Negócios
Os limites da beleza
Divulgação
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Um
olhar realista
Monsieur Clarins: "Faltam-nos muitas respostas" |
São raríssimos
os executivos que, como o francês Christian Courtin-Clarins, 58 anos, falam
abertamente sobre as limitações da indústria da beleza
um tabu no ramo em que atua há mais de trinta anos. "Não há
milagres nesse negócio", resume ele, que há uma década
está no comando da Clarins, uma das líderes mundiais em cosméticos
e perfumes e a número 1 na venda de cremes na Europa. Ele sucedeu no posto
ao pai, o médico Jacques Courtin (1921-2007), que fundou a empresa há
55 anos. Christian se faz tratar por monsieur Clarins, incorporando ao
sobrenome a marca de seus cremes. "Isso ajuda nos negócios",
diz ele, que vive em Paris com a mulher e as três filhas. Em passagem pelo
Brasil, mercado que define como prioritário, ele falou à repórter
Renata Betti.
NEM TUDO É VERDADE
A indústria de
cosméticos viveu até quinze anos atrás à base de promessas
que não se ancoravam em provas científicas. Tudo o que eu e meus
concorrentes sabíamos sobre os cremes vinha, basicamente, da observação
de seus efeitos uma avaliação na qual cabia boa dose de subjetividade.
De lá para cá, a tecnologia foi, afinal, tornando possível
medir, com altíssima precisão, o impacto das substâncias sobre
rugas e outras imperfeições. Todo cosmético, antes de ser
comercializado, precisa agora ser submetido a uma série de testes em que
sua eficácia é objetivamente aferida. Um avanço inquestionável.
Isso não significa, no entanto, que 100% das promessas de um creme se concretizarão.
Porque, ainda que a inspeção seja mais rigorosa, é notório
no mercado que nem todos esses testes obedecem ao mesmo padrão, algo bastante
difícil de controlar. Os testes fajutos servem para dar respaldo às
falsas promessas de certos fabricantes.
NÃO HÁ MILAGRES
É
ilusão acreditar que alguém vá perder 3 centímetros
de cintura em um mês apenas aplicando um creme no corpo, coisa que alguns
prometem. Eles omitem que os efeitos só serão visíveis se
o uso de tal produto vier aliado à boa alimentação e à
ginástica, muita ginástica. Nos últimos tempos, hou-ve avanços
consideráveis na indústria da beleza, mas ela ainda sabe infinitamente
mais sobre a prevenção de problemas estéticos do que sobre
a correção deles. Os cremes podem ajudar a retardar a chegada dos
sinais de envelhecimento, mas pouco podem fazer para reverter os estragos já
deixados pelo tempo.
Rick Wilking/Reuters
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Quanto custa um batom?
Cenário pós-crise nos Estados Unidos: o preço passou a ser
um fator decisivo |
O IMPASSE DA INDÚSTRIA
Os grandes
fabricantes de cosméticos vivem hoje um impasse. O domínio das técnicas
da nanotecnologia tornou possível levar o princípio ativo dos cremes
até as camadas mais profundas da pele. Essa fronteira nunca tinha sido
ultrapassada antes pelos laboratórios cosméticos. Isso é
formidável, mas traz um problema novo que ainda não tem solução.
Ao atingirem as camadas profundas, as substâncias ativas entram na corrente
sanguínea. Até que aprendamos a controlar o processo de limitar
as quantidades que caem na corrente sanguínea, o uso da nanotecnologia
nos cosméticos continuará inviável. Essa é uma limitação
fundamental para aumentar a eficácia dos tratamentos estéticos sem
pôr em risco a saúde das pessoas.
MULHER ESQUELÉTICA,
NEM PENSAR
Não contrataria a Kate Moss nem qualquer outra modelo
do grupo das esquálidas para ser o rosto da minha marca. Elas parecem doentes,
quando o que procuro é justamente associar meus produtos à ideia
de saúde. Ainda que essas moças estejam à beira da perfeição
estética, elas submetem-se a constantes intervenções que,
quase sempre, fazem delas meras caricaturas de si mesmas. Para mim, isso funciona
como antipropaganda da indústria da beleza.
