Panorama
• Imagem da SemanaBrasil
• Eleições: Henrique Meirelles no PMDB: o sonho de ser viceInternacional
• Honduras: Enviada de VEJA mostra a situação na capitalGeral
• Desenvolvimento: A hora de o Brasil crescerArtes e Espetáculos
• Cinema: Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino
|
Montagem sobre fotos Gilberto Ferrez/Acervo IMS, Sérgio Pitamitz/Alamy/Other
Images e Ernani d'Almeida![]() |
| PASSADO E FUTURO A Praia de Botafogo, no início do século XX, e o salto da pequena ginasta Lorenna da Rocha: uma oportunidade de virada para o Rio de Janeiro |
VEJA TAMBÉM |
| • Nesta edição: O Rio rumo ao Olimpo |
| • Nesta edição: O cronômetro foi acionado |
| • Nesta edição: Um projeto de futuro |
Ao anunciar a sede da Olimpíada de 2016, o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Jacques Rogge, deu, na semana passada, a largada a uma corrida de obstáculos. Para cruzar a linha de chegada, em 5 de agosto de 2016, o Rio de Janeiro terá de vencer o desgoverno e o abandono, criados nas últimas décadas por uma elite política arcaica. Terá de superar a violência, a favelização desenfreada e a poluição de suas lagoas. O desafio é saltar sobre essa realidade e organizar o maior evento esportivo mundial. Nada se compara, em complexidade, a uma Olimpíada. Para começar, desembarcarão na cidade 1 milhão de turistas e 15 000 atletas. Eles precisarão se deslocar entre 34 instalações esportivas, antes de terminar o dia nos bares e restaurantes. Ficarão hospedados em um dos 48 000 quartos de hotel que serão necessários. Quase metade deles ainda não existe. Emissoras de TV vão transmitir as competições para 4,4 bilhões de pessoas. Para qualquer lado que se olhe, o que se vê na vitória conquistada agora é um desafio de proporções épicas para o Rio.
Uma comparação ajuda a entender o tamanho da tarefa. Os monumentais Jogos de Pequim tiveram 4 500 atletas a menos e a metade do número de turistas. Pequim criou o majestoso Ninho de Pássaro, o estádio olímpico mais bonito que já se viu, mas por uma casualidade (o fuso horário mais conveniente aos americanos e europeus) os Jogos do Rio terão mais telespectadores. A pergunta é: haverá fôlego para concluir essa prova, tratando-se de uma cidade que fracassa há anos em resolver seus próprios problemas? É a pergunta que se deve fazer. Mais do que um torneio planetário, as Olimpíadas são o templo da superação humana. Nos esportes de alto nível, em que milésimos de segundo separam o vencedor do vencido, qualquer ruído pode atrapalhar. Um engarrafamento pode tirar a concentração de um atleta. A poluição do ar pode roubar os milímetros de um salto. Preparar a casa para um evento dessa magnitude exige mais do que obras de pavimentação e construção de estádios. Durante os dezesseis dias de realização dos Jogos, as cidades têm de estar limpas, com ar puro, e seus habitantes precisam se engajar na tarefa de dar aos atletas o conforto e a tranquilidade de que necessitam. Por isso a escolha da cidade-sede é cercada de tanto zelo. Se o Rio dará conta da tarefa, o tempo dirá, mas os eleitores do COI acabam de apostar que sim, preterindo Chicago, Madri e Tóquio.
Eles foram convencidos por uma campanha avaliada em 140 milhões de reais, feita para apenas 97 cidadãos que integram a cúpula do esporte mundial. Entre esses senhores estão tipos tão diferentes como o príncipe Albert II de Mônaco, o nadador russo Alexander Popov e o xeque do Kuwait Ahmad Al-Sabah. Ganhá-los não é apenas uma questão de apresentar argumentos técnicos. É preciso emocionar. Para essa tarefa, três consultores com experiência em campanhas desse tipo foram contratados. Mike Lee trabalhou na equipe que garantiu a vitória de Londres para sediar os Jogos de 2012. Michael Payne foi, durante vinte anos, o encarregado do marketing do COI. Nessa posição, esteve à frente da transformação das Olimpíadas em bilionários fenômenos de marketing. E o americano Scott Givens ajudou a erigir o sucesso da Super Bowl, a espetacular final do campeonato de futebol americano, nos Estados Unidos.
A missão do trio foi traçar a estratégia de aproximação com os eleitores. Isso incluiu sessões de ensaio com o governador Sérgio Cabral, o prefeito Eduardo Paes e o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman. O presidente Lula ficou longe da sala de aula. Preferiu o improviso, mas aproveitou uma reunião do G8, na Itália, para uma deferência especial aos eleitores italianos do COI que estavam presentes. Dos cinco, encontrou quatro. Em setembro, ao conversar com o presidente francês Nicolas Sarkozy sobre a compra de caças Rafale, Lula arrancou a promessa de empenho para dar ao Brasil os dois votos franceses. João Havelange, o presidente de honra da Fifa, que também integra o conselho do COI, escreveu cartas de próprio punho aos colegas em tom emocional. Lembrou que em 2016 estará completando 100 anos e que a Olimpíada no Rio seria um belo presente. Nuzman, do COB, viajou para países da África, Ásia e Europa. Os marqueteiros decidiram que o crescimento da economia brasileira deveria ser explorado durante a campanha. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, foi convocado para participar das apresentações oficiais da candidatura. "Você se sente um desses garotos que ficam no sinal jogando bolinhas para cima, para agradar", disse Eduardo Paes a VEJA.
