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O
marquês guru
"Concordo
com
Marco Aurélio
Garcia,
que
quer me processar:
o Brasil
é
mesmo o
fim da picada"
Duas semanas atrás escrevi um artigo sobre o guru de Lula, Marco
Aurélio Garcia. Ele não gostou. Disse que devo estar sem
assunto para ter dedicado uma coluna inteira a alguém desimportante
como ele. Tem razão: sempre sinto falta de assunto. Tanto que,
no passado, já tratei até da esteira rolante do Aeroporto
de Cumbica. Não creio que Marco Aurélio Garcia seja menos
importante que a esteira rolante do Aeroporto de Cumbica. Além
disso, eu gostaria de tranqüilizá-lo recordando que também
sou pouca coisa. Como ele próprio diz, não passo de uma
versão farsesca de Paulo Francis. Um pseudo-Paulo Francis. Um arremedo
de Paulo Francis. Estamos todos no mesmo nível, portanto: eu, Marco
Aurélio Garcia e a esteira rolante de Cumbica.
Marco Aurélio Garcia não aceita a definição
de "guru de Lula". Não fui eu que dei a definição.
Copiei-a de uma entrevista que ele concedeu à Folha de S.Paulo.
Não vejo nada de errado em ter um guru. Paulo Francis foi meu guru.
Se Lula tivesse um bom guru, sem dúvida seria muito melhor. Marco
Aurélio Garcia acusa-me de ser preconceituoso. Ele acha que eu
acho que "um simples metalúrgico não pode ter sozinho uma
visão aprofundada da realidade brasileira". Não é
verdade. A falta de visão de Lula independe da profissão
que exerceu no passado. O fato de ter sido um metalúrgico não
é um problema, assim como não é um mérito.
O primeiro-ministro italiano, por exemplo, é o homem mais rico
de seu país, mas não há ninguém mais abominavelmente
impróprio que ele para governar.
Para Marco Aurélio Garcia, sou um "Ezra Pound tupiniquim". Suponho
que ele não me atribua o talento literário do poeta americano.
O termo "tupiniquim", então, é pejorativo. Significa pobre,
de araque, de terceira categoria. Concordo com ele. O Brasil é
mesmo o fim da picada. Por isso não reclamo apenas de Lula, mas
de todos os políticos que este país já teve, dos
índios tupiniquins em diante. Não faço como Marco
Aurélio Garcia, que sente nostalgia da política econômica
do regime militar. O mesmo regime militar que o prendeu, condenou e obrigou
ao exílio. É a velha Síndrome de Estocolmo, que faz
com que seqüestrados acabem por se identificar com seus carcereiros.
Além de guru de Lula, Marco Aurélio Garcia também
é secretário da Cultura de São Paulo. Ele defende
sua gestão dizendo que não limpou a estátua de Borba
Gato e que abriu bibliotecas em lugares improváveis, como canteiros
de obras, para servir aos peões. Marco Aurélio Garcia diz
que essas bibliotecas permitem conhecer "eternas promessas da nossa literatura",
referindo-se ironicamente a mim. Bobagem. Se as pessoas não me
lerem, não estarão perdendo nada.
Marco Aurélio Garcia começa com a afirmação
de que é desimportante, "um pobre marquês", mas logo muda
de idéia, não me reconhecendo estatura moral para julgá-lo.
Esses petistas são esquisitos. Em menos de cinco minutos vão
do vitimismo pauperista ao delírio de onipotência. Por causa
de meu artigo, ele ameaçou me processar. Se levar adiante a ameaça,
provavelmente serei julgado durante a presidência Lula, com Marco
Aurélio Garcia no cargo de ministro da Cultura. Como sou muito
covarde, acho que será melhor não colocar mais os pés
no Brasil.
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