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O nível é
baixo
Para o
treinador, os craques
sumiram, a imprensa não
entende nada e o Brasil hoje
é um time igual a vários outros

Sérgio
Ruiz Luz
Jefferson Bernardes/AE
 |
"Chamam-me
de 'Pré-Scolari'? Não sabia. É porque sou pré-histórico,
do interior? Estão certos" |
Nesta quarta,
7, a seleção de Luiz Felipe Scolari enfrenta a Bolívia,
na cidade de La Paz, pelas eliminatórias da Copa do Mundo. Dependendo
da combinação de resultados dos concorrentes à vaga,
uma vitória será suficiente para carimbar o passaporte rumo
à Copa. Mesmo se isso não ocorrer, bastará ao Brasil
ganhar da Venezuela, em casa, na última rodada das eliminatórias,
daqui a uma semana. É uma situação muito mais confortável
para um time que, pela primeira vez na história, esteve seriamente
ameaçado de não disputar o torneio. Na entrevista a seguir,
com a franqueza que lhe é característica, o treinador Scolari
explica por que chegamos ao fundo do poço e quais são os
problemas e vícios dos técnicos, jogadores e da imprensa
esportiva brasileira.
Veja
O presidente Fernando Henrique Cardoso disse recentemente que a eliminação
da seleção brasileira da próxima Copa seria a pior
das crises que o país poderia enfrentar. O que o senhor achou da
declaração?
Scolari É uma frase oportunista. Na minha opinião,
a declaração foi feita para desviar a atenção
dos grandes problemas que o país atravessa. Mas, não há
como negar, o presidente reproduziu o sentimento popular. Não tenho
dúvida de que o povão está mais preocupado com a
classificação para a Copa de 2002 que com a crise cambial,
o esfacelamento da Argentina ou a guerra do Afeganistão, entre
outras questões da atualidade. Para os torcedores, tenho a dizer
o seguinte: não há com o que se preocupar. Vamos nos classificar.
Mais que isso: garanto que iremos disputar o título do próximo
Mundial em pé de igualdade com os grandes favoritos do momento,
França e Argentina.
Veja
O que dá ao senhor essa certeza? Falta ainda conseguir bons
resultados nos jogos contra Bolívia e Venezuela. Nos últimos
tempos, o Brasil anda perdendo para seleções com pouca tradição
internacional...
Scolari A fase de maior turbulência já passou.
Apesar de a vaga ainda não estar matematicamente garantida, tenho
a convicção de que conquistamos a classificação
num dos últimos jogos, quando vencemos o Paraguai, em Porto Alegre.
Uma derrota ali seria fatal para nossas pretensões. Eu ficaria
marcado para sempre como o treinador que, pela primeira vez na história,
deixou o Brasil de fora de uma Copa do Mundo. E o futebol do país
mergulharia numa crise ainda maior.
Veja
Admitindo-se que a classificação realmente está
perto, resta sua previsão de que o Brasil tem chances de vencer
a Copa. Não é um delírio?
Scolari As derrotas que sofremos nos últimos anos deixaram
uma falsa impressão de que chegamos ao fundo do poço. Não
é verdade. Há três anos, nosso time foi vice-campeão
do Mundial da França. Pioramos tanto num espaço tão
curto de tempo? Não. Mas, por motivos que não me cabe comentar,
meus antecessores, Wanderley Luxemburgo e Leão, deixaram de lado
a base daquele time de 1998. Começou um rodízio grande de
jogadores e os resultados foram piorando. Perderam-se três anos
de preparação com isso. Quando assumi a seleção,
em junho, tive de começar do zero. Hoje, a auto-estima da equipe
está se recuperando e temos uma base. Faltam ainda alguns ajustes,
mas a maioria dos atletas da última convocação irá
à Copa de 2002. Não temos nenhum craque, é verdade,
mas um punhado de bons jogadores em quantidade suficiente para fazer bonito
no Japão e na Coréia.
Veja
A respeito dessa ausência de craques no futebol atual, o senhor
deu uma declaração que provocou polêmica, principalmente
entre os ex-jogadores. De acordo com sua opinião, no passado, tudo
era mais fácil, pois "se amarrava cachorro com lingüiça".
O que o senhor quis dizer com isso, afinal?
Scolari Eu fiz um elogio aos ex-jogadores e eles não
entenderam nada. Paciência. A expressão vem do interior do
Rio Grande do Sul. Significa que o cachorro está tão farto
de comida que não se preocupa em comer as lingüiças
ao redor do pescoço. Nas Copas de 58, 62 e 70 tínhamos fartura
de craques. E o futebol era diferente. Basta ver um vídeo com cenas
do Garrincha. Em algumas jogadas, ele chega a driblar cinco vezes o mesmo
adversário sem tocar na bola! Havia mais espaço para a individualidade
e a improvisação. Hoje, essas qualidades são tão
importantes quanto a preparação física e o entrosamento
tático da equipe. Quando o atacante consegue driblar um zagueiro,
já aparecem outros dois na cobertura. Craques como Pelé
continuariam brilhando se estivessem em ação nos dias atuais.
Mas teriam muito mais dificuldades em atuar.
