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Apelo às armas
Líder dos
sem-terra diz que o movimento
é contra a violência, mas admite uso da luta
armada em algumas circunstâncias
Juliana de
Mari, de Caruaru
Na semana passada,
o principal líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem-Terra, MST, em Pernambuco, Jaime Amorim, admitiu pela
primeira vez que sua organização poderá recorrer à
luta armada para forçar a ocupação de fazendas. Há
mais de duas décadas não se ouvia alguém falar em
pegar em armas para resolver conflitos dessa natureza no
Brasil. Luta armada foi um recurso usado por várias
organizações de esquerda que faziam oposição ao
regime militar nas décadas de 60 e 70. Com a volta da
democracia, as divergências passaram a ser resolvidas
pela negociação política. Amorim, um catarinense de 38
anos, há onze radicado no Nordeste, acha que essa via
já não basta para o MST. Diz que o movimento é em
geral contra a violência, mas em determinadas
circunstâncias poderá recorrer ao conflito armado
contra fazendeiros. Amorim é admirador de Ernesto Che
Guevara, líder da revolução cubana, e dos atuais
guerrilheiros zapatistas da região de Chiapas, no
México. "Chiapas só se transformou em referência
porque recorreu à luta armada", acredita. Na
entrevista abaixo, ele mostra como está o ânimo entre
algumas lideranças do MST.
Veja
Como será a luta armada que o senhor propõe?
Amorim
Em algumas situações localizadas é preciso que os
trabalhadores se defendam contra a violência. Estamos
vendo que o latifúndio está resistindo. O governo
federal teve condições para realizar a reforma
agrária, não fez e deu fôlego para sua resistência.
Diante disso, as alternativas serão poucas para os
trabalhadores. Em alguns casos, os trabalhadores estão
dando sinais de que vão reagir. O MST acredita que a
reforma deve e pode ser pacífica, mas não podemos
permitir que as pessoas morram em função da violência
imposta pelo governo e pelos latifundiários.
Veja
O senhor segue algum modelo de luta de outros países?
Amorim
Como organização, não. Na verdade, nós não
conhecemos nenhum movimento que tenha a forma de luta do
MST. Nessa área, hoje existem duas grandes
organizações no mundo. São o MST, no Brasil, e
Chiapas, no México. São povos de histórias de lutas
diferentes. No caso de Chiapas, o que sei é que se
transformaram em referência por terem feito luta armada.
Veja
Na História recente da humanidade, quais os líderes que
o senhor mais admira?
Amorim
Admiro Che Guevara (Ernesto Che Guevara, líder da
revolução cubana, morto quando tentava organizar a
guerrilha na Bolívia, na década de 60), Marighella
(Carlos Marighella, líder de organização armada de
esquerda no Brasil, morto pela polícia numa emboscada em
1969), Zapata (Emiliano Zapata, líder da
revolução camponesa mexicana, na década de 10),
Mao Tsé-tung (líder da revolução comunista na
China, em 1949), Marx (Karl Marx, autor do livro O
Capital e principal ideólogo do comunismo), Lenin
(Vladimir Ilich Lenin, fundador da antiga União
Soviética), Paulo Freire (pedagogo brasileiro de
esquerda), Zumbi dos Palmares (líder de uma
rebelião de escravos negros em Alagoas, no século XVII)
e Jesus Cristo. Como Cristo, acredito que a fé remove
montanhas. Sou um pouco de todos, mas não sigo nenhum.
De cada um deles tento tirar um ensinamento, um conceito.
Aprendi com eles e tento evitar os erros que cometeram. O
importante é que todos têm um ideal de liberdade, que
me levam mais para perto do povo.
Veja
As outras lideranças do MST também vislumbram a
possibilidade de luta armada?
Amorim
Temos centenas de focos, com autonomia para decidir onde,
como e quando agir. Fazemos reuniões quase todo mês e
traçamos as linhas de ação. Se precisar, no meio do
conflito, a gente muda. Avaliar, só depois. O movimento
cresceu. Não dá mais para escutar todo mundo cada vez
que temos de agir.
Veja
O MST já tem as armas para lutar contra os fazendeiros?
Amorim
Nós não temos armas. Quem está armada é a polícia e
o latifundiário. É o momento e a circunstância que
vão apontar o caminho para nós. Com latifúndio armado
não há negociação. Eu acho que nossa política de dar
prazos está superada. A nossa tarefa como organização
é orientar o povo para pressionar o governo a fazer a
reforma agrária o mais rapidamente possível. O governo
alega que não age sob pressão. Age menos ainda quando
não há pressão alguma. O exemplo mais concreto disso
foi o Pontal do Paranapanema. Nós demos uma trégua de
quatro meses sem ocupações, esperando desapropriações
e assentamentos. O que aconteceu? Os trabalhadores
deixaram de pressionar e o governo, em vez de fazer os
assentamentos prometidos, começou a querer desmoralizar
as lideranças. No final, foram apenas 28 famílias
assentadas entre mais de 3.000 propostas. Para os
trabalhadores só restou recomeçar a luta, depois de
quatro meses perdidos.
