O fantasma do ataque
especulativo, fase dois

Depois da economia de diferentes países,
o próximo alvo pode ser o sistema democrático

Sobreviverá a democracia ao ano 2000? Não, ninguém quer ser agourento. Não se quer ser o pregoeiro da desgraça, muito menos o Jeremias dos fundos da revista, mas insista-se na pergunta, como exercício: sobreviverá a democracia, ou, mais precisamente, o atual panorama de predomínio da democracia, ao redor do mundo, ao ano 2000? Esta pergunta tem origem numa desconfiança — a de que, atrás de um ataque especulativo, pode vir outro. Não se está falando do ataque especulativo tal qual se apresenta hoje, produto da sanha destruidora da especulação financeira. Está-se falando do ataque especulativo sob nova forma, depois de sofrer uma mutação genética. Hoje ele se volta contra a estabilidade econômica do país, ou dos países, sob sua mira. Viria a seguir um ataque especulativo contra a democracia? Contra as instituições democráticas desses países?

Nunca, talvez nem mesmo no imediato pós-guerra, a democracia colheu tantos triunfos como no período de quinze anos que vai de 1974 a 1989. 1974 é o ano da Revolução dos Cravos, em Portugal. 1989, o da queda do Muro de Berlim. De permeio, caiu a ditadura que sobrava, na Europa Ocidental — a da Espanha —, e, uma a uma, as ditaduras latino-americanas. O Brasil revogou o Ato Institucional nº 5 no fim da década de 70 e, no fim da de 80, realizou a primeira eleição presidencial direta em 29 anos. No intervalo, conheceu a suspensão da censura à imprensa e a anistia. Até o Paraguai, no fim da década de 80, tinha derrubado seu ditador, o Alfredo Stroessner que parecia tão implantado no país como a guarânia. A estrutura que se imaginava férrea da Europa do Leste sofreu o primeiro abalo com o movimento do sindicato Solidariedade, na Polônia, no início da década de 80, e desmanchou-se num piscar de olhos ao fim da década. Não é só que o capitalismo tinha vencido, ao iniciar-se a década de 90. Capitalismo já se tinha no Brasil ou na Espanha. Muito mais ampla foi a vitória da democracia, o denominador comum das reviravoltas na Argentina e na Hungria, em Portugal, na Nicarágua e na Bulgária.

A vitória foi de tal ordem que pareceu definitiva. O americano Francis Fukuyama pensava no capitalismo, mas também na democracia, quando escreveu O Fim da História. A democracia parecia enfim se ter congelado no planeta, ou pelo menos na maior e mais importante parte dele. Havia não apenas a consciência da perversidade moral da ditadura, mas de sua ineficiência prática. Sob a ditadura, os países latino-americanos foram arrastados à crise da dívida externa e daí às portas do descontrole inflacionário. Essa consciência era acompanhada, no plano internacional, pelo fator decisivo, para a vitória da democracia, que foi o fim da Guerra Fria. Na Europa do Leste, a Guerra Fria servia de pretexto para manter os regimes fechados. Assim eles se protegiam melhor da doença do decadentismo ocidental. Na América Latina a doença era o comunismo, assim como na Ásia e na África, e uma forma altamente recomendada de se defender dela era a ditadura. Os Estados Unidos aplaudiam quando o golpe era contra o perigo vermelho, e corriam em respaldo aos golpistas.

Sem Guerra Fria, o quadro mudou. Como dar o golpe, na América Latina, sem o pretexto tradicional? No Peru houve golpe, mas numa situação peculiar — o país numa guerra civil, provocada pela guerrilha. Em regra os Estados Unidos, muito mudados, em vez de apoiar, passaram a ameaçar com isolamento e opróbrio o país que se atrevesse a um golpe. Isso dava segurança à democracia nos países que nem sempre primaram por seu cultivo. Ela parecia forte como num bunker. No entanto... No entanto, hoje, pela primeira vez, na década de 90, sente-se que pode não ser assim. A confiança trincou. E se os ataques especulativos, em sua fase dois, se voltarem contra a democracia?

O ataque especulativo contra a democracia pode tomar diferentes formas. No plano interno, pode surgir com teses do tipo "com o Congresso não dá", "com o Judiciário não dá", tão fáceis de florescer, em tempos difíceis. No plano externo, com uma mudança de atitude dos países dominantes, e especialmente dos Estados Unidos, tendo em vista a grandeza dos interesses envolvidos. É do destino de bilhões de dólares, para bancos e fundos americanos e europeus, que se fala, na atual crise. O jogo promete ser pesado. Os Estados Unidos, como de resto muitos outros países, apreciam muito incentivar a moral e os bons costumes, mas de preferência quando são a favor de seus interesses. E se forem contra? E caso se coloque a disjuntiva, meu dinheiro contra a sua democracia? Ou seja, se se conclui que uma boa ditadura, nesses países que não têm mesmo jeito, garante retorno mais rápido e seguro aos investimentos? São interrogações. O certo é que a História recomeçou, como reconheceu, recentemente, o próprio Fukuyama. Extraiamos disso a lição de que a democracia, ao contrário do que pareceu, nos últimos anos, não é um dado garantido, na vida, como o ar que se respira.




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