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• Cinema: Bastardos Inglórios, de Quentin TarantinoBrasilA reação dos fichas-sujasO projeto que impede a candidatura de pessoas
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Fotos Pablo Valadares/AE e Alan Marques/Folha Imagem![]() |
| AÇÃO E REAÇÃO José Genoíno, presidente do PT no caso do mensalão, lidera a derrubada do projeto contra os fichas-sujas, que foi entregue por crianças ao Congresso |
Em democracias mais tradicionais, como os Estados Unidos e a França, não há lei que vete a can-didatura de quem responda a processos na Justiça ou mesmo já tenha sido condenado em primeira instância e nem precisa haver. Se um político enrolado de um desses países decidir testar sua popularidade nas urnas, a chance de sucesso, mesmo sem nenhum impedimento legal, é praticamente nula. Primeiro, porque dificilmente ele consegue atravessar o filtro partidário. Depois, ainda que consiga, o repúdio do eleitorado a casos assim é muito intenso. No Brasil, a tradição corre em sentido inverso. As casas legislativas, principalmente, têm servido de biombo para esconder do alcance da Justiça políticos que, em vez de biografias, são donos de extensos prontuários. A situação é tão vexatória que, para tentar impedir que isso continue acontecendo, está no Congresso um projeto de lei que proíbe a candidatura de pessoas condenadas em primeira instância, ou com denúncias recebidas por um tribunal, por crimes de racismo, homicídio, estupro, tráfico de drogas, corrupção e desvio de verbas públicas. Você votaria em alguém com esse perfil? Tem gente e muita gente que vota.
Só no Congresso Nacional, onde se encontram os senadores e deputados que podem transformar a proposta em lei e acabar com a farra dos chamados fichas-sujas, existem 152 parlamentares com... a ficha suja. É mais de um quarto dos congressistas com pendência na Justiça, proporção impensável em qualquer outra categoria profissional. Os ministros do STF já encontraram motivos, inclusive, para transformar parte deles 46 deputados e sete senadores em réus de ações penais, o que tornaria essa bancada inelegível. Mas eles continuam lá, recebendo tranquilamente seus salários e benefícios, nomeando pessoas para cargos importantes, criando leis. O projeto que pode pôr um ponto final nessa situação constrangedora, é óbvio, não partiu dos parlamentares. Ele chegou ao Congresso através do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, uma organização não governamental formada por diversas entidades da sociedade civil e que conseguiu reunir 1,3 milhão de assinaturas. Um projeto como esse, que contraria os interesses de grande parte dos deputados e senadores, costuma passar anos vagando entre gavetas e escaninhos sem jamais ser votado. Há sete propostas semelhantes que estão vegetando desde 1993. Este, porém, não deve seguir o mesmo caminho, o que também não é necessariamente uma boa notícia.
Como se trata de um projeto popular, com dezenas de milhares de assinaturas, de muito apelo e às vésperas de eleições, os parlamentares não podem simplesmente arquivá-lo sem correr o risco de forte desgaste em um ano eleitoral. Por isso, já há acordo entre os partidos para uma rápida tramitação. A proposta passará apenas pela Comissão de Constituição e Justiça e, de lá, seguirá para votação no plenário, um atalho que permitirá grande agilidade. Aprovada, irá para o Senado. A parte bem-intencionada, porém, termina aí. Há também consenso em outro grupo de parlamentares de que o texto do projeto precisa ser aprimorado. E aprimorar, em outras palavras, significa tornar a proposta menos radical. Pela mudança combinada, só quem tiver condenação a partir de segunda instância, quando a decisão é tomada por um colegiado, será impedido de concorrer. A conhecida celeridade da Justiça se encarregaria de manter as coisas como estão. Bom para os de sempre.
"Essa iniciativa do movimento é rea-cionária, conservadora e filosoficamente violenta. Fui denunciado injustamente como ficha-suja. Vou combater essa proposta independentemente de haver denúncia contra mim no STF", bradou o deputado José Genoíno. Para quem não se lembra, Genoíno era presidente do PT na época do mensalão e foi ele que assinou todos os contratos de empréstimos fajutos com os bancos Rural e BMG para conferir a fantasia de legalidade ao maior esquema de corrupção e suborno de parlamentares já descoberto na política brasileira. "Parece quase impossível imaginar que um Congresso com um quarto de seus membros respondendo a processos aprove um projeto que tem como objetivo depurar a política", diz o cientista político Rubens Figueiredo. E acrescenta: "A sociedade sempre espera que os políticos aprovem mudanças que acabem com suas vantagens, o que é contra sua própria sobrevivência. Isso só seria possível se houvesse no Congresso um grupo expressivo com grande interesse público e um desprendimento privado excepcional". Esse desprendimento, por certo, até existe, mas infelizmente é comum a uma admirável e insignificante minoria.