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• Cinema: Bastardos Inglórios, de Quentin TarantinoIdeiasUm gene capitalista?No livro Um Adeus às Esmolas, o escocês Gregory Clark
diz
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Hulton Archive/Getty Images![]() |
| OS PIONEIROS Capitalistas na Bolsa de Valores de Londres, em 1891. Para o autor, características demográficas, combinadas a condições institucionais e determinações genéticas, transformaram a Inglaterra no berço do capitalismo |
Uma das questões que mais
intrigam os economistas é por que alguns povos enriquecem, enquanto outros
parecem fadados a ficar para trás. Várias teses já surgiram
ao longo dos últimos séculos, e certamente a mais recente não
pode ser classificada de politicamente correta. Em seu livro Um Adeus às
Esmolas Uma Breve História Econômica do Mundo (a obra
não tem publicação prevista no Brasil, mas pode ser lida
em português na tradução feita pela editora Bizâncio,
de Lisboa), o escocês Gregory Clark, professor da Universidade da Califórnia,
atribui o sucesso ou o fracasso econômico às características
individuais dos cidadãos de cada nação. De acordo com ele,
de nada adianta um país ter sistema econômico, leis e instituições
propícios ao crescimento se a maior parte da população não
for composta de pessoas naturalmente dotadas das qualidades necessárias
para ascender em uma economia de mercado. A saber, a paciência, a disposição
para o trabalho duro, a inventividade, a habilidade com números, a facilidade
de aprendizado e a aversão à violência.
Para entender por que as qualidades capitalistas são mais disseminadas entre certos povos, Clark cruzou dados demográficos e econômicos da Inglaterra entre os anos 1200 e 1800. A opção por estudar os ingleses é evidente: são de sua forja a primeira e segunda revoluções industriais os tremendos saltos tecnológicos que, entre os séculos XVIII e XIX, possibilitaram a expansão do capitalismo. Ao analisar o padrão de crescimento populacional nos seis séculos anteriores à segunda Revolução Industrial, Clark concluiu que os ingleses com o maior número de filhos sobreviventes ou seja, que chegaram à idade adulta não eram os nobres nem os camponeses, mas os integrantes das camadas médias da sociedade. Isto é, aqueles que se reproduziam com mais eficiência eram os mais produtivos e bem-sucedidos economicamente. Com o tempo, seus filhos, netos e bisnetos passaram a formar a maior parcela da população, fertilizando, assim, todas as classes sociais com seu espírito empreendedor.
Paulo Vitale![]() |
| RAÍZES ANTIGAS Rua comercial em Xangai: a propensão chinesa para os negócios não sucumbiu ao comunismo |
Clark nomeou sua teoria de "sobrevivência
dos ricos". Sua descoberta mais surpreendente é que, na Inglaterra
pré-industrial, havia uma intensa mobilidade para baixo das camadas médias
da população. Eram os filhos de famílias abastadas que, por
não contarem com um bom quinhão de herança, dado a prole
paterna ser imensa, desciam alguns degraus na pirâmide social. Eles, porém,
levavam consigo conhecimento e iniciativa. Esse fato, aliado à reduzida
fecundidade das famílias pobres e a eventuais pragas que as ceifavam, fez
com que as camadas mais baixas da sociedade fossem sendo ocupadas por descendentes
de gente não só mais rica, como mais bem preparada.
Um Adeus às Esmolas apresenta argumentação consistente, amparada em dados estatísticos, para sustentar a tese de que o capitalismo acabou impregnando os ingleses de alto a baixo, graças a essa circulação de pessoas e aos valores repertórios que elas portavam. Mas Clark é bem menos convincente ao debruçar-se sobre os mecanismos que permitiram a transmissão de determinadas características de geração para geração. Ele sugere que o sucesso do capitalismo inglês e também o de outras latitudes deve-se a fatores culturais e genéticos. Como está longe de ser um geneticista, a sua teoria de que houve, na Inglaterra, uma seleção natural de indivíduos mais bem adaptados à economia de mercado circunscreve-se mais no terreno da crença do que no científico. "Não tenho dúvidas de que existe um gene capitalista", disse Gregory Clark a VEJA (leia a entrevista abaixo). "No futuro, a ciência será capaz de selecionar indivíduos com base nele."
Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Latinstock![]() |
| MENOS
PRODUTIVO Operário indiano do setor têxtil em meados do século passado |
À parte
as derrapadas na biologia, o mérito de Um Adeus às Esmolas está em não se contentar com as explicações habituais
para o sucesso das nações. A primeira delas é a marxista,
pela qual a acumulação de capital é, principalmente, fruto
da espoliação colonial e da exploração do homem pelo
homem. A segunda, de origem determinista, ganhou divulgação por
meio do americano Jared Diamond, autor do livro Armas, Germes e Aço, de 1997. De acordo com ele, fatores como geografia e clima permitem ou impedem
o desenvolvimento de tecnologias essenciais para o avanço das sociedades.
A terceira, de cunho religioso, baseada no pensamento do alemão Max Weber
(1864-1920), enfatiza que a ética protestante, de valorização
do trabalho e da riqueza, está na base do êxito de países
como Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha. Por fim, a explicação
mais aceita na atualidade é a institucional, inaugurada pelo pai do liberalismo
econômico, o escocês Adam Smith (1723-1790). De acordo com ela, são
necessários incentivos para que uma economia se desenvolva. Isso inclui
impostos baixos, segurança jurídica, direito de propriedade assegurado
e liberdade para os mercados funcionarem. Ou seja, um país precisa ter
instituições democráticas azeitadas para progredir.
Clark está de acordo com o receituário de Adam Smith, mas não aceita a ideia de que, por si só, seja suficiente para que os países floresçam. Segundo o autor de Um Adeus às Esmolas, já havia um bem pavimentado terreno institucional para o crescimento econômico em boa parte da Europa e também na China e no Japão muito antes do século XIX. Na Inglaterra, ele existia antes mesmo da Revolução Gloriosa de 1688, que estabeleceu a monarquia constitucional. Mas por que foi na Albion vitoriana que o capitalismo moderno nasceu e moldou o mundo? Porque apenas na Inglaterra a taxa de fecundidade dos estratos burgueses era nitidamente maior que a dos outros níveis sociais. Os ingleses economicamente bem-sucedidos tinham o dobro de filhos em comparação com os pobres e os nobres. Para Clark, o que ocorreu na Inglaterra foi uma aceleração de um processo seletivo que começou 9 000 anos antes, com a revolução neolítica, quando sociedades primitivas descobriram a agricultura, deixaram de ser nômades e, desse modo, frutificaram.
O gene capitalista descrito pelo autor teria seus inícios justamente nesse período longínquo, quando surgiu o primeiro germe (não confundir com os de Jared Diamond) de organização econômica lastreada na acumulação de bens. O capitalismo moderno só se difundiu no século XIX, contudo, porque, a partir das características demográficas inglesas daquele momento, a humanidade pôde livrar-se do jugo das leis malthusianas. Ou seja, os avanços tecnológicos da Revolução Industrial produziram excedentes suficientes para dar conta da demanda criada por um aumento exponencial da população e ainda proporcionar uma melhoria extraordinária das condições de vida. Naquele instante, diz Clark, a Inglaterra contava com trabalhadores que tinham um dom "inato" para alcançar altíssima produtividade. Para provar esse ponto, Clark comparou a qualidade dos operários em indústrias têxteis na Inglaterra e na Índia no início do século XX. Conclusão: mesmo trabalhando em fábricas semelhantes a Índia era colônia da Inglaterra , os operários ingleses eram muito mais produtivos que os indianos. Para o autor, é a escassez de indivíduos adaptados cultural e geneticamente à economia de mercado que explica a pobreza de regiões como África e América do Sul. Interessante. Só falta, agora, combinar com a genética.