Panorama
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Fotos Cesar
Duarte/Acervo Instituto Pereira Passos e divulgação
Prefeitura![]() |
| MAR À VISTA O porto do Rio hoje e, à direita, reurbanizado e livre do viaduto que esconde a baía |
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Há duas maneiras de identificar um momento histórico. Ou estar diante dele, ou reconhecê-lo analisando fatos passados. Prevê-lo é possível, mas o duro é que ele precisa acontecer. É nessa situação que se encontra a cidade do Rio de Janeiro. Prenuncia-se para aquele trecho da costa brasileira, que reúne o mais impactante conjunto de paisagens em zona metropolitana do mundo, uma virada em sua trajetória decadente. As chances de que isso realmente ocorra aumentaram muito com a escolha do Rio para ser a sede da Olimpíada de 2016. Um evento como esse é como reformar a casa para uma grande festa: um estímulo para aumentar a sala, comprar novos móveis, mudar a iluminação. No caso do Rio de Janeiro, essa arrumação já estava sendo arquitetada, mas ganhou um impulso extra. São várias obras, mas o destaque é a revitalização da região portuária, localizada no centro da cidade. É um lugar que já foi próspero, foi moderno e onde o Rio começou a surgir como cidade. Mas, a exemplo de várias zonas portuárias do mundo, degradou-se, entre as décadas de 60 e 70. A ideia de recuperar o local é antiga, mas agora há razões para acreditar que a coisa vai andar.
Na história, os grandes marcos surgem quando vários fatores confluem para um mesmo instante. No caso do Rio, os preparativos para receber a Olimpíada chegam quando a cidade está sob nova administração. Mais: o prefeito, o governador e o presidente da República têm trabalhado em sintonia, o que facilita tudo. Inclusive a fluidez dos recursos, estimados em 23,2 bilhões de reais, a ser investidos em obras de trânsito, aeroportos, urbanismo e meio ambiente. O caso também inclui uma lição política rara. O projeto original aprimorado agora foi desenhado na gestão do antecessor do prefeito Eduardo Paes, Cesar Maia. Quem o desenhou foi o então secretário de Urbanismo, Alfredo Sirkis, do núcleo político mais próximo de Fernando Gabeira, adversário de Paes nas últimas eleições. Levá-lo adiante é prova de maturidade.
Michael Nicholson/Corbis/Latinstock![]() |
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EXEMPLO CATALÃO Port Vell, em Barcelona: herança dos jogos de 1992 |
A prioridade à
zona portuária é baseada na certeza de que resgatar os nacos apodrecidos
de suas áreas centrais tem um efeito multiplicador. Em todos os lugares
onde isso foi feito, o centro passou a ser a pedra no lago ao redor da qual se
propagaram as ondas de prosperidade. A inspiração vem de Barcelona
e Buenos Aires. Na capital da Catalunha, a região portuária, totalmente
degradada até a Olimpíada de 1992, tornou-se um dos cartões-postais
da cidade. Ali surgiu um complexo, o Port Vell (Porto Velho), onde se misturam
atividades ligadas a negócios, cultura, esportes e entretenimento. Buenos
Aires foi bem-sucedida na recuperação do Puerto Madero, nos anos
90. Surgiu um complexo turístico e gastronômico, com mais de 100
bares e restaurantes. Processos semelhantes ocorreram em Roterdã, na Holanda,
e Boston, nos Estados Unidos.
Além do exemplo das diversas experiências internacionais, há razões econômicas a justificar a prioridade que se está dando à recuperação da região do porto do Rio. Nenhuma cidade pode se dar ao luxo de ter abandonada ou semiutilizada, servindo apenas ao comércio entre 9 da manhã e 6 da tarde uma região completamente dotada de infraestrutura. É desperdício. O projeto é dar à região tudo o que uma cidade moderna deve oferecer num mesmo espaço: comércio, residências, turismo e atividades culturais. Prédios comerciais e residenciais incluindo habitações de interesse social serão erguidos ao lado das futuras atrações, como uma pinacoteca, um museu e um aquário. O prefeito Eduardo Paes garante que já tem em caixa os recursos para as reformas, orçadas em 374 milhões de reais, em sua primeira fase. Se conseguir mais verbas, vai botar abaixo o viaduto levantado ali no governo Juscelino Kubitschek e deixar à mostra a beleza da Baía de Guanabara.
A iniciativa de desanuviar a paisagem é semelhante à de cidades que adotaram metas para a melhoria da qualidade de vida de seus moradores a médio e longo prazo. Os australianos aproveitaram os Jogos de Sydney (2000) para recuperar uma das áreas mais degradadas da cidade, a Homebush Bay, onde ficaram concentradas as instalações olímpicas. O que era uma poluída região industrial se transformou num imenso complexo de parques esportivos e recreativos. Com medidas ambientalmente corretas redução de gases do efeito estufa, reciclagem de resíduos de construção, entre outras , o evento entrou para a história como a Olimpíada da sustentabilidade. A China investiu 40 bilhões de dólares na preparação dos Jogos. A capital ganhou o maior terminal aeroportuário do mundo, 87 quilômetros de linhas de metrô e se livrou de 200 indústrias poluidoras, transferidas para outras regiões. Os chineses queriam e conseguiram deixar claro para o mundo que ali estava uma nova potência global.
AFP![]() |
| UMA NOVA PAISAGEM O estádio Ninho de Pássaro: Pequim mudou para sempre |
Nada disso quer dizer que, se o Rio não tivesse ganho a disputa
para sediar os Jogos de 2016, não poderia arrumar a casa. Nova York criou,
há dois anos, um programa de desenvolvimento sustentável para as
próximas duas décadas. Estima-se que a cidade tenha mais 1 milhão
de moradores até 2030 a população atual supera os
8 milhões de habitantes. Para amenizar o impacto desse afluxo, foram estabelecidas
mais de 100 metas, distribuídas em temas como uso do solo, recursos hídricos,
energia e mudanças climáticas. Estão previstas a ampliação
do metrô e a criação de novas áreas verdes. O objetivo
é que todo habitante more a menos de dez minutos de um parque. Seul também
tem um plano de humanizar as margens do Rio Han, o principal da cidade, com a
construção de quadras, ciclovias e instalações esportivas,
ampliando um projeto iniciado nos anos 80. Xangai planeja investimentos até
2020, principalmente no metrô, que passará de 225 para 800 quilômetros
de linhas.
Se os ventos continuarem soprando a favor do Rio, o prefeito Eduardo Paes terá mais facilidade de tirar do papel o planejamento preparado por uma equipe de jovens consultores recrutados na iniciativa privada para pensar a cidade. São profissionais saídos de empresas como McKinsey, Shell e Vale, encarregados de trazer para a administração pública os conceitos e as práticas das grandes empresas. O planejamento municipal, ainda não anunciado oficialmente, foi apresentado pelo prefeito a VEJA. Se for mesmo executado, atacará problemas em áreas essenciais, como saúde, educação, meio ambiente, transportes e ordem pública. Entre eles estão a redução da evasão escolar em 50% e da emissão de gases do efeito estufa em 8% até 2012. Da lista constam a construção de três corredores exclusivos para ônibus, nos moldes dos que existem em Curitiba. O plano parece realista, na maioria de suas metas. Nas palavras do prefeito carioca: "Aqui ninguém olha para o passado. Deixamos de ser capital federal, não nos deram nada? Que pena. A fusão foi ruim para o Rio, ruim para a Guanabara? Que pena. Mas não vamos mais perder tempo com essas discussões".