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Cinema Elenco
2 X diretor 1 Ron Howard dá elegância
a Luta pela Esperança, mas é dos atores que vem o
sangue do filme 
Isabela Boscov
Divulgação  |
| Crowe, como Braddock, pune um adversário: bom marido,
ótimo predador |
Em
1929, o descendente de irlandeses James J. Braddock esteve a um passo de se tornar
o campeão mundial dos pesos meio-pesados e, apenas cinco anos depois,
ele e sua família estavam a menos de um passo da indigência absoluta.
Braddock caiu em desgraça por causa de uma derrota, perdeu tudo na Grande
Depressão, foi expulso da liga de pugilismo e, sem trabalho além
de ocasionais bicos nas docas de Nova York, viu-se reduzido a pedir esmola aos
ex-amigos. Em 1934, entrou no ringue pelo que seria a última vez, para
ser triturado por um peso pesado em troca de 250 dólares. Para surpresa
geral (e acima de tudo sua), foi Braddock quem triturou o oponente, dando início
àquilo que o escritor F. Scott Fitzgerald afirmava não existir na
vida americana a história de uma segunda chance, narrada com considerável
fidelidade em A Luta pela Esperança (Cinderella Man, Estados
Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país. Uma história,
portanto, bem ao gosto do diretor Ron Howard, que encenou outras segundas chances
em filmes como Apollo 13 e Uma Mente Brilhante.
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| Com Giamatti: dupla imbatível | Howard
é o mais quadrado dos cineastas, para o bem e para o mal. Tem elegância,
domínio narrativo e sabe explorar as emoções da platéia,
no que a luta final é um exemplo de drama e brutalidade. Mas é também
previsível ao extremo em especial no seu pendor para localizar o
que um enredo tem de edificante. Braddock, segundo todos os relatos, era um pai
correto, um marido apaixonado e um homem honesto, e mostrá-lo na penúria
de sua família é crucial para entender o desespero com que entrava
no ringue. Mas o diretor não sabe fazer a conexão ou ressaltar
a falta dela entre essa faceta do personagem e a fúria com que ele
massacrava adversários como Max Baer, que tinha quase o dobro de seu tamanho
e já matara dois outros boxeadores com seus socos. Só o leite das
crianças não justificaria tamanha motivação. Por sorte,
estão lá Russell Crowe, como Braddock, e Paul Giamatti, como seu
empresário. Em desempenhos magnificamente modulados, eles contrabandeiam
para o filme a constatação que o diretor tem escrúpulos em
admitir: bom pai ou não, um boxeador é um predador. O cheiro de
leite pode despertá-lo, mas farejar sangue é o que o torna uma fera.
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