Maílson da Nóbrega
Um fascínio de alto risco
"A
substituição de importações teve seu tempo. É
no
mínimo
impróprio revivê-la agora, quando os serviços
respondem por
65% do nosso PIB e a globalização é uma realidade"
A abertura da economia brasileira, conduzida entre 1988 e 1994, foi uma resposta
ao esgotamento, às distorções e aos problemas herdados da
estratégia de substituição de importações.
Por isso, surpreende que o modelo tenha ressuscitado com o marco regulatório
do pré-sal, cujo projeto de lei fala em "conteúdo local mínimo
e outros critérios relacionados ao desenvolvimento da indústria
nacional".
A ideia é produzir aqui o máximo possível
dos equipamentos, à moda dos planos da era Geisel, criados após
a crise do petróleo de 1973-74. As empresas que recebessem incentivos fiscais
não podiam importar equipamentos com similar nacional. Resultado: aumento
de custos e de prazos de entrega.
Ainda que de forma ineficiente, o Brasil
se industrializou via substituição de importações.
O impulso inicial foi a dificuldade de importar na I Guerra e na Grande Depressão
dos anos 30. Na década de 50, substituir importações virou
objetivo nacional. No governo Geisel, tornou-se obsessão. No período
Figueiredo, atingiu o auge com a insensata reserva de mercado para a informática.
A industrialização por substituição de importações
foi bem-sucedida na Europa e nos Estados Unidos, no século XIX. A estratégia
era alcançar rapidamente, sob orientação do estado, a posição
dos ingleses, cuja Revolução Industrial havia sido gestada em pelo
menos seis séculos de evolução institucional.
Casos
de insucesso foram os de países incapazes de identificar e eliminar defeitos
do modelo. Ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, a estratégia
era prolongada de maneira insustentável, sob influência de grupos
e deficiências do governo.
No Brasil, os problemas maiores parecem
ter sido a busca da autossuficiência a qualquer custo e o descaso pela educação.
Além disso, os vencedores eram escolhidos pela burocracia, que podia ser
capturada pelos beneficiários da política. Estudos recentes provam
que a substituição de importações foi claramente concentradora
de renda.
A Coreia do Sul é uma história diferente. Como
o Brasil, adotou o modelo nos anos 50, mas soube mudá-lo. Expôs suas
empresas à competição internacional, o que criou incentivos
à inovação. Seu êxito não decorreu de políticas
industriais, como muitos pensam, mas essencialmente da revolução
na educação e do legado do domínio japonês (1910-1945),
traduzido na formação de recursos humanos, na pesquisa e nas técnicas
organizacionais.
Aqui, o apoio à substituição de importações
se enraizou por três razões: (1) a cultura favorável à
intervenção estatal; (2) a influência intelectual da Cepal,
cujos estudos diziam que a América Latina perdia com o comércio
exterior (a tese se provou errada); e (3) o suposto êxito econômico
da União Soviética, que viria a entronizar o planejamento estatal
nos países em desenvolvimento.
A teoria então mais aceita
a dos economistas Roy Harrod (1900-1978) e Evsey Domar (1914-1997)
atribuía papel central ao investimento. O desenvolvimento dependeria da
quantidade de mão de obra e de capital. Mais investimento conduziria à
acumulação de capital e daí ao crescimento. Hoje, sabe-se
que a fonte primária do desenvolvimento é o conhecimento, secundado
por instituições.
A experiência recente mostrou que
o Brasil não precisa do dirigismo daquele modelo para produzir vencedores.
Economia aberta, sistema financeiro sólido e gestão macroeconômica
responsável constituem poderosos mecanismos para alinhar incentivos em
prol da inovação e da assunção de riscos pelos empreendedores.
Na
vigência do modelo, as empresas se acomodavam ao bem-bom do protecionismo.
As ineficientes podiam sobreviver. Agora, com a abertura, a privatização,
a estabilidade e a maior concorrência, a situação mudou. Surgiram
fortes multinacionais brasileiras. Uma delas se tornou a maior empresa global
de processamento de carnes.
O modelo teve seu tempo. É no mínimo
impróprio revivê-lo agora, quando os serviços respondem por
65% do nosso PIB e a globalização é uma realidade inescapável.
Um governo que se vangloria de reduzir desigualdades de renda resolveu
desenterrar sua antítese. A substituição de importações
se esgotou, mas continua a fascinar.
Maílson da Nóbrega é
economista |