Comida
Sal, azeite e bastante imaginação

Bel Moherdaui
Basta
o tempo melhorar, ou a calça apertar, para que se pense em duas hipóteses.
Primeira, ninguém quer ficar acorrentado à cozinha com tanta coisa
para fazer lá fora. Segunda, está na hora de trocar os pratos mais
pesados por uma saladinha. Ou saladona: rápida, bem arrumada e composta
dos principais ingredientes de uma refeição completa proteína,
carboidratos e todos os saudáveis verdes. Verduras e legumes remontam ao
alvorecer da humanidade, mas a salada o nome vem de "salgada"
teve origem na Grécia e na Roma antigas. "No Império
Romano já se consumiam vegetais frios temperados com um molho semelhante
ao vinagrete, em pequenas porções que se comiam simultaneamente
aos outros pratos", disse a VEJA a americana Cathy Kaufman, professora de
história da comida do Institute of Culinary Education, de Nova York. Era
chique cultivar as próprias verduras, e não havia gente importante qui nullos habuit hortos que não tivesse um sitiozinho, em
resumo. O primeiro salad bar foi aberto em 1939, em Boston; a primeira referência
a salada verde no jantar de posse de um presidente americano aconteceu na de Harry
Truman, dez anos depois. A partir dos anos 60, apareceu no cardápio de
restaurantes, promovida a "comida de verdade". VEJA convidou onze profissionais
e diletantes da culinária para apresentar suas receitas de saladas que
valem uma deliciosa refeição.
A
tentação de Carolina
Paulo Vitale
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Ao contrário do que reza a lenda,
a atriz Carolina Ferraz come mais do que algumas folhinhas de alface. Ela
até põe bacon nas folhinhas! "Na receita original, da minha
mãe, ainda vão mussarela de búfala e molho com queijo roquefort.
Mas achei demais e fiz essa versão mais light", brinca a bela e esguia
Carolina, que lança no ano que vem seu primeiro livro de receitas
"Para quem quer entrar na cozinha mesmo sem saber cozinhar e fazer alguma
coisa legal". Comece a salada de Carolina rasgando, em pedaços irregulares,
uma alface-americana e as folhas mais bonitas de um maço de espinafre fresco.
Corte em tiras finas 200 gramas de peito de peru e reserve uma parte. Misture
a outra parte com as folhas em uma travessa funda, mais uma caixinha de tomate-cereja.
Frite duas caixinhas de bacon em cubinhos na frigideira quente. A gordura do próprio
bacon, que deve ficar bem crocante, será suficiente. Escorra e reserve
essa gordura para o molho final. Amasse o bacon frito em um pilão até
esfarelar bem e reserve. À gordura do bacon adicione um pouco de azeite,
duas ou três gotas de vinagre balsâmico, uma pitada de sal e pimenta-do-reino
moída na hora. Bata tudo, ponha 200 gramas de pinolis torrados e misture
à salada. Salpique por cima o bacon esfarelado e as últimas tiras
de peito de peru. As duas crocâncias, do bacon e do pinoli, transformam
a salada num prato tentador, sem nada de sem graça. Alguém esperava
outra coisa de uma receita de Carolina?
Deliciosas minhoquinhas
Paulo Vitale
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Alexandre
Herchcovitch come asa de morcego e costela de dragão? De jeito nenhum.
Estilista que ficou conhecido, no começo da carreira na moda, pelas caveiras
e tatuagens, ele é um especialista amador em regimes está
atualmente com 15 quilos menos que o peso que chegou a atingir e profundo
conhecedor do ramo das saladas. "Como todos os dias, em todas as refeições,
menos no café da manhã", informa. Herchcovitch propõe
aqui uma espécie de rascunho, ou croqui, do prato: o traço é
propositalmente livre para que cada um ajuste as medidas conforme fome e gosto.
"Eu não sou de ficar repetindo receita. Em geral, uso o que tenho
em casa", diz. O que tem em casa, claro, é bom, fresquinho e variado.
Neste caso, a base é feita de alface, minirrúcula e miniagrião.
A cenoura, para dar um colorido, é ralada crua e acompanhada de ervilhas
verdinhas. O toque pessoal vem do ovo, que ele espreme como batatas. "Quando
eu era criança, minha mãe cozinhava o ovo e passava no espremedor
de batatas. Ficavam essas minhoquinhas, que eu gostava de comer com azeite e sal.
