Edição 1921 . 7 de setembro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Música
Tchutchuca asiática

O funk carioca, quem diria,
ganhou a adesão da filha de
um terrorista do Sri Lanka


Sérgio Martins

 
Divulgação
M.I.A., a tigresa que não é cachorra: "É impossível cantar e rebolar ao mesmo tempo com aquelas calças apertadas"

A cantora M.I.A. é um bom exemplo de como funciona a globalização. Cidadã inglesa, ela passou parte da infância no Sri Lanka, terra natal de seus pais. De volta à Inglaterra, tornou-se a mais recente sensação do pop internacional, com uma mistura de reggae eletrônico, música oriental e – é isto mesmo – funk carioca. O detalhe é que a moça nunca freqüentou um baile de favela no Rio de Janeiro nem, muito menos, viu de perto uma festa de reggae na Jamaica. "Aprendi a gostar desses gêneros de tanto ouvi-los nas casas noturnas de Londres", diz. Agora o funk carioca de M.I.A. vai passar pelo crivo do público que melhor o conhece. Arular, o CD de estréia da cantora, chega nesta semana às lojas do país, e nos dias 22 e 25 de outubro ela e seu namorado, o DJ Diplo, se apresentam no Rio e em São Paulo como parte do elenco do Tim Festival.

Maya Arulpragasam, de 29 anos, tem uma biografia de causar arrepios até em funkeiros acostumados à violência dos morros cariocas. Seu pai pertence aos Tigres da Libertação, grupo terrorista que luta pela independência da etnia tâmil do governo do Sri Lanka. No mês passado, os Tigres executaram o ministro do Interior do país, o que pode gerar uma nova guerra civil. "Não sei do paradeiro do meu pai e tenho dúvidas sobre quem são os verdadeiros terroristas", diz M.I.A., que fugiu do Sri Lanka em meados dos anos 80, mas até hoje guarda seqüelas do caos que impera no país. "Tenho sonhos em que minha casa é invadida por militares e eles exterminam toda a minha família", diz a moça. Também, com um pai desses...

O nome artístico M.I.A., aliás, é a abreviatura em inglês do termo missing in action, ou "desaparecido em combate" – e Arular, o título do CD, é o codinome de guerrilha de seu pai. Maya virou M.I.A. quando, depois de se formar em artes por uma universidade londrina, decidiu arriscar carreira na música eletrônica, gênero em que as siglas andam em alta. Também a opção pelo funk carioca, ainda que deplorável, tem sua razão de ser. Nos últimos dois anos, esse gênero foi exportado para a Europa por meio de comerciais de TV e bailes embalados a "pancadão" – termo pelo qual os DJs chamam aquela insuportável batida do funk. Foi num "pancadão" desses que a cantora conheceu o americano Wes Pentz, o DJ Diplo, com quem iniciou um relacionamento profissional e esporadicamente amoroso. "Hoje a gente namora apenas quando viaja junto em turnê." O rapaz só tem de tomar cuidado com o pai da moça. Aparentemente, M.I.A. não se importa de interpretar um gênero musical identificado com drogas, sexo promíscuo e violência. "Eu também falo de sexo, mas procuro fazer letras mais politizadas", diz. Para quem está acostumado aos bailes funk do Rio, a cantora deve desapontar no figurino. "Não uso aquelas calças apertadas das funkeiras cariocas. É impossível rebolar e cantar com aquilo", afirma ela. M.I.A. pode ser filha de tigre, mas, como se vê, ainda tem muito que aprender com as "cachorras".

 
 
 
 
topovoltar