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Home  »  Revistas  »  Edição 2133 / 7 de outubro de 2009


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Livros

Jornada sem descanso

A Volta para Casa, novo romance do alemão Bernhard Schlink,
revisita o legado do nazismo a partir do drama familiar de um
homem que busca descobrir quem foi seu pai


Moacyr Scliar

Gaetan Bally/ Corbis/ Latinstock
CULPA HOMÉRICA
Bernhard Schlink: referências à Odisseia
e remorso nacional infindável

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O escritor alemão Bernhard Sch-link atribui sua paixão pela literatura ao estímulo que lhe foi dado, na juventude, por um professor que introduziu seus alunos na obra de Dostoievski, Tolstoi, Dickens. Mais tarde, no entanto, Schlink descobriu que esse amável mestre fora um membro da Gestapo, a polícia política nazista – e que ele participara, inclusive, de execuções. Nasceu daí uma dolorosa perplexidade, partilhada pela geração pós-guerra, e que, no caso de Schlink (nascido em 1944), foi fundamental para sua obra literária. Juiz e professor de direito da Universidade Humboldt, Schlink estreou na ficção com novelas policiais. Ganhou fama internacional, em 1995, com O Leitor, lançado recentemente no Brasil pela editora Record, romance que deu origem ao filme de mesmo título e cujo tema é o caso amoroso de um jovem com uma mulher mais velha – que oculta um passado nazista. A Volta para Casa (tradução de Claudia Beck Abeling Szabo; Record; 368 páginas; 39,90 reais) revisita a mesma insanável culpa alemã.

Narrado na primeira pessoa, o livro conta a trajetória do jovem Peter Debauer. Órfão de pai, criado por uma mãe com a qual tem uma relação distante, o menino passa férias na Suíça com os avós paternos, editores de romances populares. Ao usar o verso de provas tipográficas como rascunho, descobre o texto de um romance que narra o regresso para casa de um soldado alemão, Karl, sobrevivente do front russo. Peter fica obcecado pela história, de autoria desconhecida. Já adulto, começa a investigar quem é o escritor. Ao mesmo tempo quer descobrir quem é seu pai, supostamente morto, uma dúvida que a mãe não esclarece. Quando está para se casar, Peter encontra problemas com a documentação, que o obrigam a investigar, agora sistematicamente, sua filiação. No final, as coisas se encaixam como as peças de um quebra-cabeça.

O romance, porém, não é apenas uma história de investigação centrada no velho tema do "manuscrito misterioso". Como pano de fundo, temos a realidade de nosso tempo (um capítulo, por exemplo, é dedicado à queda do Muro de Berlim). São constantes, também, as referências à Odisseia, de Homero, que fala da aventureira jornada do guerreiro grego Ulisses. Questão crucial: trata-se da história de uma volta para casa? Não, conclui o protagonista. Ulisses volta, mas apenas para partir de novo. Não há descanso para o herói grego – e nem para a consciência histórica alemã.

Fato comum na ficção de Schlink, o romance tem muito de autobiográfico. Como o personagem, ele tem formação jurídica. Seus avós também viviam na Suíça e eram editores de literatura barata. Sem grandes inovações estilísticas, e às vezes um tanto pesado em seus momentos mais digressivos, A Volta para Casa, no entanto, mantém o leitor amarrado ao drama pessoal de Peter – que é, em certa medida, o drama de seu país. O legado pós-guerra da Alemanha, que já teve em Günter Grass um intérprete famoso, continua dando seus frutos culpados.

Liane Neves

Resenhista premiado
Colaborador assíduo de VEJA – e autor da resenha desta página –, o escritor gaúcho Moacyr Scliar (foto abaixo), 72 anos, foi o vencedor do Jabuti, um dos mais prestigiosos prêmios literários do Brasil, na categoria romance. A distinção – anunciada na semana passada – foi concedida ao romance Manual da Paixão Solitária (Companhia das Letras), uma ficção sobre Onan, personagem do Gênesis.

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