Z, de Zorro

Nesta versão do velho clássico, Banderas
vive seu apogeu como o machão latino

Rubens Ewald Filho

Sabe a sensação que seu pai (ou avô) tinha quando ia às matinês de domingo torcer por Errol Flynn e Tyrone Power naquelas fitas de capa e espada? Comendo pipoca ou jujuba, ele invariavelmente aplaudia o mocinho, suspirava pela heroína e vaiava o bandido. Pois é essa mesma experiência que Steven Spielberg, desta vez no papel de produtor, tenta trazer de volta com A Máscara do Zorro (The Mask of Zorro, Estados Unidos, 1998), em cartaz em circuito nacional a partir desta sexta-feira. O filme é tão assumidamente antiquado que se torna irresistível. Para toda uma geração criada com brinquedos eletrônicos e guerras nas estrelas, chega a ser novidade ver alguém literalmente usando capa e espada — Zorro nunca dispara uma arma de fogo na fita! É verdade que há mais violência do que nas antigas produções do gênero (cabeças decepadas, muitas explosões, certo clima de faroeste), mas ela nunca chega a ser excessiva. Na hora H, em lugar de mostrar o sangue, a câmera se afasta. Dessa forma, evita-se agredir a grande parcela do público feminino que irá ao cinema menos para ver a história do herói mascarado do que para admirar os dotes físicos de seu intérprete, o ator Antonio Banderas.

Aos 38 anos, Banderas está no auge da carreira. Ele é o único ator espanhol a fazer sucesso em Hollywood em todos os tempos. Houve outros atores latinos que conseguiram tal proeza, como o italiano Rodolfo Valentino, os franceses Charles Boyer e Louis Jourdan, o argentino Fernando Lamas e o mexicano Ricardo Montalban. Mas nenhum espanhol. Spielberg, que não é bobo nem nada, concebeu o projeto de Zorro especialmente para Banderas. Durante a conturbada produção, mudou o diretor (saiu Robert Rodriguez e entrou Martin Campbell (de 007 contra Goldeneye), mas o ator continuou intocável na escalação para o personagem-título.

Banderas transformou-se em astro graças a um pouco de talento, outro tanto de sorte e muita esperteza. Nascido em Málaga, no litoral sul da Espanha, filho de um policial e de uma professora, sonhou primeiro ser jogador de futebol. Mas um ferimento no pé aos 14 anos o fez mudar de planos. Assistindo ao filme Hair, de Milos Forman, resolveu ser ator, juntando-se a uma trupe que viajava pelo interior do país. Mais tarde entrou para o Teatro Nacional da Espanha, onde foi descoberto pelo diretor Pedro Almodóvar. Era o primeiro golpe de sorte. Com ele fez quatro filmes, dois deles com cenas de homossexualismo quase explícitas (Labirinto de Paixões e A Lei do Desejo). Nem por isso passou para o público a imagem de homossexual, até porque era casado com a atriz Ana Leza. O segundo golpe de sorte veio com o documentário Na Cama com Madonna. Nele, a cantora citava Banderas como o homem que mais desejaria encontrar. Isso levou o ator a Hollywood, onde, em 1991, fez Os Reis do Mambo. Banderas representou mais dois personagens homossexuais (em Filadélfia e Entrevista com o Vampiro), mas nada abalou sua imagem de machão latino. A fama foi definitivamente alcançada quando largou a patroa por uma mulher três anos mais velha, com fama de alcoólatra e drogada — a atriz Melanie Griffith. Em A Máscara do Zorro, Banderas oferece vários momentos de deleite ao público feminino. Um bom exemplo é o duelo que trava com a personagem Elena (Catherine Zeta-Jones), numa cena de grande sensualidade.

Vilões execráveis — O cinema e a TV já tiveram vários Zorro (favor não confundir com o Lone Ranger, erroneamente batizado no Brasil com o mesmo nome). O estrelado por Banderas é o clássico, o descendente de família nobre espanhola que se rebela contra a tirania e luta pela liberdade da Califórnia, usando uma máscara para esconder sua identidade. Na nova versão, o protagonista é uma espécie de "filho do Zorro". O herói Zorro, feito sem muita convicção pelo ator britânico Anthony Hopkins, já está velho. Para assumir o papel do novo Zorro, seu sucessor, escolhe um bandido de segunda (Banderas), educa-o como nobre e o treina como espadachim.

A Máscara do Zorro não tem nenhuma originalidade para quem viveu a época áurea do gênero. Banderas até se defende com a espada, mas a fita é displicente ao deixar perceber claramente quando ele ou Anthony Hopkins estão sendo substituídos por dublês. É também um pouco longa e tem cenas inverossímeis. Acertadamente, depois de meia hora de apresentação dos personagens, ela se transforma em comédia galante, repleta de piadinhas e sacadas. A partir daí, a história fica fácil de assistir, com lutas bem coreografadas, trilha musical retumbante, uma bela heroína, vilões execráveis e mocinhos simpáticos. Se não tem vocação para se tornar um clássico, ao menos é divertido. Vale o ingresso.




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