Elas dão um gosto diferente e você fica mais saciado. Mas quem preferir
pode trocar por queijo ralado", sugere. Por cima vão aspargos quentes,
cozidos no vapor com sal e tirados da panela ainda bem consistentes. A finalização
é feita com nozes picadas, tudo recoberto com molho de azeite, limão,
sal e mel. "No final, as nozes que sobram mergulhadas no molho no fundo do
prato são uma delícia", diz. É tão bom que, acreditem,
Herchcovitch sorriu na foto. Ficou lindo, mas, por favor, não digam a ele.
Permitido
improvisar
Fotos Zuma Press e Paulo Vitale
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Jamie Oliver é um sucesso: tudo em que ele põe
as mãos, ligeiramente sujas de terra e sabe-se lá mais do quê,
fica gostoso e é aplaudido até em programa de auditório.
Jovem, simpático e sempre a um milhão por hora, o chef inglês
é apologista dos ingredientes tirados da própria horta e da improvisação.
No livro Jamie Revolução na Cozinha, recém-lançado
no Brasil, ele propõe "saladas em evolução", ou
constante mudança. "A de cenoura é uma das mais fáceis
e mais versáteis, uma vez que sempre dá para incluir novos ingredientes
e obter sabores diferentes. E, como a maioria das crianças adora cenoura,
vira uma refeição em família", disse Oliver a VEJA.
Para começar, raspe a casca de duas ou três cenouras as receitas
dele nunca são precisas e rale dentro de uma tigela. Misture com
folhas de hortelã, coentro fresco e cebolinha- francesa, todos picados.
Tempere com uma pitada de sal marinho e pimenta-do-reino moída na hora,
três colheres de sopa de óleo de oliva extravirgem e uma colher de
suco de limão. Separadamente, jogue em uma frigideira quente e seca um
punhado de sementes pequenas (sugestões: de papoula, de gergelim). Mexa
e toste por um minuto, depois polvilhe sobre a salada. Complemente com uma ou
duas mexericas em gomos grandes inteiros ou partidos, um pão sírio
em pequenos pedaços e um pouco de queijo feta. Ou algum outro pão,
algum outro queijo, alguma outra fruta. O importante é experimentar. Jamie
faz isso até com os botânicos nomes das três filhinhas: Poppy
Honey Rosie, Daisy Boo Pamela e Petal Blossom Rainbow.
É pipoca, mas totalmente selvagem
Paulo Vitale
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Esta é uma receita
para quem quer se aventurar mais na cozinha. Foi concebida por dois chefs que
trazem no currículo nomes de tirar o fôlego dos aficionados por alta
culinária. Felipe Ribenboim trabalhou no El Bulli do legendário
Ferran Adrià. Gabriel Broide conquistou a sua toque dando duro com
o francês Daniel Boulud, em Nova York. Juntaram elementos das respectivas
escolas para criar esta salada. "Queríamos que tivesse texturas e
sabores diferentes, daí o agridoce do vinagrete e o crocante da pipoca",
diz Ribenboim. Reserve a mistura de três alfaces americana, roxa
e frisée , acrescentada de um bom punhado de tomates-cereja cortados
na vertical. Cozinhe separadamente, em panelas com água abundante e sal
grosso, um quarto de xícara de cevadinha e um quarto de xícara de
trigo, até que fiquem al dente. Quem achar difícil de encontrar
ou de fazer, pode substituir por arroz sete cereais, que vem num pacotinho e facilita
imensamente a vida. Em uma terceira panela com água fervente e sal grosso,
coloque por alguns segundos 100 gramas de vagem holandesa sem as pontas. Resfrie
em água com gelo para manter a textura e a cor. Aproveite a água
da vagem para cozinhar 200 gramas de camarão por 20 segundos. Agora, o
toque de mágico, a pipoca de arroz selvagem: aqueça uma panela com
óleo de canola e frite o arroz selvagem até que ele "pipoque".
"Não é só o milho que tem essa propriedade. Outros grãos
úmidos por dentro podem estourar a cápsula e explodir. Isso funciona
também com a semente de mostarda. Já a de coentro queimou",
conta Ribenboim, que é dado a experimentações no restaurante
Dois Cozinha Contemporânea, em São Paulo. Retiradas com escumadeira
e levemente salgadas, as pipocas repousam em papel absorvente. Para fazer o vinagrete,
reduza o suco de uma laranja a um quarto do volume inicial em fogo baixo. Em uma
tigela, misture com uma colher de sopa de vinagre de vinho branco, sal e pimenta.