OS HOMENS VÃO
ÀS COMPRAS
Só recentemente eles começaram a ter algum
peso em nosso faturamento. As vendas de cremes para homens já representam
7% do total número que triplicou na última década
e não para de crescer. É curioso que, embora já usem cosméticos
de todo tipo, os homens ainda tenham vergonha de assumir isso com naturalidade,
o que fica claro nas pesquisas. Demora um pouco até eles aceitarem falar
sobre suas rotinas estéticas e, mesmo assim, é preciso garantir-lhes
absoluta confidencialidade e anonimato. Lentamente, essa situação
tende a mudar. Em Paris, muitos executivos usam base sob os olhos para esconder
as olheiras, e alguns falam abertamente sobre isso.
PERFUME ENJOATIVO
VENDE BEM
Não é fácil tornar-se um nome de peso no
mercado de perfumes. Entre todos os consumidores, o universo da beleza tem os
clientes mais infiéis. No mundo inteiro é a mesma coisa. Quando
surge uma fragrância nova, 70% das pessoas decidem abandonar sua marca tradicional
e experimentar a novidade. Depois de inúmeros erros e tropeços,
compreen-di que o melhor caminho para a fidelização dos clientes
não é criar uma essência que a maioria considere boa ou agradável.
É verdade que esses são os perfumes que vendem muito bem de saída,
mas figuram também entre os que são mais rapidamente preteridos.
Das dezenas de fragrâncias que produzimos, as que realmente dão bom
retorno financeiro são aquelas de essência marcante, doce, enjoativa
mesmo. Elas são odiadas por muita gente, mas as pessoas que se sentem atraídas
jamais trocarão de perfume. Só isso justifica o investimento. As
margens de lucro são altíssimas. Com apenas 5% de participação
nesse mercado, nosso faturamento anual com perfumes chega a 1,7 bilhão
de dólares.
NA MIRA, OS EMERGENTES
Em nenhum outro
canto do mundo a indústria da beleza cresce tanto quanto nos países
emergentes, fenômeno que acompanha o crescimento da própria classe
média de tais lugares. Só na China, o faturamento da Clarins dobrou
no ano passado, ao passo que na Europa ele ficou estagnado. Ávidas por
cremes e cosméticos, as chinesas dizem, em pesquisas, que estão
dispostas a pagar "qualquer coisa" por um produto que torne sua pele
mais alva um sinal de status entre elas, que associam o bronzeado ao trabalho
no campo. Curiosamente, um tom mais escuro é tolerado, e até desejável,
mas apenas em uma das mãos. Sugere que aquela pessoa joga golfe, o esporte
dos mais ricos. Investimos pesadamente para nos adaptar a essas e outras particularidades
na China, do mesmo modo que na Índia ou no Brasil. Os brasileiros formam
o terceiro maior mercado de cosméticos do planeta. Só nas classes
A e B, são 20 milhões de pessoas quase toda a população
da Austrália. Por isso o Brasil é um mercado prioritário.
RESCALDO
DA CRISE
A crise encolheu o mercado de beleza em 10%. Nos Estados Unidos,
o baque foi ainda maior. Até meados de 2008, o mercado americano representava
15% dos nossos negócios. Ele responde hoje por apenas 10%. Lá, fomos
prejudicados em duas frentes. Primeiro, as grandes lojas de departamentos cortaram
algo como um terço de seus funcionários e, com isso, reduziram drasticamente
o número de atendentes de plantão, que são fundamentais para
vender esse tipo de produto. Foi fatal para nós. De outro lado, os americanos
se tornaram mais seletivos e racionais ao comprar. Até na hora de escolherem
um batom, o preço passou a ser um fator decisivo. Para sobreviver nesse
novo cenário, será preciso inovar ainda mais na busca de soluções
para os problemas de beleza que tanto angustiam as pessoas no mundo moderno. |