Veja
Os craques brasileiros da atualidade são muito mimados. Ganham
salários milionários, andam em carrões, não
se sentem sequer obrigados a aprender um novo idioma quando vão
atuar fora do país. Para piorar, nesse período, acabam desaprendendo
a falar o português. Não é complicado lidar com essa
turma?
Scolari Muitos deles não sabem sequer fazer um check-in
sozinhos num aeroporto. É uma aberração. No Palmeiras,
um dos clubes que eu dirigi, havia um jogador que ficou dois meses sem
receber porque não sabia abrir uma conta no banco. A origem é
uma das principais explicações para essa falta de preparo.
Só uma minoria vem de famílias de classe média. O
resto é muito humilde. De repente, com 16, 17 anos, já estão
valorizados. Viram estrelas, com muito dinheiro no bolso, mas nenhum preparo
para a vida. À medida que a fama surge, aparecem oportunidades
de freqüentar lugares e ter acesso a coisas que eles jamais imaginariam
possuir. A lista de tentações e facilidades é imensa.
Veja
O senhor está falando das "marias-chuteiras", como são
conhecidas as moças que freqüentam os clubes de futebol atrás
dos jogadores?
Scolari Elas sempre existiram no meio, mas o assédio
atualmente, sem dúvida, é maior. As moças são
mais liberais e desejam os craques por uma série de motivos. Os
jogadores fazem ginástica todo dia, têm pernas fortes, são
jovens, possuem carros, jóias, dinheiro, aparecem na TV a toda
hora. É esse conjunto que atrai as "marias-chuteiras". Costumo
alertar os jogadores, mas são poucos os que sabem lidar com essa
marcação cerrada.
Veja
As concentrações ainda são adotadas para controlar
esse assédio?
Scolari Sou a favor das concentrações. O jogador
não possui maturidade suficiente para se comportar bem antes dos
jogos sem que ninguém o esteja vigiando. Está provado que
o sexo antes das partidas não faz mal. Mas, para nossos boleiros,
não há meio-termo. Dentro de casa, eles agem de maneira
mais normal. Fora do lar, com outra parceira sexual, querem mostrar que
são os mais potentes do mundo, os mais românticos. Aí
embalam e o desgaste é maior, a ponto de atrapalhar o desempenho
em campo. E não é só isso. Tenho obrigações
com a mulher e os filhos deles. Quero que os atletas voltem para casa
inteiros.
Veja
Isso não é excesso de paternalismo?
Scolari Os jogadores são carentes. A maioria deles quer
um técnico exigente, forte e que aja como um pai para eles. É
dessa forma que procuro ser. Dou conselhos, ajudo naquilo que posso. O
sistema funciona, pode acreditar. Algumas vezes, antecipo, de surpresa,
o período de concentração em um dia. Essas incertas
evitam que os craques se programem para cair na farra e depois aproveitar
o tempo na concentração para ficar dormindo. Eles não
gostam, é claro, mas sabem que é para o próprio bem.
Veja
Como o senhor sabe se está sendo bem compreendido nas preleções
antes das partidas quando passa instruções táticas
aos jogadores?
Scolari Quando o atleta estica os pés na cadeira da
frente, boceja ou cochicha com o companheiro, é hora de mudar de
assunto. Se as coisas funcionam bem, eles te seguem com os olhos, participam,
dão sugestões. Nos treinamentos, o segredo é a repetição.
Ensaio as jogadas e insisto, insisto, insisto. Até que todos compreendam
o que desejo. Nas concentrações, trago também profissionais
de fora do nosso meio para abrir a cabeça dos jogadores. Numa dessas
ocasiões, um palestrante mostrou aos atletas da seleção
qual é a dimensão de nosso país. Falou em PIB, investimentos.
Os boleiros ficaram um pouco assustados. Eles faziam uma vaga idéia
do tamanho do Brasil e da importância que o futebol tem para nosso
povo. Agora, estão mais conscientes.
Veja
O que o senhor acha de ser chamado de "Pré-Scolari" pela turma
do Casseta & Planeta?
Scolari Sério? É a primeira vez que estou
ouvindo isso. Juro. Nunca ninguém havia comentado isso comigo.
Provavelmente, os humoristas estão querendo dizer que pertenço
à Pré-História, que eu sou uma pessoa bronca, um
gaúcho da fronteira. Não estão errados. Nasci no
interior do Rio Grande do Sul e a maioria das pessoas só me conhece
dos jogos, berrando do banco de reservas, com a cara enfezada. Dali, não
tem como ser diferente. Não dá para chamar a atenção
dos jogadores de forma gentil. Tu precisas ter atitudes fortes, ser mais
impositivo. Fora do trabalho, quem me conhece sabe que sou um sujeito
gentil, educado, não tenho nada a ver com esse tal de "Pré-Scolari".
Veja
Em quase todos os esportes há a presença de atletas homossexuais
assumidos. O senhor convocaria um gay declarado para a seleção?
Scolari Como já disse, venho do interior do Rio
Grande do Sul, que continua sendo um lugar muito tradicionalista. Respeito
as opções de cada um, mas ver dois homens se beijando na
boca é uma coisa que me deixa assustado. Mas não tenho preconceito.
