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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Uma bela cena
num filme ruim
Gabeira faz crer que quem sabe um dia
sejam derrotadas a safadeza
e a estultície
Severino José Cavalcanti Ferreira nasceu
em João Alfredo, Pernambuco, em 1930. No ano entre todos
memorável de 1964, elegeu-se prefeito de sua cidade natal.
Estava por cima. Abrigava-o a legenda da UDN, partido que apoiou
o golpe militar contra o governo Goulart. Fernando Paulo Nagle Gabeira
nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1941. Em 1964, era redator
do Jornal do Brasil e no dia 1º de abril tentou entrar
na fila da distribuição de armas ao povo que seria
promovida pelo almirante Cândido Aragão. Estava por
baixo. Não havia armas a distribuir, não havia resistência.
No ano de 1968, Severino Cavancanti cumpria
seu primeiro mandato como deputado estadual em Pernambuco. Agora
pertencia à Arena, o partido que dava sustentação
aos governos militares. Fernando Gabeira selou, nesse mesmo ano,
num encontro com um militante mais antigo, na Praça Antero
de Quental, no Leblon, seu ingresso num movimento clandestino de
combate ao regime. Era uma tarde bonita. Gabeira olhou em volta
e estranhou que tudo continuasse no mesmo lugar: as babás
que passeavam com as crianças na praça, os carrinhos
da Kibon que vendiam sorvete na Avenida Delfim Moreira.
Em 1969, Gabeira integrou o grupo que seqüestrou
o embaixador americano Charles Burke Elbrick. Em 1971, Severino
Cavalcanti foi eleito para o segundo dos sete mandatos de deputado
estadual que exerceria em Pernambuco. Em 1973, no exílio
no Chile, Gabeira sofreu nova derrota com o golpe que derrubou Salvador
Allende do poder. Em 1975, Severino Cavalcanti tornou-se o vice-líder
da bancada da Arena da Assembléia pernambucana. Gabeira agora
vivia na Europa. Na Suécia, exerceu a função
de condutor do metrô.
Em 1978, Severino Cavalcanti recebeu a medalha
da Soberana Ordem dos Cavaleiros do Estado de São Paulo e,
no ano seguinte, a Pernambucana do Mérito, classe ouro. Em
1979, Gabeira voltou ao Brasil, beneficiado pela anistia, e apresentou-se
na Praia de Ipanema com uma minúscula sunga de crochê.
A sunga era um manifesto político. Significava que a política
do corpo se acrescentara a seu ideário. Em 1980, Severino
Cavalcanti perpetrou sua primeira ação de repercussão
nacional ao denunciar o padre italiano Vito Miracapillo, que se
recusara a celebrar missa no dia 7 de setembro em protesto contra
o regime. A denúncia foi acolhida pelo ministro da Justiça,
Ibrahim Abi-Ackel, e o padre, expulso do Brasil.
Se a vida de cada pessoa pudesse ser traduzida
em rabiscos de eletrocardiograma, a de Gabeira configuraria uma
disparada de impulsos que desembestam em tropelia, enquanto a de
Severino Cavalcanti exibiria a linearidade da planície. Uma
é complexa, a outra simples. A primeira tem a marca da inquietação,
responsável tanto por explorações inovadoras
como por equívocos, a segunda se nutre da acomodação
fronteiriça e da cautela esperta. Esses dois homens tão
diferentes encontraram-se, em 1995, onde os diferentes devem mesmo
se encontrar: a Câmara dos Deputados. Por coincidência,
iniciam no mesmo ano uma carreira federal, Gabeira eleito pelo Partido
Verde do Rio de Janeiro, Severino pelo PFL de Pernambuco. Gabeira
se destacaria por causas novas como a do meio ambiente ou polêmicas
como a descriminação da maconha. Severino, pela defesa
do aumento de salário dos deputados e pelo direito de nomear
parentes para o serviço público.
Na terça-feira passada, quem assistiu
à cena do deputado Fernando Gabeira, o dedo em riste, investindo
contra o colega Severino Cavancanti, durante sessão plenária
da Câmara, viu uma cena bela, de recuperar a crença
no Parlamento. Como no começo desta história, Severino
estava por cima, encarapitado na presidência da mesa, e Gabeira
por baixo, um cavaleiro solitário no centro do redemoinho
que cerca o microfone dos apartes. Naquela manhã, a Folha
de S.Paulo trouxera uma entrevista em que Severino Cavalcanti
negava a existência do mensalão e defendia que as punições
no Congresso se limitassem a "censuras", sem chegar ao rigor das
cassações de mandatos.
"Vossa Excelência está se comportando
de maneira indigna", começou Gabeira. Ele falava com a fúria
dos justos. Lembrou que até defender empresa acusada de explorar
trabalho escravo Severino já fez é o caso de
uma destilaria pernambucana para a qual fez gestões, meses
atrás. "Vossa Excelência está em contradição
com o Brasil", acrescentou, fazendo-se porta-voz de todos quantos
querem puxar o Brasil para a frente, na face de alguém cujo
propósito notório é empurrá-lo para
trás. É ironia da grossa que Gabeira, ícone
da esquerda no passado e hoje paladino das causas de vanguarda,
atacasse um estado de coisas semeado por obra e graça do
atual governo enquanto a defesa ficava por conta de Severino. "A
sua presença na presidência da Câmara é
um desastre para o Brasil e para a imagem do país", disse
ainda Gabeira, e encerrou prometendo iniciar um movimento para derrubá-lo.
Ficou no ar a esperança de que um dia, quem sabe, contra
todas as evidências oferecidas pela hora presente, possam
ser derrotadas a mediocridade, a safadeza e a estultície.
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