Teste de estadista

A gravidade da crise econômica e a urgência
das reformas vão pôr à prova FHC no
segundo mandato, em que ele terá de
optar entre a grandeza e o esquecimento

Expedito Filho

Fernando Henrique,
o neto Pedro e Ruth
Cardoso saem do
apartamento, em
São Paulo, no
domingo: vitória
no primeiro turno
Foto: Egberto Nogueira  

Ao tomar posse, em janeiro de 1999, no segundo mandato de presidente que conquistou domingo passado nas urnas, Fernando Henrique Cardoso terá assegurado automaticamente um lugar nas seções de ineditismos e raridades dos livros de história. Entre os 33 presidentes da vida republicana brasileira, é o único a ser reeleito. Dos chefes de Estado escolhidos pelo voto, desde Juscelino Kubitschek, há quarenta anos, é o primeiro a cumprir na integridade o mandato. Terminando também todo o segundo, será o governante eleito democraticamente que mais tempo mandou nos destinos do país — e o último do século. Não será nada fácil, porém, marcar seu nome na História com H maiúsculo, aquela que rende estátua na praça, nome de rua, enredo de escola de samba e um lugar cativo no coração de gerações de brasileiros.

A crise vai dar ao presidente a chance rara de se testar, de buscar dentro de si o estadista que salva o país

Fernando Henrique Cardoso conclui um governo que passou por sobressaltos mas, em sua essência, transcorreu sob o signo da normalidade. Assume agora um outro governo debaixo da que pode ser a maior crise do capitalismo mundial, com sombrias repercussões para o Brasil. Nos quatro primeiros anos, o presidente liquidou a inflação endêmica que desafiou todos os seus antecessores, garantiu a estabilidade da moeda, modernizou muito o país e elevou o padrão da política nacional. Colocou o Brasil na agenda do mundo civilizado, pela primeira vez, como uma solução e não como a tradicional mescla de assuntos pitorescos e problemas. Não é pouca coisa. O que pode ocorrer nos próximos quatro anos? Há dois cenários diferentes e formidavelmente opostos. Um é glorioso. O outro, desastroso para o país e demolidor para a biografia de Fernando Henrique. No primeiro, o presidente reforma radicalmente a maneira como se administra o país. E o faz de um modo que nunca foi tentado no Brasil e apenas raras vezes na História mundial. O Estado deixa de ser uma máquina produtora de déficits. O país emerge da crise sólido e com perspectivas de crescimento sustentado, embicando para o milênio afora como uma nação moderna e justa. FHC torna-se um líder cujo prestígio transborda as fronteiras nacionais. Internamente, instala-se no imaginário popular como um dos presidentes do século, um governante com aquele tipo de aura que carregam só as figuras históricas de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. "O presidente tem uma forte noção desse momento histórico", diz o senador Antonio Carlos Magalhães.

"Não sou candidato de mim mesmo. Ou tenho apoio ou volto para casa e deixo a farra por conta de vocês"

No cenário ruim, FHC deixaria que as expectativas externas sobre o Brasil se esfarinhassem. O país perderia o empuxo modernizador, se encolheria em busca de soluções domésticas emergenciais tão assombrosas quanto postiças — como os confiscos, o aumento desesperado de impostos e o fechamento da economia. O real se tornaria aquilo que gerações de brasileiros já tiveram antes como moeda, um papel que perde valor a cada minuto vitimado pela desconfiança e queimado pela inflação. Nesse cenário sombrio, o Brasil estrearia no próximo milênio acanhado, uma nação instável, o mesmo mistério social envolto num enigma econômico que ele recebeu de Itamar Franco oito anos antes. FHC, então, seria lembrado simplesmente como um chefe de Estado com algum pendor intelectual. Não haveria um cenário intermediário? Pela gravidade do terremoto financeiro planetário que se anuncia e pelo grau de fragilidade da economia do país, que vem perdendo divisas num volume insustentável, o presidente muito provavelmente não terá o benefício dos meios-tons. Até 2002, quando deixa o Planalto aos 71 anos de idade, Fernando Henrique terá se tornado um presidente único ou, então, terá resumido seus dois mandatos a um rodapé da História.

