Lya Luft
Contraponto: deixar desabrochar
"Tive um filho, tenho um aluno, e agora? Agora é plantar
os pés
no chão, deixar a alma um pouco solta e, como diziam os
avisos
nos trilhos de trem de minha cidadezinha natal: parar, olhar, escutar"
Na coluna passada escrevi sobre educação e autoridade,
dois temas complicados nos nossos dias de bagunça generalizada. Hoje
falo sobre seu contraponto, o que me ensinou um velho mestre sábio sobre
educação: "Família e escola fazem muito, se não
estorvam. Deixem as crianças e os jovens desabrochar". Na primeira
vez em que escutei a frase fiquei um pouco chocada. Se já naquele tempo,
eu ainda universitária, questionávamos a frouxa autoridade em
casa e na escola, que deixava a meninada perdidona e sem limites, como entender
aquela afirmação de quem entendia mais do que a maioria de nós
sobre ensino, educação e o resto?
O tempo e a experiência foram mostrando um pouco do mistério:
é preciso juntar tudo isso, bater no liquidificador da experiência,
tentativa e erro, alegria e desespero de quem lida com esses assuntos na prática
e na teoria, e ver no que dá. Pois para lidar com gente não há
garantia nem receitas, por mais que sejam vendidas ou espalhadas gratuitamente
por aí em abundância: como conseguir parceiro, como segurar seu
homem, como enlouquecer sua amante, como ficar rico sem esforço, como
ter sucesso, como ser feliz em dez lições a preços módicos.
A questão é como dosar autoridade e liberdade, para
que crianças e jovens cresçam. Ou melhor: para que a gente também
continue crescendo, pois sou dos que acreditam que viver não é
deteriorar-se, mas se expandir. E quando o corpo parece encolher, murchar, envelhecer
é bom usar as palavras certas, pois às vezes os eufemismos
soam ofensivos a alma tem de continuar crescendo. Alma, psique, mente,
não importa o conceito científico, moral, espiritual, que lhe
queiram dar.
Mas volto ao desabrochar de crianças e adolescentes: se
alguém tem perto de si um desses belos, estimulantes, atordoantes exemplares
humanos, comece a observar: encante-se, assuste-se, trate de se descabelar e
maravilhar. E vai lentamente entender a frase do velho mestre, quando dizia
que família e escola não devem estorvar. É preciso olhar,
tentar entender um pouco, e respeitar. Amparando quando for preciso, botando
limites para que as capacidades, talentos e dificuldades do outro não
transbordem tornando-se prejudiciais; estimulando sem interferir gravemente,
e admirando-se de como, igual a uma planta ou pássaro, um peixe no mais
remoto fundo de oceano, a criança observa, pensa, e precisa se desenvolver.
O susto de quem tem a responsabilidade de cuidar (porque, repito interminavelmente,
quem ama cuida) não é pequeno.
Tive um filho, tenho um aluno, e agora? Agora é plantar
os pés no chão, deixar a alma um pouco solta e, como diziam os
avisos nos trilhos de trem de minha cidadezinha natal: parar, olhar, escutar.
Mais que isso, pensar.
Falar assim é fácil, escrever mais ainda, dirão.
É verdade. Mas se formos menos desligados e mais atentos, mais firmes
mas menos rígidos, mais amorosos e mais exigentes neste universo contraditório
que todos somos, e mais respeitosos, veremos milagres. E atenção:
dizendo "respeitosos" não digo "encolhidos, humildes,
suportando todas as más-criações e maluquices", mas
sendo ativamente tranquilos. Claro que para isso precisamos ser, se pais, razoavelmente
estruturados emocionalmente, pois se formos destrambelhados demais poderemos
perturbar as crianças. Professores, temos de ser bem pagos, com excelentes
escolas ou vamos mendigar a esmola de condições mínimas
para trabalhar.
Embora os personagens de minhas ficções sejam neuróticos
e sofridos, minhas crônicas nem sempre sejam otimistas, acredito que a
gente sempre pode repensar a vida e todas as coisas que nela causam tamanho
susto e tanto prazer, para sentir que afinal vale a pena. Educar e ensinar não
deveria ser razão de tanto conflito, com tão melancólicos
resultados como os que muitas vezes se veem por aí. Deveria ser motivo
de interesse, adrenalina boa, entusiasmo ainda que passando por muitos
fracassos e frustrações porque, afinal, somos todos apenas
humanos tentando entender o mundo de Deus e as humanas trapalhadas.
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