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Home  »  Revistas  »  Edição 2133 / 7 de outubro de 2009


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Livros

Crepúsculo em Itaparica

O herói de O Albatroz Azul, de João Ubaldo Ribeiro, enfrenta
a morte com serenidade – apesar de sua espiritualidade confusa


Jerônimo Teixeira

Tasso Marcelo/AE

JOÃO UBALDO RIBEIRO
Adágios rimados e barbeiros que falam "bacharelês"

Feitiçaria do bem

"Iá Cencinha repetia e não se cansaria de repetir que desprezava as abusões e crendices dos negros, muito menos quando desembocavam em feitiçaria e numa perigosa proximidade com – se benzessem todos! – o Maldito. Mas, mesmo fruto da ignorância de pagãos selvagens, as práticas dos negros e o que eles chamavam de trabalhos, quando empregados em favor de uma causa justa, mereciam apoio e amparo. (...) O que de mau trouxessem as negrices, os santos transformariam em bom"


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Homem obstinado, obediente às ordens do coronel que o apadrinhou na Polícia Militar de Sergipe, o sargento Getúlio Santos Bezerra carrega seu prisioneiro do sertão para Aracaju ciente de que possivelmente será morto na chegada. Esse era o herói de Sargento Getúlio, segundo livro de João Ubaldo Ribeiro, lançado em 1971. O mais recente romance do autor baiano, de 68 anos, traz novamente um protagonista que caminha, imperturbável, para a própria morte. Mas o velho Tertuliano de O Albatroz Azul (Nova Fronteira; 240 páginas; 39,90 reais) não é um jagunço truculento: herdeiro decaído de grandes proprietários de terra, é um homem de bem que, no dia do nascimento de um neto, descobre equívocos presságios de que sua hora se aproxima. Sargento Getúlio era um livro repleto de furiosa turbulência. O Albatroz Azul é quase sua imagem em negativo: um livro sereno e crepuscular.

A comparação obriga a dizer que Sargento Getúlio é um livro por todos os critérios superior – mais bem estruturado e mais criativo no uso do vocabulário regional. Mas O Albatroz Azul é ainda uma bela mostra do invejável domínio do escritor sobre seu meio de expressão. Cada personagem fala com uma linguagem única – do barbeiro pernóstico que se exprime num engraçado "bacharelês" à matriarca cuja sabedoria se resume a uma coleção de adágios rimados ("casa varrida e mulher penteada parecem bem e não custam nada"). A história se passa em alguma data indeterminada no início do século XX, na Ilha de Itaparica (terra natal do autor), na Bahia. Tertuliano é um personagem poderoso: voluntarioso, impositivo, mas ainda assim frágil, traumatizado por um episódio brutal da infância.

Seu pai, bígamo – constituíra família com duas irmãs –, teve de se casar com uma de suas mulheres para receber uma herança. Para não ser prejudicado na sucessão, o garoto Tertuliano foi instado a renegar a própria mãe e se declarar filho da outra. Recusou-se, em um gesto de dolorida dignidade. Sentia que sua vida fora de algum modo roubada naquele momento – e o neto homem que nasce logo no início do livro vem de algum modo redimir essa falta. A busca espiritual de Tertuliano resulta um tanto vaga e confusa, misturando concepções espíritas e filosofices populares. Mas o parágrafo final põe as coisas no lugar.

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