Fotos: Claudio Rossi/Antonio Milena/
Divulgação

FHC em campanha, seus partidários e eleitores do PT
(abaixo)
no domingo: a luta pelo voto foi morna

"Barões da elite" — Um estadista visionário terá de surgir de dentro do político competente e do presidente correto que Fernando Henrique encarna. A crise vai lhe dar a chance rara de se testar. "A estabilização da moeda foi uma parada e a reeleição uma novidade, mas, para as mudanças iniciadas por FHC se tornarem históricas, é preciso que elas se consolidem", diz o filósofo José Arthur Giannotti, professor aposentado da Universidade de São Paulo e colega e amigo de longa data do presidente. "O esforço para vencer a crise pode ser o que falta para o Brasil romper definitivamente com o passado", diz o cientista político Sérgio Abranches. Existe quase um consenso no país de que não haverá estabilidade sem reformas e de que elas não virão sem uma guerra de vontades. "Fernando Henrique Cardoso elegeu-se sob o manto da estabilidade e ela está sendo testada. Se a estabilidade for por água abaixo, vai com ela o presidente", acredita Bolívar Lamounier, cientista político e diretor do Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo, Idesp. Enquanto seus eleitores iam às urnas no domingo, sua equipe alinhava os detalhes das medidas econômicas a ser anunciadas. Aumento da CPMF, cortes nos gastos, uma reforma de verdade na Previdência que, pela primeira vez, exigirá dos funcionários públicos que se responsabilizem por suas aposentadorias (veja reportagem). Além disso, o governo estuda o uso de fundos públicos para conter o aumento explosivo do desemprego, que deverá ser um dos subprodutos mais indesejáveis dos remédios anticrise.

"Acabo falando da sucessão de 2002 e da crise mundial. Tudo porque para ganhar era preciso governar o país"

Ao cair da tarde da última quarta-feira, no Palácio da Alvorada, o presidente fez uma pausa em sua campanha. Estava tranqüilo, sorridente e bem-humorado. A certa altura da conversa, levantou-se de sua cadeira, na biblioteca, para, num raro momento de descontração, bater três vezes no assoalho de madeira afastando o mau agouro dos dias árduos que virão no ataque à crise financeira. Fernando Henrique nem parecia mais o candidato-presidente que, em maio passado, encenou um gesto extremo e dramático de ameaçar renunciar à candidatura. Nas pesquisas da época feitas pelo comando da campanha, Fernando Henrique estava com 33%, contra 28% de Luís Inácio Lula da Silva. Ele caía. Lula subia. Nos três Estados do Sul, a diferença era de apenas 2 pontos e, dias mais tarde, pela primeira e única vez em toda a campanha, Lula sentiria o gosto de experimentar um empate técnico com Fernando Henrique. O presidente sentiu o baque e resolveu endurecer o jogo.

A queda nas pesquisas parecia tamanha que um senador do seu próprio partido chegou a sugerir ao presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, que se lançasse candidato, em vez de apostar em FHC. ACM não levou a proposta a sério, mas Fernando Henrique sentiu-se abandonado. Em questão de três a quatro dias, Fernando Henrique convocou para conversas um grupo de pessoas muitíssimo influentes, descritas por um assessor como os "barões da elite brasileira". Conversou com alguns pessoalmente. Com outros, falou pelo telefone. A todos foi claro, enfático e exibiu o mesmo raciocínio: "Eu não sou candidato de mim mesmo. Isso comigo não existe. Ou eu tenho apoio ou volto para casa e deixo a farra por conta de vocês. Aí vocês elegem o candidato que quiserem", disse. Seus interlocutores sentiram a gravidade do momento. Fernando Henrique argumentou que todo o sucesso do Plano Real se deveu à transparência das medidas e da participação de toda a sociedade nos benefícios da estabilidade monetária. Queria apoio de verdade para manter as conquistas do Real. Queixou-se em especial das televisões, que, no seu entender, vinham maltratando o governo com ênfase exagerada em notícias ruins, que acabavam azedando a avaliação popular do próprio presidente. Procurou os donos da Rede Globo, reclamou que o Jornal Nacional tinha ampliado a cobertura de temas como a seca no Nordeste, os saques, o incêndio em Roraima e o arrocho do salário mínimo. Da mídia em geral, queixou-se de que, em vez de cobrir mais profundamente a votação da reforma da Previdência, que passara pelo Congresso naquela mesma semana, estava obcecada pela sua declaração chamando de "vagabundo" quem se aposentou antes dos 50 anos.