Bata tudo com mais quatro colheres de sopa de azeite de oliva e duas de óleo
de girassol, até misturar bem. Comece a montagem pelas folhas rasgadas
na mão, depois os tomates, os camarões temperados com sal, pimenta
e vinagrete, as vagens regadas com azeite (de urucum, em gotinhas, para um toque
exótico) e, para finalizar, a pipoca. Vai ser difícil voltar para
a versão de micro-ondas.
A César
o que é de César
Paulo Vitale
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Clássico da culinária americana,
a salada Caesar surgiu num tempo em que ninguém comia salada 1924
e trazia as folhas verdes afogadas em molho, para que ninguém se
sentisse diminuído na sua alma carnívora. "Caesar Cardini era
um imigrante italiano dono de restaurante em Tijuana, no México, de onde
a salada saiu, chegou a Los Angeles e caiu no gosto do pessoal do cinema",
diz o professor de história da culinária Andrew Smith, editor da
Enciclopédia Oxford de Comida e Bebida na América. Os ingredientes
da Caesar original, americanamente pronunciada "Císar", são
alface-romana, alho, azeite, croûtons, queijo parmesão e molho inglês.
Com o tempo, ela ganhou anchovas, frango grelhado e outras variações.
Aqui, a chef Tatiana Szeles modernizou a Caesar, tornando-a mais leve,
mais oriental e mais contemporânea. Tempere dois filés de frango
com sal, grelhe dois minutos de cada lado e finalize no forno médio por
cinco minutos. Depois, corte-os em lâminas. Asse meia dúzia de tomates-cereja
por quinze minutos em forno baixo "Sequinhos, eles ficam mais doces
e ainda dão um toque colorido a essa salada tão amarela", ensina
Tatiana, que comanda a cozinha do Boa Bistrô. Lave e seque bem as folhas
de meia alface-americana. Tempere com um vinagrete feito com três colheres
de sopa de molho shoyu light, suco de meio limão-siciliano, uma ponta de
colher de café de wasabi em pasta e cinco colheres de sopa de azeite. Quem
tiver acesso ao shissô, "uma folhinha japonesa muito usada na cozinha
quente oriental, que lembra uma mistura de manjericão e hortelã",
use-o para fazer uma levíssima maionese. Caso contrário, substitua-o
pelas ervas mencionadas. Para prepará-la, misture no liquidificador uma
gema, meia colher de café de mostarda de Dijon, sal, suco de meia laranja
e uma folha de shissô picada. Bata aos poucos com um fio de azeite ("Vai
ficar mais líquida que uma maionese convencional"), misture à
salada e sirva com pão sueco, "que dá a crocância do
croûton e é muito menos gorduroso". Ave, César.
Risoto de geladeira
Fotos Paulo Vitale e J. Egberto
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Italiana como ela é
a salada de arroz indicada pela elegantíssima consultora de moda Costanza
Pascolato, uma espécie de risoto frio, ideal para os dias de calor
e um rápido e passageiro respiro na dieta. "Fica uma delícia,
mas eu só experimento em ocasiões especiais. No dia a dia, não
como arroz", diz ela, prova viva de que o preço da esbeltez é
a eterna vigilância. O arroz é o italiano ou arbóreo, do tipo
usado em risotos autênticos. Deve ser cozido direto na água salgada,
sem refogar antes. Para duas pessoas com apetite de profissionais da moda, uma
xícara é suficiente. Um pouquinho mais não vai tumultuar
nenhum regime. Depois de cozido daquele jeito consistente aprovado pelos italianos,
o arroz fica esfriando em uma travessa funda. O molho é feito com duas
colheres de sopa de mostarda amarela (se for francesa, melhor), azeite e suco
de um limão, misturados até o estágio bem líquido.
A ele se somam dois tomates, um pimentão vermelho e outro amarelo, todos
sem sementes e criteriosamente picados mas não triturados, meia xícara
de manjericão fresco batido no processador e alcaparras inteiras. Despeje
tudo sobre o arroz frio e misture. Guarde na geladeira até a hora de servir.
"Fica ótimo com um peixe, por exemplo um salmão assado no papelote",
recomenda Costanza. Papelote obviamente não é aquela coisa que as
avós punham no cabelo, mas um papel alumínio ou manteiga
que praticamente elimina o uso de óleo e permite comer a salada
de arroz sem peso na consciência.
Verde e
rosa, muito rosa
Paulo Vitale
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Marc Jacobs é um dos estilistas mais copiados
do mundo, pelo jeito jovem e moderno das suas roupas, sem falar nas bolsas
Louis Vuitton, nada menos. Na cozinha, é ele quem copia. Quem entrega é
seu companheiro, o publicitário paulista Lorenzo Martone. Os dois
têm mesa cativa no restaurante do Mercer Hotel, em Nova York, onde geralmente
comem essa salada reforçada. Eventualmente, tentam reproduzi-la em casa.
