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Edição 1 725 - 7 de novembro de 2001
Entrevista: Luiz Felipe Scolari

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O nível é baixo

Para o treinador, os craques
sumiram, a imprensa não
entende nada e o Brasil hoje
é um time igual a vários outros

Sérgio Ruiz Luz

Jefferson Bernardes/AE
"Chamam-me de 'Pré-Scolari'? Não sabia. É porque sou pré-histórico, do interior? Estão certos"

Nesta quarta, 7, a seleção de Luiz Felipe Scolari enfrenta a Bolívia, na cidade de La Paz, pelas eliminatórias da Copa do Mundo. Dependendo da combinação de resultados dos concorrentes à vaga, uma vitória será suficiente para carimbar o passaporte rumo à Copa. Mesmo se isso não ocorrer, bastará ao Brasil ganhar da Venezuela, em casa, na última rodada das eliminatórias, daqui a uma semana. É uma situação muito mais confortável para um time que, pela primeira vez na história, esteve seriamente ameaçado de não disputar o torneio. Na entrevista a seguir, com a franqueza que lhe é característica, o treinador Scolari explica por que chegamos ao fundo do poço e quais são os problemas e vícios dos técnicos, jogadores e da imprensa esportiva brasileira.

Veja – O presidente Fernando Henrique Cardoso disse recentemente que a eliminação da seleção brasileira da próxima Copa seria a pior das crises que o país poderia enfrentar. O que o senhor achou da declaração?
Scolari – É uma frase oportunista. Na minha opinião, a declaração foi feita para desviar a atenção dos grandes problemas que o país atravessa. Mas, não há como negar, o presidente reproduziu o sentimento popular. Não tenho dúvida de que o povão está mais preocupado com a classificação para a Copa de 2002 que com a crise cambial, o esfacelamento da Argentina ou a guerra do Afeganistão, entre outras questões da atualidade. Para os torcedores, tenho a dizer o seguinte: não há com o que se preocupar. Vamos nos classificar. Mais que isso: garanto que iremos disputar o título do próximo Mundial em pé de igualdade com os grandes favoritos do momento, França e Argentina.

Veja – O que dá ao senhor essa certeza? Falta ainda conseguir bons resultados nos jogos contra Bolívia e Venezuela. Nos últimos tempos, o Brasil anda perdendo para seleções com pouca tradição internacional...
Scolari –
A fase de maior turbulência já passou. Apesar de a vaga ainda não estar matematicamente garantida, tenho a convicção de que conquistamos a classificação num dos últimos jogos, quando vencemos o Paraguai, em Porto Alegre. Uma derrota ali seria fatal para nossas pretensões. Eu ficaria marcado para sempre como o treinador que, pela primeira vez na história, deixou o Brasil de fora de uma Copa do Mundo. E o futebol do país mergulharia numa crise ainda maior.

Veja – Admitindo-se que a classificação realmente está perto, resta sua previsão de que o Brasil tem chances de vencer a Copa. Não é um delírio?
Scolari –
As derrotas que sofremos nos últimos anos deixaram uma falsa impressão de que chegamos ao fundo do poço. Não é verdade. Há três anos, nosso time foi vice-campeão do Mundial da França. Pioramos tanto num espaço tão curto de tempo? Não. Mas, por motivos que não me cabe comentar, meus antecessores, Wanderley Luxemburgo e Leão, deixaram de lado a base daquele time de 1998. Começou um rodízio grande de jogadores e os resultados foram piorando. Perderam-se três anos de preparação com isso. Quando assumi a seleção, em junho, tive de começar do zero. Hoje, a auto-estima da equipe está se recuperando e temos uma base. Faltam ainda alguns ajustes, mas a maioria dos atletas da última convocação irá à Copa de 2002. Não temos nenhum craque, é verdade, mas um punhado de bons jogadores em quantidade suficiente para fazer bonito no Japão e na Coréia.

Veja – A respeito dessa ausência de craques no futebol atual, o senhor deu uma declaração que provocou polêmica, principalmente entre os ex-jogadores. De acordo com sua opinião, no passado, tudo era mais fácil, pois "se amarrava cachorro com lingüiça". O que o senhor quis dizer com isso, afinal?
Scolari – Eu fiz um elogio aos ex-jogadores e eles não entenderam nada. Paciência. A expressão vem do interior do Rio Grande do Sul. Significa que o cachorro está tão farto de comida que não se preocupa em comer as lingüiças ao redor do pescoço. Nas Copas de 58, 62 e 70 tínhamos fartura de craques. E o futebol era diferente. Basta ver um vídeo com cenas do Garrincha. Em algumas jogadas, ele chega a driblar cinco vezes o mesmo adversário sem tocar na bola! Havia mais espaço para a individualidade e a improvisação. Hoje, essas qualidades são tão importantes quanto a preparação física e o entrosamento tático da equipe. Quando o atacante consegue driblar um zagueiro, já aparecem outros dois na cobertura. Craques como Pelé continuariam brilhando se estivessem em ação nos dias atuais. Mas teriam muito mais dificuldades em atuar.

