Edição 1921 . 7 de setembro de 2005

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Cinema
Elenco 2 X diretor 1

Ron Howard dá elegância a Luta
pela Esperança,
mas é dos atores
que vem o sangue do filme


Isabela Boscov


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Crowe, como Braddock, pune um adversário: bom marido, ótimo predador

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Fotos do filme

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Trailer

Em 1929, o descendente de irlandeses James J. Braddock esteve a um passo de se tornar o campeão mundial dos pesos meio-pesados – e, apenas cinco anos depois, ele e sua família estavam a menos de um passo da indigência absoluta. Braddock caiu em desgraça por causa de uma derrota, perdeu tudo na Grande Depressão, foi expulso da liga de pugilismo e, sem trabalho além de ocasionais bicos nas docas de Nova York, viu-se reduzido a pedir esmola aos ex-amigos. Em 1934, entrou no ringue pelo que seria a última vez, para ser triturado por um peso pesado em troca de 250 dólares. Para surpresa geral (e acima de tudo sua), foi Braddock quem triturou o oponente, dando início àquilo que o escritor F. Scott Fitzgerald afirmava não existir na vida americana – a história de uma segunda chance, narrada com considerável fidelidade em A Luta pela Esperança (Cinderella Man, Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país. Uma história, portanto, bem ao gosto do diretor Ron Howard, que encenou outras segundas chances em filmes como Apollo 13 e Uma Mente Brilhante.


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Com Giamatti: dupla imbatível

Howard é o mais quadrado dos cineastas, para o bem e para o mal. Tem elegância, domínio narrativo e sabe explorar as emoções da platéia, no que a luta final é um exemplo de drama e brutalidade. Mas é também previsível ao extremo – em especial no seu pendor para localizar o que um enredo tem de edificante. Braddock, segundo todos os relatos, era um pai correto, um marido apaixonado e um homem honesto, e mostrá-lo na penúria de sua família é crucial para entender o desespero com que entrava no ringue. Mas o diretor não sabe fazer a conexão – ou ressaltar a falta dela – entre essa faceta do personagem e a fúria com que ele massacrava adversários como Max Baer, que tinha quase o dobro de seu tamanho e já matara dois outros boxeadores com seus socos. Só o leite das crianças não justificaria tamanha motivação. Por sorte, estão lá Russell Crowe, como Braddock, e Paul Giamatti, como seu empresário. Em desempenhos magnificamente modulados, eles contrabandeiam para o filme a constatação que o diretor tem escrúpulos em admitir: bom pai ou não, um boxeador é um predador. O cheiro de leite pode despertá-lo, mas farejar sangue é o que o torna uma fera.

 
 
 
 
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