitos. Em menos de cinco minutos vão do vitimismo pauperista ao delírio de onipotência. Por causa de meu artigo, ele ameaçou me processar. Se levar adiante a ameaça, provavelmente serei julgado durante a presidência Lula, com Marco Aurélio Garcia no cargo de ministro da Cultura. Como sou muito covarde, acho que será melhor não colocar mais os pés no Brasil.

 
 
   
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