Veja – Os craques brasileiros da atualidade são muito mimados. Ganham salários milionários, andam em carrões, não se sentem sequer obrigados a aprender um novo idioma quando vão atuar fora do país. Para piorar, nesse período, acabam desaprendendo a falar o português. Não é complicado lidar com essa turma?
Scolari –
Muitos deles não sabem sequer fazer um check-in sozinhos num aeroporto. É uma aberração. No Palmeiras, um dos clubes que eu dirigi, havia um jogador que ficou dois meses sem receber porque não sabia abrir uma conta no banco. A origem é uma das principais explicações para essa falta de preparo. Só uma minoria vem de famílias de classe média. O resto é muito humilde. De repente, com 16, 17 anos, já estão valorizados. Viram estrelas, com muito dinheiro no bolso, mas nenhum preparo para a vida. À medida que a fama surge, aparecem oportunidades de freqüentar lugares e ter acesso a coisas que eles jamais imaginariam possuir. A lista de tentações e facilidades é imensa.

Veja – O senhor está falando das "marias-chuteiras", como são conhecidas as moças que freqüentam os clubes de futebol atrás dos jogadores?
Scolari – Elas sempre existiram no meio, mas o assédio atualmente, sem dúvida, é maior. As moças são mais liberais e desejam os craques por uma série de motivos. Os jogadores fazem ginástica todo dia, têm pernas fortes, são jovens, possuem carros, jóias, dinheiro, aparecem na TV a toda hora. É esse conjunto que atrai as "marias-chuteiras". Costumo alertar os jogadores, mas são poucos os que sabem lidar com essa marcação cerrada.

Veja – As concentrações ainda são adotadas para controlar esse assédio?
Scolari –
Sou a favor das concentrações. O jogador não possui maturidade suficiente para se comportar bem antes dos jogos sem que ninguém o esteja vigiando. Está provado que o sexo antes das partidas não faz mal. Mas, para nossos boleiros, não há meio-termo. Dentro de casa, eles agem de maneira mais normal. Fora do lar, com outra parceira sexual, querem mostrar que são os mais potentes do mundo, os mais românticos. Aí embalam e o desgaste é maior, a ponto de atrapalhar o desempenho em campo. E não é só isso. Tenho obrigações com a mulher e os filhos deles. Quero que os atletas voltem para casa inteiros.

Veja – Isso não é excesso de paternalismo?
Scolari –
Os jogadores são carentes. A maioria deles quer um técnico exigente, forte e que aja como um pai para eles. É dessa forma que procuro ser. Dou conselhos, ajudo naquilo que posso. O sistema funciona, pode acreditar. Algumas vezes, antecipo, de surpresa, o período de concentração em um dia. Essas incertas evitam que os craques se programem para cair na farra e depois aproveitar o tempo na concentração para ficar dormindo. Eles não gostam, é claro, mas sabem que é para o próprio bem.

Veja – Como o senhor sabe se está sendo bem compreendido nas preleções antes das partidas quando passa instruções táticas aos jogadores?
Scolari –
Quando o atleta estica os pés na cadeira da frente, boceja ou cochicha com o companheiro, é hora de mudar de assunto. Se as coisas funcionam bem, eles te seguem com os olhos, participam, dão sugestões. Nos treinamentos, o segredo é a repetição. Ensaio as jogadas e insisto, insisto, insisto. Até que todos compreendam o que desejo. Nas concentrações, trago também profissionais de fora do nosso meio para abrir a cabeça dos jogadores. Numa dessas ocasiões, um palestrante mostrou aos atletas da seleção qual é a dimensão de nosso país. Falou em PIB, investimentos. Os boleiros ficaram um pouco assustados. Eles faziam uma vaga idéia do tamanho do Brasil e da importância que o futebol tem para nosso povo. Agora, estão mais conscientes.

Veja – O que o senhor acha de ser chamado de "Pré-Scolari" pela turma do Casseta & Planeta?
Scolari – Sério? É a primeira vez que estou ouvindo isso. Juro. Nunca ninguém havia comentado isso comigo. Provavelmente, os humoristas estão querendo dizer que pertenço à Pré-História, que eu sou uma pessoa bronca, um gaúcho da fronteira. Não estão errados. Nasci no interior do Rio Grande do Sul e a maioria das pessoas só me conhece dos jogos, berrando do banco de reservas, com a cara enfezada. Dali, não tem como ser diferente. Não dá para chamar a atenção dos jogadores de forma gentil. Tu precisas ter atitudes fortes, ser mais impositivo. Fora do trabalho, quem me conhece sabe que sou um sujeito gentil, educado, não tenho nada a ver com esse tal de "Pré-Scolari".

Veja – Em quase todos os esportes há a presença de atletas homossexuais assumidos. O senhor convocaria um gay declarado para a seleção?
Scolari – Como já disse, venho do interior do Rio Grande do Sul, que continua sendo um lugar muito tradicionalista. Respeito as opções de cada um, mas ver dois homens se beijando na boca é uma coisa que me deixa assustado. Mas não tenho preconceito. Se aparecer um jogador gay talentoso e útil para a seleção, vou convocá-lo, sem problema. O comportamento dele fora do trabalho não me diz respeito. Acho até que já dirigi um atleta homossexual.