Veja
Em que lugar do mundo o senhor acha que a luta armada deu
certo?
Amorim
Isso eu não sei, porque nunca estudei. Não estou
interessado em implantar aqui modelo algum. Também não
quero deflagrar uma luta armada generalizada, no Brasil
inteiro, para tomar o poder ou coisa assim. O que eu acho
é que o tempo da conversa acabou. Agora é preciso
reagir de forma mais firme à violência dos fazendeiros
e latifundiários. Se para isso for preciso recorrer à
luta armada em situações localizadas, nós
recorreremos..
Veja
Como o MST pretende treinar seus militantes para a luta
armada? O senhor, pessoalmente, já recebeu algum
treinamento?
Amorim
Nunca fui treinado, nunca viajei para fora do país com
esse objetivo nem nunca me preocupei muito com isso.
Participei de muitos congressos e seminários
latino-americanos, mas nunca estudei ou aprendi a fazer
uma revolução. Tornei-me uma liderança na luta do
dia-a-dia. Não haverá centros de treinamento
organizados. Apenas adotamos algumas políticas de
defesa. Já estamos orientando para que se façam grandes
ocupações, o que inibe possíveis ataques e garante a
vigilância permanente nos acampamentos. Se nada disso
adiantar, buscaremos alternativas. Os índios não tinham
armas e lutavam com flechas. Se o trabalhador não tem
arma de fogo, pega na enxada.
Veja
E se os fazendeiros reagirem com luta armada também, o
senhor não teme promover uma guerra civil no campo?
Amorim
Não temo guerra civil porque não incitamos a luta
armada de uma maneira generalizada. Se ocorrer, o que
não queremos, será de forma espontânea e isolada.
Nossas lutas são diferentes. Nosso movimento é
essencialmente de massa, e não de luta armada. Não
somos um movimento de três, quatro militantes. Somos
800.000 famílias organizadas no país. Nós não nos
organizamos para discutir que armas usar ou que
confrontos armar. Lutamos em regiões miseráveis, onde
as pessoas passam fome.
Veja
O fato de o presidente da República ter sido eleito pelo
voto direto da população não é suficiente para
dar-lhe credencial para resolver os problemas do campo?
Amorim
Errado. O povo não elegeu FHC porque ele é uma
liderança. O povo elegeu o Plano Real. Hoje, o real não
está tão forte, mas as pessoas preferem achar que com
FHC é mais seguro. Fernando Henrique não inspira
confiança, não inspira liderança, muito menos é um
ídolo do povo.
Veja
O presidente alega que fez a maior distribuição de
terras já promovida em um único governo no Brasil. O
senhor concorda com isso?
Amorim
É, de fato, o governo que mais assentou famílias até
hoje. Mas nós discordamos dos números. Ele diz que vai
assentar, nesses quatro anos, 280.000 famílias. Nós do
movimento achamos até que ele conseguirá assentar
170.000. Além disso, temos de ver que o mérito não é
só dele. Depois do regime militar, foram-se criando na
sociedade brasileira as condições para fazer a reforma
agrária, principalmente a compreensão de sua
necessidade. Quase 90% da população apóia a reforma
agrária. Fernando Henrique não soube aproveitar esse
apoio, não rompeu com os latifundiários nem com a
bancada agrária do Congresso.
Veja
Qual é a maior dificuldade para levar adiante
pacificamente o projeto de reforma agrária?
Amorim
Infelizmente, o governo do Fernando Henrique, submisso ao
neoliberalismo, trouxe uma crise generalizada para a
agricultura do país. O número de acampamentos está
crescendo e a capacidade de intervenção do Incra (Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária, órgão do
governo) está cada vez mais reduzida. O corte de
orçamento recente do Incra foi de 198 milhões de reais,
o que atinge basicamente os recursos de vistoria e obras
de infra-estrutura nos assentamentos e os programas de
assistência técnica e alfabetização de jovens e
adultos da reforma agrária, além de limitar os recursos
para as desapropriações. Com isso, o governo está
querendo desgastar a questão. E, se existe um consenso
no país, é a necessidade da reforma, que é a principal
alternativa para sairmos da miséria.
Veja
O que mais falta fazer para resolver os problemas do
campo?