A teoria do "mal menor" ou do diabo conhecido: "Se está ruim com FHC, ficará ainda pior sem ele"

Ameaça de renúncia — Procurou empresários para avisar que, se fosse abandonado, iria reagir desistindo da candidatura. Repetiu a ameaça a um líder partidário e, também, para seus ministros mais próximos. No meio da crise, a única de toda a campanha, Fernando Henrique deixou o Palácio do Planalto para um encontro sigiloso com Carlos Augusto Montenegro, dono do Ibope. Ouviu a análise de que sua queda era passageira e uma sucessão de nãos — tudo o que não deveria fazer. "Não ataque o Lula. Não apareça como candidato. Não viaje mais. Não faça uma campanha longa", recomendou Montenegro. Depois dessas conversas, em que agitou o fantasma da renúncia, teve apoio imediato. A seca desapareceu do noticiário, o aumento do salário mínimo foi esquecido e os pajés apareceram para apagar o incêndio de Roraima. Esqueceu-se a renúncia. Ao mesmo tempo, o governo começou a reagir. Atendeu as vítimas da seca, anunciou pacote de medidas para financiar a casa própria e combater o desemprego. As pesquisas logo refletiram as mudanças, e nunca mais Lula alcançaria o presidente.

Na semana passada, a quatro dias de arrancar das urnas o segundo mandato, Fernando Henrique avaliou os cinco meses de campanha, projetou o cenário político para sua sucessão. "Engraçado, campanha estranha essa. Para falar da campanha, acabo falando da sucessão de 2002 e da crise mundial. Tudo porque, para ganhar, era preciso não fazer campanha. Era preciso governar o país. Foi isso que eu fiz", disse, com ar de quem acabara de chegar a essa conclusão. O que é bom para os Estados Unidos, em se tratando de reeleição, também é bom para o Brasil. Em momentos diferentes, a assessoria eleitoral de FHC esteve nos Estados Unidos fazendo cursos e seminários, ouvindo conselhos e colhendo idéias. De setembro do ano passado até junho deste ano, houve um vai-e-vem de vôos entre o Brasil e os Estados Unidos. O primeiro a estudar a reeleição foi o sociólogo Antônio Lavareda, dono da MCI, veterano da campanha passada. Estiveram, ainda, nos EUA o jornalista Antônio Martins, o arquiteto Expedito Prata, o publicitário Nizan Guanaes e sua equipe da agência de propaganda DM9. Ouviram Peter Schechter, de uma consultoria política, que alertou para o risco de permitir que o monopólio das preocupações sociais ficasse com a oposição. De Mark Mallman, um dos principais analistas de pesquisas do Partido Democrata, receberam sugestões de como analisar os programas de TV e reagir a situações adversas. Mallman aconselhou a campanha a seguir a teoria do "mal menor" ou do "diabo conhecido". Dessa forma, sugeriu o americano, o eleitorado seria bombardeado com a noção de que, "se está ruim com Fernando Henrique, ficará ainda pior sem ele".