Veja – Como assim?
Scolari – Nunca tive provas, mas as suspeitas eram grandes. Obviamente, não vou dizer o nome dele, nem o clube. Após três meses num lugar, qualquer treinador sabe qual a cervejaria ou danceteria que os jogadores freqüentam nas folgas. E esse rapaz ia para uma boate gay. Descobri depois que ele mantinha um relacionamento muito discreto com um funcionário do clube. Era um bom jogador. Homossexual, mas com um comportamento normal.

Veja – A imprensa noticiou na semana passada que uma empresa foi contratada para fornecer ao senhor, antes das partidas, boletins astrológicos dos craques da seleção. É verdade?
Scolari –
Não. Como costumo escutar todas as pessoas que se propõem a ajudar a seleção, fui conhecer o trabalho dessa empresa. Mas achei uma bobagem, uma coisa sem fundamento. E descartei o serviço. Mas os donos do negócio foram safados e começaram a divulgar que haviam trabalhado comigo. É uma mentira. Não acredito em horóscopo e convoco os jogadores por critérios técnicos, e não segundo a posição dos planetas.

Veja – De acordo com muitos críticos, há uma supervalorização dos técnicos brasileiros. Eles ganham muito, trabalham pouco, são desinformados e nunca conseguem emprego no exterior em clubes de primeira linha. O que o senhor acha dessa visão?
Scolari –
Existem problemas, admito. Somos um bando de vaidosos que não trocam informações técnicas, pois cada um se julga o dono da verdade. Ou tem medo de perder o lugar no banco de reservas para outro colega. Os bons empregos no exterior ficam restritos por uma série de fatores. Para começar, a maioria não fala inglês fluentemente. Eu me incluo nesse grupo. Meu inglês dá apenas para o gasto, não é perfeito. Tampouco aprendemos a falar espanhol. Por isso, os técnicos argentinos se dão melhor na Espanha. Não sabemos vender nossa imagem de treinadores competentes.

Veja – O ex-técnico da seleção Wanderley Luxemburgo começou a vestir ternos nos jogos, pois acha que isso o torna mais respeitado. É por aí?
Scolari –
Prefiro agasalho esportivo e camisa pólo. Não é colocando uma gravata que o sujeito vai ser mais respeitado. Mas é preciso divulgar o nome no exterior. Valorizamos muito o que vem de fora. Todo mundo acha os campeonatos europeus o máximo. Recentemente, quase dormi vendo um jogo do campeonato italiano, de tão ruim que era. Enquanto isso, os europeus pouco se preocupam em saber o que se passa fora de seu continente. Fui campeão sul-americano de clubes duas vezes. Quando visitei o Barcelona, da Espanha, os dirigentes de lá me disseram que essas conquistas tiveram pouca repercussão fora do Brasil. Apesar dos problemas, acho que os técnicos brasileiros ainda podem conseguir um bom espaço lá fora. Precisamos começar a divulgar mais nosso nome, circular com mais freqüência pelos grandes clubes. Depois da Copa do Japão e Coréia, penso seriamente em me transferir para a Europa se aparecer uma oportunidade boa.

Veja – Por que o senhor tem uma relação tão conturbada com a imprensa esportiva?
Scolari – Hoje, não é mais jornalismo, é puro sensacionalismo. Eles acham que entendem de tudo e gostam de meter o pau porque isso rende audiência. Um dia, minha mulher quis saber em casa o motivo de todos estarem me criticando nos programas. "Por que tu estás fazendo tudo errado, botando três zagueiros em vez de dois, Felipe?", perguntou. Expliquei que adotava essa tática porque a maioria de nossos jogadores atua na Europa, onde esse sistema é muito usado. E ela questionou: "E é tão difícil assim para eles entenderem?". Mas é assim. Depois de ter muitos problemas de relacionamento com a imprensa, venho procurando melhorar. Sou muito explosivo. Agora, diante de uma pergunta que não me agrada, procuro me controlar mais.

Veja – O Brasil tem um histórico recheado de conquistas. Com isso, a imprensa especializada e os torcedores criaram um padrão de exigência alto em relação às atuações da seleção. Isso atrapalha?
Scolari –
A situação chega ao absurdo de discutirem a derrota para a França numa Comissão Parlamentar de Inquérito. Foi uma coisa ridícula ver os deputados preocupados em saber qual jogador tinha a responsabilidade de marcar o Zidane, autor de dois gols naquela final. Mas faz parte da nossa cultura. Somos ainda o país do futebol, lugar onde nasceu o maior jogador de todos os tempos, tivemos seleções fantásticas. Vai demorar um tempo até nos acostumarmos com a idéia de que, hoje, temos uma equipe boa, mas igual a várias outras do mundo.


 
 
   
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