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Música
Tchutchuca asiática
O funk carioca, quem diria, ganhou a adesão da filha de um terrorista
do Sri Lanka  Sérgio
Martins
Divulgação
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a tigresa que não é cachorra: "É impossível cantar e rebolar ao mesmo tempo com
aquelas calças apertadas" |
A cantora M.I.A. é um bom exemplo de como funciona a globalização.
Cidadã inglesa, ela passou parte da infância no Sri Lanka, terra
natal de seus pais. De volta à Inglaterra, tornou-se a mais recente sensação
do pop internacional, com uma mistura de reggae eletrônico, música
oriental e é isto mesmo funk carioca. O detalhe é
que a moça nunca freqüentou um baile de favela no Rio de Janeiro nem,
muito menos, viu de perto uma festa de reggae na Jamaica. "Aprendi a gostar desses
gêneros de tanto ouvi-los nas casas noturnas de Londres", diz. Agora o funk
carioca de M.I.A. vai passar pelo crivo do público que melhor o conhece.
Arular, o CD de estréia da cantora, chega nesta semana às
lojas do país, e nos dias 22 e 25 de outubro ela e seu namorado, o DJ Diplo,
se apresentam no Rio e em São Paulo como parte do elenco do Tim Festival.
Maya Arulpragasam, de 29 anos, tem
uma biografia de causar arrepios até em funkeiros acostumados à
violência dos morros cariocas. Seu pai pertence aos Tigres da Libertação,
grupo terrorista que luta pela independência da etnia tâmil do governo
do Sri Lanka. No mês passado, os Tigres executaram o ministro do Interior
do país, o que pode gerar uma nova guerra civil. "Não sei do paradeiro
do meu pai e tenho dúvidas sobre quem são os verdadeiros terroristas",
diz M.I.A., que fugiu do Sri Lanka em meados dos anos 80, mas até hoje
guarda seqüelas do caos que impera no país. "Tenho sonhos em que minha
casa é invadida por militares e eles exterminam toda a minha família",
diz a moça. Também, com um pai desses...
O nome artístico M.I.A., aliás, é a abreviatura em inglês
do termo missing in action, ou "desaparecido em combate" e Arular,
o título do CD, é o codinome de guerrilha de seu pai. Maya virou
M.I.A. quando, depois de se formar em artes por uma universidade londrina, decidiu
arriscar carreira na música eletrônica, gênero em que as siglas
andam em alta. Também a opção pelo funk carioca, ainda que
deplorável, tem sua razão de ser. Nos últimos dois anos,
esse gênero foi exportado para a Europa por meio de comerciais de TV e bailes
embalados a "pancadão" termo pelo qual os DJs chamam aquela insuportável
batida do funk. Foi num "pancadão" desses que a cantora conheceu o americano
Wes Pentz, o DJ Diplo, com quem iniciou um relacionamento profissional e esporadicamente
amoroso. "Hoje a gente namora apenas quando viaja junto em turnê." O rapaz
só tem de tomar cuidado com o pai da moça. Aparentemente, M.I.A.
não se importa de interpretar um gênero musical identificado com
drogas, sexo promíscuo e violência. "Eu também falo de sexo,
mas procuro fazer letras mais politizadas", diz. Para quem está acostumado
aos bailes funk do Rio, a cantora deve desapontar no figurino. "Não uso
aquelas calças apertadas das funkeiras cariocas. É impossível
rebolar e cantar com aquilo", afirma ela. M.I.A. pode ser filha de tigre, mas,
como se vê, ainda tem muito que aprender com as "cachorras". |