Amorim
Boa vontade do governo. Do ano passado para cá, o
governo lançou medidas provisórias que emperraram o
processo e tiveram o objetivo de desgastar a imagem do
movimento. A primeira impedia a vistoria em áreas
ocupadas. A segunda proibia que qualquer funcionário do
Incra negocie quando tiver seu órgão ocupado. Por fim,
o corte ao apoio do Incra para as famílias acampadas. O
governo deixa claro que se trata de uma política para
desincentivar as ocupações. Se as famílias estão
acampadas, é porque não têm outra alternativa de
emprego. É a mesma coisa a história do saque. É balela
dizer que os saques têm caráter político. Reforma
agrária não é só resolver conflitos. Deve ser uma
política de desenvolvimento nacional. Uma reforma como
sonham os trabalhadores, com mudanças amplas, não pode
ser feita com meio-termo. É preciso uma intervenção
concreta, firme, para dar um fim definitivo a essa
estrutura fundiária que é um cancro no desenvolvimento
do país.
Veja
O senhor acha que quem apóia a reforma agrária também
apóia o MST?
Amorim
Não necessariamente. A reforma agrária é unânime.
Até o presidente sabe que tem de fazer a reforma. Mas
ele não consegue conceber reforma agrária e MST. Nós
sentimos que uma grande parte da população vê no
movimento uma esperança. Como não somos partido e as
pessoas não gostam de candidatos, o movimento cria um
sentimento diferente. Traz confiabilidade, principalmente
para a população mais simples, e, o fundamental, traz
auto-estima para as pessoas. Há uma contra-informação
grande. Não se mostram as coisas bonitas que o movimento
faz nos assentamentos. A imprensa se baseia nos fatos
mais radicais do movimento. As coisas boas que a gente
faz quebram a imagem de movimento radical. Crianças nos
colégios, adultos estudando, produzindo. Também
conseguimos trabalhar a idéia de amor, paz, seriedade e
sinceridade. A ordem é ninguém passar fome.
Veja
No caso de o MST recorrer à luta armada, o senhor acha
que a população ficaria simpática a isso?
Amorim
A população se divide. As pessoas discordam da forma de
luta, mas acham que a gente tem de fazer alguma coisa,
que não pode ficar de braços cruzados. A gente pesa as
coisas na balança: o povo está há 500 anos explorado,
submisso, perdendo a sua identidade. A gente tem de
demonstrar a nossa insatisfação e que quer construir um
país novo, mesmo que isso sacrifique algumas pessoas. Se
houver, em alguns momentos, algum tipo de confronto
armado, a população vai ter esse mesmo sentimento. No
dia em que alguém puder desestruturar essas gangues
armadas dos usineiros, com certeza as pessoas vão ter
mais liberdade para ir e vir e dizer o que pensam. Com
certeza, a população também vai ficar mais feliz.
Veja
Que tipo de regime o senhor sonha para o futuro do
Brasil?
Amorim
A gente nem discute muito isso. Na verdade, só existem
dois tipos de regime. Um é o capitalismo, com suas
diversas etapas. A do neoliberalismo me parece que foi a
mais promíscua, a que mais marginalizou, a que mais
trouxe fome e miséria, a que urbanizou as pessoas sem
perspectivas, gerando uma violência incontrolável. O
outro é o socialismo, com todas as suas derrocadas
internacionais. É um sonho ainda dos trabalhadores
construir uma sociedade sem explorados, sem exploradores,
mais justa, mais igualitária. Mas acho que não
precisamos discutir regimes. Temos de discutir a melhoria
de vida dos trabalhadores. É claro que o meu sonho é o
socialismo, mas não cabe a nós discutir modelos. O
Brasil é um país com uma potencialidade muito grande,
que teria condições de romper com a política
internacional. É um país que tem uma capacidade
incrível de reação, com um povo esperto e
universidades fortes. É isso que a gente quer, que essa
riqueza do país possa ficar no Brasil. Chega de sangria,
chega de colonização.
Veja
Por que o MST não se transformou em partido político
até hoje? Pretende fazer isso?
Amorim
Nós tivemos uma experiência interessante nas marchas.
Em todos os lugares em que chegávamos, a população se
fechava, alegando que não queria saber de política. Só
quando entendia que não era campanha política se abria
para o nosso discurso. Nunca vamos nos transformar em
partido político. A idéia é fortalecer, cada vez mais,
o movimento, servindo como um instrumento de pressão a
favor da sociedade. Uma grande parte da população vê
no MST uma esperança. Perderíamos credibilidade se
mudássemos nosso rumo. Partidos políticos existem
muitos. Estamos praticamente sós como oposição direta
a FHC. É muito fácil ele não tomar pé da violência
contra os trabalhadores. Nós temos enfrentado muitos
grupos armados. Estamos muito preocupados, mas não
conseguimos vislumbrar todo o cenário que vem pela
frente.

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