E agora, companheiro?

Só resta um caminho a Lula: criar um
novo PT que, livre dos sectarismos,
se alie à esquerda contemporânea
na busca pela "terceira via"

Mario Sabino

Foto: Egberto Nogueira
Lula: derrota determina o fim de um projeto político iniciado
em 1989

Em 1980, o Partido dos Trabalhadores era um recém-nascido promissor, no qual a maior parte da esquerda brasileira depositava a esperança de sair do gueto, conquistar as massas e finalmente chegar ao poder. Dezoito anos depois, o PT atinge a maioridade como tantos egressos da adolescência que não sabem que caminho tomar e cujo futuro apresenta-se nebuloso, ameaçador. A terceira derrota de Luís Inácio Lula da Silva em eleições presidenciais colocou o ponto final num projeto que, desde 1989, esteve implícito nas formulações dos líderes petistas: o de que, com Lula na Presidência da República, seria possível sedimentar o terreno para a implantação de um regime socialista no país. Diante da realidade imposta pelo resultado das urnas, o espectro de um racha colossal passou a rondar com insistência a agremiação.

"É preciso criar um novo PT", confidenciou Lula a um amigo, na semana passada, em Brasília. O que isso quer dizer exatamente? Lula tem a resposta na ponta da língua: trata-se de transformá-lo num partido mais moderno, com um discurso homogêneo e menos dependente dos humores e conveniências de determinadas corporações. É mudar para sobreviver — e sobreviver, no caso do PT, significa tornar-se de verdade uma alternativa de poder. Hoje, ele se mostra acuado por três motivos evidentes. Seu berço, o movimento sindical, encontra-se esvaziado e dividido. Ao perder a base de sustentação dos sindicatos operários, o partido enterrou os pés no pântano do funcionalismo público, que resiste à reforma do Estado para não perder seus privilégios. Além disso, não tem para onde crescer, dada a desconfiança que desperta em amplos setores da classe média. Há uma razão de fundo para esse estado de coisas. A ideologia que deu origem ao PT e ainda alimenta seu discurso virou um anacronismo, não dá conta das transformações por que passaram o país e o mundo na última década deste século. Um sistema igualitário que dê a cada um de acordo com sua necessidade e tome de cada um conforme sua capacidade, para repetir a fórmula marxista, continua a ser um bom slogan na hora de agitar uma assembléia ou um comício. Mas esse tipo de retórica se revela um castelo de cartas quando confrontado com a pergunta que qualquer dona de casa sem formação política sabe fazer: e quem vai pagar a conta, companheiro?

Para a social-democracia, o capitalismo é um carneiro que não pode ser morto, mas deve ser tosquiado

É simples assim: o chamado socialismo real, da ex-União Soviética e adjacências, não conseguiu criar riqueza suficiente para bancar o sonho marxista. Paralisado por um Estado que controlava todas as atividades produtivas — as quais deixaram de sê-lo justamente por isso —, o regime, para ficar à tona, formou uma casta burocrático-policial que se encarregava de calar qualquer voz discordante. Deu no que deu, lá se vão quase dez anos. Tal é o fato que o PT reluta em aceitar, acreditando ser possível implantar um Estado absoluto e paternalista, sem que isso implique a estagnação e o cerceamento das liberdades e dos direitos humanos. Exatamente por isso, o discurso do partido parece tão esquizofrênico, vago e fantasioso. "É inacreditável. Eles prometem até o retorno a um estado de pleno emprego e de bem-estar social, coisas que o Brasil nunca teve", espanta-se o historiador Francisco Carlos Teixeira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Não dá para ser mesmo diferente, já que não existe registro na História de um regime socialista e democrático.

Foto: Ana Araujo Foto: Liane Neves
Cristovam Buarque e Tarso Genro: cotados
para se tornar líderes nacionais do novo PT

Essa é a raiz da falta de um projeto claro do PT. Um novo partido, como quer Lula, precisará aceitar que o capitalismo é um carneiro que não pode ser morto, mas que deve ser mantido bem tosquiado, como costumava dizer o falecido primeiro-ministro sueco Olof Palme, da melhor estirpe social-democrata. A esquerda dos principais países europeus evoluiu para esse ponto de vista, abandonando os românticos propósitos revolucionários. O socialismo italiano, francês, alemão e o trabalhismo inglês enveredaram pelo caminho reformista da social-democracia, a chamada "terceira via", e é curioso notar que hoje seus respectivos governos não hesitam em implementar políticas "neoliberais", como a redução do estado do bem-estar social e a privatização de mastodônticas empresas estatais. Foi a maneira encontrada para manter o carneiro do capitalismo vivo e, assim, proporcionar uma vida melhor aos cidadãos.

Os jovens pouco conhecem a biografia de Lula. Quanto mais se renova o eleitorado, menos peso tem a sua trajetória

Até o segundo semestre do ano que vem, quando acontece o seu próximo encontro nacional, o debate em torno dessa questão incendiará o PT. "Temos de nos aliar à esquerda contemporânea", avalia o deputado José Genoíno. "O mundo está sinalizando para a 'terceira via'." A modernização implica necessariamente a exclusão dos grupos radicais. "O PT é o único partido de esquerda no mundo que ainda reúne sob a mesma legenda de trotskistas a social-democratas", diz um ex-dirigente petista. Já se estudam formas de enfraquecer a ala radical. Uma delas é transferir a sede nacional do partido de São Paulo para Brasília. A medida, raciocinam os moderados, serviria para diminuir a influência paulista, que concentra a maior parte dos xiitas. Outra idéia é lançar a eleição direta para a presidência do partido, em que todos os militantes teriam direito a voto. Com isso, seriam esvaziadas as facções minoritárias que, embora inexpressivas nas urnas, são muito ativas internamente e detêm de 30% a 50% dos delegados nos encontros e congressos do PT.

A ironia é que a "refundação" do partido tende a diminuir a importância do próprio Lula, o que de resto a realidade — ela outra vez — vem-se encarregando de fazer. Dos atuais 106 milhões de eleitores, 24 milhões não tinham idade para votar em 1989, quando o petista disputou sua primeira campanha presidencial. Essa fatia do eleitorado não estava nem sequer na escola quando Lula surgiu na política. Pesquisas encomendadas pelo PT indicaram que 70% dos jovens com direito a voto desconhecem a biografia do candidato por completo. Quanto mais se renova o eleitorado, menos peso tem a trajetória de Lula. Será preciso projetar novas lideranças nacionais, que ostentem um currículo mais atualizado e ajudem a viabilizar o partido eleitoralmente entre os segmentos que lhe são refratários. Os dois nomes mais cotados, nesse sentido, são o de Cristovam Buarque, que fez uma eficiente administração como governador do Distrito Federal, e o de Tarso Genro, ex-prefeito de Porto Alegre. Ao reconhecer que é necessário mudar os rumos da esquerda brasileira, Lula poderá entrar para a História como alguém que conseguiu sair das derrotas eleitorais com uma vitória no campo das idéias.

Com reportagem de Ricardo Balthazar, de São Paulo, Policarpo Jr.,
de Brasília, e Consuelo Dieguez, do Rio de Janeiro




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