Se aparecer um jogador gay talentoso e útil para a seleção,
vou convocá-lo, sem problema. O comportamento dele fora do trabalho
não me diz respeito. Acho até que já dirigi um atleta
homossexual.
Veja
Como assim?
Scolari Nunca tive provas, mas as suspeitas eram grandes.
Obviamente, não vou dizer o nome dele, nem o clube. Após
três meses num lugar, qualquer treinador sabe qual a cervejaria
ou danceteria que os jogadores freqüentam nas folgas. E esse rapaz
ia para uma boate gay. Descobri depois que ele mantinha um relacionamento
muito discreto com um funcionário do clube. Era um bom jogador.
Homossexual, mas com um comportamento normal.
Veja
A imprensa noticiou na semana passada que uma empresa foi contratada
para fornecer ao senhor, antes das partidas, boletins astrológicos
dos craques da seleção. É verdade?
Scolari Não. Como costumo escutar todas as pessoas que
se propõem a ajudar a seleção, fui conhecer o trabalho
dessa empresa. Mas achei uma bobagem, uma coisa sem fundamento. E descartei
o serviço. Mas os donos do negócio foram safados e começaram
a divulgar que haviam trabalhado comigo. É uma mentira. Não
acredito em horóscopo e convoco os jogadores por critérios
técnicos, e não segundo a posição dos planetas.
Veja
De acordo com muitos críticos, há uma supervalorização
dos técnicos brasileiros. Eles ganham muito, trabalham pouco, são
desinformados e nunca conseguem emprego no exterior em clubes de primeira
linha. O que o senhor acha dessa visão?
Scolari Existem problemas, admito. Somos um bando de vaidosos
que não trocam informações técnicas, pois
cada um se julga o dono da verdade. Ou tem medo de perder o lugar no banco
de reservas para outro colega. Os bons empregos no exterior ficam restritos
por uma série de fatores. Para começar, a maioria não
fala inglês fluentemente. Eu me incluo nesse grupo. Meu inglês
dá apenas para o gasto, não é perfeito. Tampouco
aprendemos a falar espanhol. Por isso, os técnicos argentinos se
dão melhor na Espanha. Não sabemos vender nossa imagem de
treinadores competentes.
Veja
O ex-técnico da seleção Wanderley Luxemburgo começou
a vestir ternos nos jogos, pois acha que isso o torna mais respeitado.
É por aí?
Scolari Prefiro agasalho esportivo e camisa pólo. Não
é colocando uma gravata que o sujeito vai ser mais respeitado.
Mas é preciso divulgar o nome no exterior. Valorizamos muito o
que vem de fora. Todo mundo acha os campeonatos europeus o máximo.
Recentemente, quase dormi vendo um jogo do campeonato italiano, de tão
ruim que era. Enquanto isso, os europeus pouco se preocupam em saber o
que se passa fora de seu continente. Fui campeão sul-americano
de clubes duas vezes. Quando visitei o Barcelona, da Espanha, os dirigentes
de lá me disseram que essas conquistas tiveram pouca repercussão
fora do Brasil. Apesar dos problemas, acho que os técnicos brasileiros
ainda podem conseguir um bom espaço lá fora. Precisamos
começar a divulgar mais nosso nome, circular com mais freqüência
pelos grandes clubes. Depois da Copa do Japão e Coréia,
penso seriamente em me transferir para a Europa se aparecer uma oportunidade
boa.
Veja
Por que o senhor tem uma relação tão conturbada
com a imprensa esportiva?
Scolari Hoje, não é mais jornalismo, é
puro sensacionalismo. Eles acham que entendem de tudo e gostam de meter
o pau porque isso rende audiência. Um dia, minha mulher quis saber
em casa o motivo de todos estarem me criticando nos programas. "Por que
tu estás fazendo tudo errado, botando três zagueiros em vez
de dois, Felipe?", perguntou. Expliquei que adotava essa tática
porque a maioria de nossos jogadores atua na Europa, onde esse sistema
é muito usado. E ela questionou: "E é tão difícil
assim para eles entenderem?". Mas é assim. Depois de ter muitos
problemas de relacionamento com a imprensa, venho procurando melhorar.
Sou muito explosivo. Agora, diante de uma pergunta que não me agrada,
procuro me controlar mais.
Veja
O Brasil tem um histórico recheado de conquistas. Com isso,
a imprensa especializada e os torcedores criaram um padrão de exigência
alto em relação às atuações da seleção.
Isso atrapalha?
Scolari A situação chega ao absurdo de discutirem
a derrota para a França numa Comissão Parlamentar de Inquérito.
Foi uma coisa ridícula ver os deputados preocupados em saber qual
jogador tinha a responsabilidade de marcar o Zidane, autor de dois gols
naquela final. Mas faz parte da nossa cultura. Somos ainda o país
do futebol, lugar onde nasceu o maior jogador de todos os tempos, tivemos
seleções fantásticas. Vai demorar um tempo até
nos acostumarmos com a idéia de que, hoje, temos uma equipe boa,
mas igual a várias outras do mundo.
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