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Livros Escritores
de jogo duplo Gênios como Voltaire
e Cervantes fizeram hora extra como espiões  Jerônimo
Teixeira
O espião
ganhou dignidade literária durante a Guerra Fria. Antes, ele figurava eventualmente
em obras como O Agente Secreto, publicada em 1907 por Joseph Conrad. Mas
foi no mundo dividido entre Estados Unidos e União Soviética que
o "romance de espionagem" se fixou como gênero, com autores tão distintos
quanto o fantasioso Ian Fleming pai do bon vivant James Bond
e o sombrio John Le Carré, criador do desencantado agente Smiley. Não
se deve supor, porém, que os escritores só tenham descoberto a espionagem
no século XX. A história da literatura registra muitos casos de
escritores que, embora não tenham se debruçado sobre o tema, atuaram
eles próprios como agentes de inteligência. Em Escritores e
Espiões (tradução de Angela Dutra de Menezes; Relume
Dumará; 277 páginas; 39,90 reais), o jornalista espanhol Fernando
Martínez Laínez revisa a vida secreta de espiões como Miguel
de Cervantes e Voltaire. Com sua vida
dupla, o espião é sempre um personagem fascinante. E o fascínio
cresce quando essa figura soturna se conjuga à imagem pública luminosa
do grande escritor. Apesar de combinar esses elementos promissores, a compilação
de Martínez Laínez é muitas vezes uma leitura frustrante.
Boas histórias morrem na sensaboria de uma prosa de enciclopédia
escolar. Também há uma certa dose de sensacionalismo: o capítulo
dedicado ao dramaturgo inglês Christopher Marlowe (1564-1593), por exemplo,
leva o título espetaculoso de "o homem que pode ser Shakespeare". O jornalista
espanhol dá crédito à teoria esdrúxula de que Marlowe
teria forjado a própria morte (foi apunhalado numa briga de taverna) e
depois assumido o pseudônimo William Shakespeare para escrever obras como
Hamlet. Não havia necessidade de recorrer a essas bizarrias acadêmicas
para falar de Marlowe: o autor de Doutor Fausto já é uma
figura suficientemente misteriosa. Ao que tudo indica, foi agente secreto de Francis
Walsingham, o poderoso secretário da rainha protestante Elizabeth I, que
o teria empregado para investigar as maquinações dos católicos.
Como Marlowe, a maioria dos literatos
examinados em Escritores e Espiões oito de onze autores
atuou numa Europa dominada por monarquias absolutistas. Nas cortes reais, a espionagem
ainda não se convertera na função especializada que é
hoje. Interceptar cartas confidenciais e ouvir atrás das portas era apenas
mais uma das atribuições do cortesão, assim como adular o
rei e fazer rapapés para a rainha. O escritor-cortesão tinha uma
tarefa extra: dar brilho intelectual à corte. É por isso que Frederico
II, rei da Prússia, apreciava a companhia do pensador francês Voltaire
(1694-1778) que retribuiu a hospitalidade tentando roubar segredos para
a França. O autor de Cândido foi a encarnação
maior da inteligência iluminista do século XVIII. Como espião,
no entanto, revelou-se um fiasco. Descuidado, mostrava cartas secretas à
amante. Frederico II sabia das intenções ocultas de Voltaire
e o manipulava à vontade. O
espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616) também foi um espião frustrado
não por incompetência, mas por desinteresse da Coroa espanhola.