O PT causaria danos a FHC se tivesse mantido o foco sobre o desemprego e os desacertos sociais do país

Para estratégia e organização de campanha, os enviados dos tucanos consultaram Edward Rollins, que trabalhou duas vezes na Casa Branca e nas campanhas eleitorais de Ronald Reagan e George Bush. Rollins, escolado em matéria de reeleição, recomendou a divisão férrea entre governo e campanha, ficando o presidente com as boas notícias e os ministros com as más. Em junho, Lavareda escreveu uma mensagem para o presidente. Argumentava que, se nos primeiros quatro anos ele lançou e consolidou o Plano Real, o vital no segundo mandato seria apresentar um plano de geração de emprego e renda. Nizan Guanaes gostou da idéia e bolou a frase que seria martelada durante a campanha: "Quem foi capaz de derrotar a inflação derrotará também o desemprego". Bob Squier, o cérebro criativo das campanhas de Bill Clinton, ouviu a tirada e se entusiasmou. Na mesma linha, Sally Amam, assessora de imprensa do vice-presidente Al Gore nas campanhas de 1992 e 1996, sugeriu até detalhes sobre os ângulos em que FHC deveria ser fotografado. De preferência, sempre ao lado de símbolos nacionais, como a bandeira ou o brasão da República.

De limão a limonada Com um nível de profissionalização superior ao da campanha passada, os tucanos também trouxeram uma novidade tecnológica dos Estados Unidos: o Perception Analyzer, ou analisador de percepções, um sistema que mede, segundo a segundo, o impacto do que se está vendo e ouvindo numa tela de televisão — as imagens, as falas, os textos escritos. O aparelho é entregue a espectadores representativos da população que se quer pesquisar. O sujeito coloca cada mão sobre um botão, girando para um lado quando não gosta do que vê, e girando para o outro quando a imagem ou a fala lhe agrada. Conectado a um computador, suas reações são medidas no ato, emitindo um gráfico parecido com o de um eletrocardiograma. Com grupos de oito a doze pessoas, de todas as classes e idades, com o aparelhinho na mão, os publicitários governistas mediam o desempenho dos programas eleitorais de todos os partidos. Há três semanas, por exemplo, Lavareda descobriu, assustado, com base nas emissões do aparelhinho, que o programa do PT, enfim, adquirira consistência: o PT exibira um programa sobre as mazelas sociais, tendo como carro-chefe o medo de perder o emprego, e não falava da crise mundial. Mas tranqüilizou-se no dia seguinte quando a direção do partido mudou de rumo, aleatoriamente, mais uma vez. Pelas pesquisas dos marketeiros tucanos, o PT causaria danos à candidatura do presidente se tivesse mantido foco sobre o desemprego e os desacertos sociais do país. "Era o ponto fraco do governo e se eles continuassem batendo poderiam crescer", admitiu na semana passada o próprio presidente. O comando da campanha de Lula optou por dramatizar a crise econômica e apresentar o candidato do PT como alternativa. O tucanato agradeceu. Lula passou a andar num pântano sem saída.

"Eu vou fazer de um limão uma limonada", disse FHC. Ele queria evitar a acusação de estelionato eleitoral

A crise econômica foi a principal companheira de Fernando Henrique na campanha. Durante as três últimas semanas, já com o sinal verde do Tesouro americano e do FMI de que o país poderá obter ajuda de emergência quando dela precisar, Fernando Henrique desdobrava-se em conceber uma fórmula política para anunciar a gravidade do problema e livrar-se da acusação de estelionato eleitoral. Ele sabia, desde o pico da crise, que, depois de eleito, seria obrigado a enviar um pacote ao Congresso aumentando receita e cortando custos. "Eu vou fazer de um limão uma limonada", disse o presidente. Para evitar a sombria acusação de estelionato eleitoral, como aconteceu com o ex-presidente José Sarney com o Plano Cruzado II, FHC resolveu revelar o que não pode esconder: o combate ao déficit público não será feito com tapinhas nas costas dos políticos e palavras bonitas para a arquibancada. A limonada está na geladeira. Seus ingredientes eram conhecidos em linhas gerais na semana passada. Vêm medidas por aí que vão mexer com interesses longamente privilegiados. Como o próprio Fernando Henrique diagnosticou com acerto há algum tempo, a nova ordem mundial casou os destinos das nações. Antes, os países hegemônicos manipulavam os periféricos como joguetes de seus interesses. Hoje, os países fracos podem arrastar os fortes para o buraco e um país como o Brasil surge como a chave da estabilidade da economia internacional. Por essa razão, o mundo inteiro também estará de olho no desempenho de Fernando Henrique Cardoso nos próximos quatro anos.




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