A ela. Esquente em uma frigideira uma colher de sopa de azeite e frite por dois
minutos meia cebola pequena moída, meia colher de sopa rasa de alho bem
picado, sal e pimenta. Acrescente meio copo de quinoa e dois galhos de tomilho
e deixe mais dois minutos. Aos poucos, coloque caldo de galinha os chefs
fazem a coisa toda desde o começo; os seres humanos normais dissolvem um
cubinho em meio litro de água fervente. Coloque o equivalente a três
quartos de um copo, tampe e deixe cozinhar no fogo alto por três minutos
e mais quinze a vinte no fogo baixo, até que toda a água seja absorvida.
Enquanto isso, escalde três aspargos e grelhe quatro camarões grandes.
Forre o fundo de uma tigela de vidro, para ficar mais bonito, com os aspargos
cortados em tiras. Misture a quinoa ainda quente com os camarões e coloque
por cima. Adicione um abacate, ou a versão mais elegante, o avocado, cortado
em fatias, algumas folhas de manjericão picadas e cinco tomates-cereja.
Tempere com sal, pimenta e vinagrete feito de meio copo de vinagre de arroz, meia
colher de sopa de mel, três colheres de sopa de azeite, uma colher de sopa
de casca de laranja ralada, uma colher de sopa de casca de limão ralado
e uma colher de coentro moído. "É uma salada saudável
e gostosa, com cores lindas", diz Martone. Para se sentir em pleno verão
mediterrâneo e completar a gama de verdes e rosas, abra um vinho rosé.
Regime, mas nem tanto
Fotos Paulo Vitale
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Misturar queijo de cabra com atum é
uma combinação que parece Angélica e Luciano Huck:
ninguém imaginava que daria certo, até que deu. E resultou em pratos
criativos. Depois de passar muito tempo vivendo de brisa no caso dela,
muita alface com tomate, agrião, no máximo erva-doce , a apresentadora
mudou de vida. "Não faço mais isso. Agora sempre acompanho
com uma proteína, pelo menos. Mas, na época dos regimes da adolescência,
comia só salada mesmo", lembra. A salada-refeição aqui
apresentada foi concebida pela cozinheira da família, Miriam Freitas, e
tem a vantagem de usar coisas que vêm em latas e vidros portanto,
fáceis de estocar e preparar nos momentos de geladeira vazia. Rasgue folhas
de alface-americana e coloque em um círculo, no prato. No meio, uma lata
de atum sólido escorrido e, por cima da alface, alcachofras em conserva
intercaladas com bolinhas de queijo de cabra também em conserva. Salpique
tudo com os indefectíveis tomatinhos-cereja cortados ao meio. O molho é
feito com nozes picadas, azeite, sal, cheiro-verde e limão. Na casa de
Angélica, todo mundo gosta, porque, além de lindos e loiros, os
filhos do casal Huck são, aparentemente, santos. "Eles sempre comem
salada. Com o Benício, tenho de dar só depois do prato principal,
senão ele se enche e não come mais nada", diz Angélica.
A burrata inteligente
Paulo Vitale
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Folhas, queijo
e cogumelos: não tem como errar com essa combinação. Mas
tem como variar. Se o queijo for mussarela de búfala, a salada ganha em
sutileza. E, se for burrata, a deliciosa variação em que uma película
envolve um interior deliciosamente cremoso, a salada vira experiência gastronômica.
"É uma mussarela grandona, também redonda, mas mais mole e
suave", descreve a chef Mary Nigri. Por ser praticamente artesanal,
tem validade curta. Quando acha um lote, Mary costuma avisar os clientes mais
fiéis para que corram ao seu restaurante, o Quattrino, e aproveitem antes
que acabe. Na receita dela, a burrata (calcule uma bolota de cerca de 100 gramas
por pessoa) é servida picada sobre uma base de verdes que inclui rúcula,
agrião e alface-americana. Para complementar, tomates italianos e cogumelo
shiitake morno, grelhado em frigideira não aderente. O molho é simples,
"para que o gosto dos verdes e do queijo não fique escondido":
duas dúzias de azeitonas chilenas pretas picadas e azeite extravirgem a
gosto. Em tempo: a palavra burrata não tem nada a ver com o QI da mussarela,
mas com manteiga, em italiano.
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