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Home  »  Revistas  »  Edição 2133 / 7 de outubro de 2009


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Cinema

Esperança, ainda que pequena

Na animação 9 – A Salvação, cabe a um minúsculo boneco
de juta encontrar uma saída para um mundo pós-apocalíptico


Isabela Boscov

Focus Features

JUNTOS, CONTRA TUDO
Os bonecos 6, 5, 8 e 9 (da esq. para a dir.): as influências marcantes de Tim Burton
e Timur Bekmambetov reunidas no trabalho de um estreante talentoso


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Um pequeno boneco feito de saco de juta, com alinhavos toscos que contrastam com suas elaboradas mãos metálicas, acorda para a vida em uma casa que é uma ruína, onde está completamente só, e nem sequer pode emitir uma exclamação, já que o aparato que lhe daria voz não chegou a ser instalado. A semelhança entre a apresentação de 9 – A Salvação (9, Estados Unidos, 2009) e a de Edward Mãos de Tesoura não é coincidência. Tim Burton, que dirigiu aquela fábula já clássica sobre o garoto que ficou incompleto em razão da morte de seu inventor, é produtor desta animação que estreia na próxima sexta-feira no país. Mas, à sua sensibilidade sempre tão alerta para a tragédia da solidão e da diferença, junta-se aqui uma outra, igualmente singular, porém muito diversa – a do russo Timur Bekmambetov, diretor de Guardiões da Noite, Guardiões do Dia e O Procurado. As tragédias a que Bekmambetov é suscetível são de outra ordem: o totalitarismo e sua engrenagem devoradora, o medo, a violência que é a destruição do espírito e do mundo físico. Assim, ainda que o roteirista e diretor do desenho seja o estreante Shane Acker, a sombra que os produtores lançam sobre seu trabalho é longa: 9 – A Salvação trata não apenas de uma criatura mal compreendida que busca encontrar um lugar e uma missão para si – uma constante no cinema de Burton –, como da dificuldade de achar um lugar quando o mundo não é meramente hostil, mas brutalmente estéril, agressivo e distorcido, como gosta Bekmambetov.

O boneco de número 9 descobrirá que é o último de uma série. Alguns dos que despertaram antes dele ainda estão vivos. Como 2, um gênio das ferramentas, que dá a 9 a fala e mostra a ele o planeta devastado em que, tão minúsculos e frágeis, eles têm de sobreviver – para logo ser arrebatado por um estranho híbrido de máquina e animal. O de número 1, que se autodesignou sacerdote e governador do pequeno grupo, é velho e acovardado; 8, um brutamontes, serve de guarda-costas; 6 está enlouquecido e desenha o mesmo desenho sem parar; e 5 é tímido, doce e submisso. Nenhum deles corresponde a um modelo em que 9 gostaria de se espelhar. E, ainda que sua juventude e impetuosidade venham a causar distúrbios terríveis, afinal é exatamente disso que esse bando exausto precisa, de alguma intrepidez e de uma nova perspectiva.

É isso, também, que Shane Acker tem a oferecer: desenvolvido a partir de um curta-metragem também intitulado 9 e indicado ao Oscar em 2006, seu filme é tão idiossincrático quanto os de seus mentores. Mas não repete as peculiaridades deles, nem as reúne alea-toriamente em uma mesma história. Usa-as, sim, como plataforma para um experimento que, ainda que irregular – em especial no seu terço final –, é inovador e revigorante, do visual maravilhosamente tátil nas suas inúmeras e surpreendentes texturas (juta, estopa e malha são uma aposta no mínimo original) à ambição de seduzir crianças com um enredo pós-apocalíptico. Essa é a parte do plano que ele não consegue executar a contento: seu mundo em escombros é crível e lúgubre o bastante para convencer qualquer adulto do fim dos tempos, e portanto um tantinho persuasivo demais para as emoções de quem está começando agora.


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