O pai faz a mãe

Estudo isola gene transmitido pelo macho
que ativa o instinto maternal em cobaias

Amamentação: gene
modificado faz mães
descuidadas
Foto: Carlos Costa  

Está na natureza, diz a sabedoria popular, que ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração. Ou nos genes. Uma pesquisa de cientistas da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, em parceria com japoneses e canadenses, mostrou que, pelo menos nos ratos, um gene, chamado Mest, pode ser responsável pelo desenvolvimento do instinto maternal. No estudo, publicado na revista Nature Genetics, cobaias que tiveram esse gene modificado viraram mães negligentes. Contrariando o comportamento padrão, elas não se preocuparam em limpar a placenta dos filhotes após o parto, nem em construir um ninho para eles, nem em alimentá-los adequadamente ou resgatá-los quando se afastavam do grupo. Outra descoberta importante da pesquisa é que, ao contrário da imensa maioria dos genes, que comparecem em pares (um herdado do pai, outro da mãe) e são ativados ora um, ora outro, no Mest apenas uma cópia, justamente aquela transmitida pelo pai, torna-se ativa. Ou seja: extrapolando para seres humanos os resultados do estudo de Cambridge, um dos grandes responsáveis pelo maior ou menor cuidado das mães para com seus filhos seria um homem — no caso, o avô das crianças.

O Mest não é o único gene que as pesquisas relacionam com o instinto maternal — pelo menos outros três atuariam nesta área. Os experimentos agora divulgados demonstram seu efeito direto sobre o comportamento da mãe-cobaia. "É possível que mutações deste gene afetem o instinto maternal em seres humanos", adiantou um dos pesquisadores, Azim Surani. Aí poderia estar, por exemplo, uma explicação para a depressão pós-parto que afeta muitas mulheres. A aplicação da descoberta aos seres humanos não passa, por enquanto, de hipótese. "O Mest já é estudado há tempos e, até agora, não há indícios de que, modificado, provoque negligência materna na espécie humana", alerta o médico Renato Zamora Flores, doutor em genética e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Ainda que fique provada a participação da genética no instinto maternal, muitos outros fatores com certeza pesam nas atitudes humanas. "Dificilmente dá para dizer que um só agente é o responsável por um comportamento tão complexo", diz o geneticista clínico Decio Brunoni, professor da Universidade Federal de São Paulo. Nesse departamento, contam muito as influências do ambiente, como fatores familiares, sociais, culturais. "Mães negligentes ou que imprimem maus-tratos aos filhos quase sempre têm uma história de vida difícil e conturbada", aponta Flores.




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