A serviço do rei Felipe II, viajou em 1581 para o norte da África
(região que conhecia bem, pois foi prisioneiro e escravo por cinco anos
na Argélia) para investigar as movimentações da armada turca
na região. De volta à Europa, não conseguiu obter mais nenhuma
missão da corte, o que muito o desapontou (mas não aos leitores:
largando sua vida aventuresca, Cervantes pôde se dedicar à composição
de Dom Quixote). Contemporâneo mais jovem de Cervantes, Francisco
de Quevedo (1580-1645) foi um espião bem mais ativo. Ele é um dos
maiores poetas do Século de Ouro da literatura espanhola um período
que, na verdade, se estende por dois séculos (XVI e XVII), nos quais viveram
autores como Calderón de la Barca e Luis de Góngora. Sob as ordens
do duque de Osuna, um nobre espanhol que tinha interesses na Itália, Quevedo
se tornou a versão barroca do "homem da mala": em 1616, foi enviado à
corte do rei espanhol Felipe III com um "mensalão", na forma de um grande
carregamento de ouro. Comprou a nobreza para que o vice-reinado de Nápoles
fosse concedido a Osuna. Alguns anos mais tarde, o poeta fracassou em uma missão
secreta na República de Veneza, então o grande inimigo dos interesses
espanhóis na península italiana. Seu objetivo era insuflar uma insurreição
popular, mas ele foi descoberto e teve de fugir da cidade disfarçado
de mendigo, segundo relatos. No século
XX, o espião se profissionalizou. As intrigas palacianas deram lugar a
burocráticas agências de inteligência, como a americana CIA,
a britânica MI6 e a soviética KGB. Dois romancistas ingleses se celebrizaram
por escrever obras inspiradas em suas experiências nas comunidades de informação:
Graham Greene (1904-1991) e John Le Carré (pseudônimo literário
de David Cornwell). Greene trabalhou no serviço secreto britânico
na II Guerra Mundial, espionando na África e em Portugal, contra os alemães.
Mas se aborreceu com a rotina do MI6, do qual se demitiu antes do fim do conflito.
Seu superior era Kim Philby, que mais tarde se revelaria um agente duplo a serviço
dos soviéticos. Apesar da traição, Greene manteve uma amizade
duradoura com o antigo chefe. O grande escritor da Guerra Fria, contudo, é
Le Carré, hoje com 73 anos. Disfarçado de diplomata na Alemanha,
ele controlava a atividade de agentes secretos ocidentais que agiam no mundo comunista.
Nos livros de Le Carré, os agentes são seres humanos prosaicos,
angustiados com as traições que a profissão os obriga a cometer.
Essa visão realista dos serviços de inteligência desmente
o glamour que os filmes e livros de James Bond associaram à espionagem.
Le Carré, aliás, argumenta que o mulherengo Bond seria um agente
muito pouco confiável: "Ele é o desertor ideal. Se lhe dessem mais
dinheiro, melhores bebidas e mulheres mais fáceis em Moscou, num minuto
ele trocaria de lado".
Francisco de Quevedo Nascimento:
17/9/1580 Morte: 8/9/1645 Obra pública: Poeta,
foi um dos maiores nomes do Século de Ouro da literatura espanhola Serviço
secreto: Foi o "homem da mala", uma espécie de "mensalão" na
corte espanhola, distribuindo dinheiro para conquistar favores para um duque.
Participou ainda de uma conspiração fracassada em Veneza John
Le Carré Nascimento: 19/10/1931
Obra pública: Autor de O Espião que Saiu do Frio,
é o mais celebrado criador de romances de espionagem Serviço
secreto: Sob o disfarce de diplomata na Alemanha, controlava o trabalho de
agentes secretos que atuavam no mundo comunista durante a Guerra Fria Voltaire
Nascimento: 21/11/1694 Morte: 30/5/1778
Obra pública: O autor de Cândido foi um dos grandes
nomes do Iluminismo e um agudo satirista da sociedade francesa de sua época
Serviço secreto: Era um espião incompetente: pretendia
roubar segredos do rei da Prússia, Frederico II mas o soberano sabia
que Voltaire trabalhava para a França Graham
Greene Nascimento: 2/10/1904 Morte:
3/4/1991 Obra pública: Autor de grandes romances políticos,
como O Americano Tranqüilo e Nosso Homem em Havana Serviço
secreto: Atuou na Inteligência inglesa durante a II Guerra, quando
fez amizade com Kim Philby, um dos mais célebres agentes duplos, que trabalhava
para os soviéticos | | |