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Aula de franguês
A
tradução é ruim, mas o original é pior ainda
Você fala
franguês? Pois deveria: esse é o idioma em que estão
vertidas 99,9% das obras francesas publicadas
recentemente no Brasil, inclusive A Identidade,
de Milan Kundera (Companhia das Letras; tradução de
Teresa B. Carvalho da Fonseca; 126 páginas; 17,50
reais). Irritante e trabalhosa, a estranha língua que
resulta do francês mal traduzido rouba de seu leitor a
fruição possível da forma. Mas, se você ainda não
domina o franguês, tranqüilize-se, porque não há
forma alguma a ser fruída no novo Kundera. É apenas
mais uma historinha de amor, em que os personagens
"se ocupam" em vez de fazer e dão esmolas com
"peças de metal" por desconhecer moedas. Em
bom e claro português, uma bobagem. Daquelas que seriam
recusadas pelos editores sem o menor constrangimento se o
original fosse assinado por um desconhecido. Como é do
famoso autor de A Insustentável Leveza do Ser, a
obra chega às livrarias brasileiras nesta semana com a
receita habitual de Kundera: uma pitadinha de sexo e
outra de psicologismo barato. Desta vez, porém, ele se
superou. O rol de platitudes do magro volume daria para
inspirar dez noveletas açucaradas: "murmúrio
enfeitiçador", "lençóis da
infidelidade", "o livro de ouro do amor",
"estonteante perfume", "cloaca de vícios
inconfessáveis". Quer mais? Leia A Identidade.
A tradução não é boa, mas o original é ainda pior.
Mirian
Paglia Costa

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