Todo esse esforço tem uma recompensa. No mundo altamente simbólico dos Jogos Olímpicos, persiste a ideia de que o evento é um bem em si para o lugar que o sedia. Todas as exigências feitas pela organização têm o objetivo de deixar um legado de desenvolvimento à cidade. Essa ideia foi inaugurada nos Jogos de Barcelona, em 1992. A cidade catalã passou por transformações tão profundas, na fase de preparação, que seu destino foi alterado. Degradada e decadente até o fim dos anos 80, ela se tornou um dos principais destinos turísticos da Europa. Desde então, o projeto olímpico ficou irreversivelmente vinculado à ideia de um projeto de cidade. "Barcelona entronizou a visão de que, na era pós-industrial, as cidades são mais importantes do que os países, são cidades globais", diz o ex-secretário de Urbanismo do Rio Alfredo Sirkis, hoje vereador pelo PV.
A vitória em Copenhague tem relação com um aprendizado recente, o de que a recuperação do Rio de Janeiro é tarefa nacional, num país que pretende continuar a crescer e a ganhar importância no cenário mundial. É esse o espírito da candidatura vencedora. Ele deverá se materializar na forma de investimentos que somam quase 29 bilhões de reais 23 bilhões em infraestrutura , quantia que, bem administrada, tem força para mudar a paisagem socioeconômica da cidade mais bonita do Brasil. Um estudo encomendado pelo Ministério do Esporte estimou que serão criados 2 milhões de empregos nos próximos dezoito anos, a um ritmo de pelo menos 120 000 por ano. O mesmo estudo calcula que os Jogos vão trazer para a economia do país recursos da ordem de 102 bilhões de reais. Nas palavras do espanhol Josep Chias, coordenador de marketing dos Jogos de Barcelona: "Não foi uma vitória só do Rio. Trata-se de uma reverência ao Brasil, pelo lugar de destaque que ele ocupa hoje no mundo".
É verdade que o Rio se beneficiou da simpatia do presidente do COI pela ideia de realizar os Jogos na América do Sul. Mas inegavelmente a cidade abraçou essa oportunidade com um projeto competente. Um dos melhores exemplos é como tirou proveito da paisagem. Os cartões-postais da cidade são estruturas esportivas naturais. Na Olimpíada de Atenas, os organizadores tiveram de construir um lago artificial para as competições de remo, a um custo de 217 milhões de reais. No Rio, as provas serão realizadas na Lagoa Rodrigo de Freitas, que vai receber investimentos de 4,5 milhões de reais para reformar seu estádio de remo e uma arquibancada temporária para 10 000 pessoas. Nos Jogos de Pequim, as provas de vela tiveram de ser realizadas a 800 quilômetros de distância da capital, na cidade de Qingdao, onde foi erguido um centro olímpico que custou 862 milhões de reais. No Rio, o local da competição fica no centro da cidade, na Marina da Glória, onde serão investidos 19 milhões de reais em obras de revitalização. Essa economia nas instalações esportivas permitiu que a maior parte da despesa se voltasse para os investimentos em infraestrutura, a principal desvantagem do Rio em relação às concorrentes.
Do conjunto de obras, mais da metade já estava nas pranchetas dos governos federal, estadual e municipal. Algumas delas virão antes, para a realização da Copa do Mundo de 2014, como a reforma do Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão) e do Maracanã. Outras estavam na lista de prioridades dos governos municipal e estadual, mas ajudaram a compor o pacote do "esforço olímpico". Das diversas intervenções, as mais importantes para a vida da cidade trarão melhorias ao sistema de transportes coletivos carioca, um serviço de péssima qualidade, engargalado e entregue, há décadas, à mais pura tradução da pilantragem que une empresários espertos e inescrupulosos a agentes públicos corruptos. Apenas um terço do investimento será destinado propriamente à organização e instalações para receber os Jogos. Se forem executadas a contento, essas obras podem ser o início do resgate de uma cidade que teve em Carlos Lacerda seu último governante empreendedor nos anos 60. De lá para cá, o que se viu foi uma cidade crescentemente entregue ao descaso.
Um sopro de mudança nesse panorama veio com o recente alinhamento político das três esferas de governo. É vergonhoso que o país precise que o presidente seja aliado político do governador e este, por sua vez, padrinho político do prefeito para que trabalhem juntos. Mas o fato é que a parceria entre os três níveis de poder foi um dos trunfos da candidatura carioca. O governo federal assumiu o papel de principal avalista. Foi o que deu a vitória num vestibular dificílimo. Esta foi a oitava tentativa do Brasil. A primeira candidatura, para os Jogos de 1936, não recebeu um único voto. Outras iniciativas deixaram o país em situação ainda mais constrangedora. Brasília se inscreveu para os Jogos de 2000, mas teve de retirar a candidatura antes mesmo da votação, de tão inviável. A conquista que veio finalmente na semana passada tem tudo para acordar o Rio de Janeiro de seu longo sono. É a oportunidade de um salto para o futuro.
Praia de Copacabana
Vantagem: custo |
Aterro do Flamengo e Marina da Glória
Área
do parque: 1,6 milhão de metros quadrados. Vantagem: distância |
Estádio Aquático Olímpico da Barra da Tijuca
Vantagem: versatilidade |
Lagoa Rodrigo de Freitas
• Reforma do estádio de remo e construção de arquibancada temporária para 10 000 lugares. Vantagem: custo |
A nova cara do Rio15,8 bilhões de reais 7,4 bilhões de reais Total do
investimento até 2016:
|