Edição 1921 . 7 de setembro de 2005

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Escritores de jogo duplo

Gênios como Voltaire e Cervantes
fizeram hora extra como espiões


Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

O espião ganhou dignidade literária durante a Guerra Fria. Antes, ele figurava eventualmente em obras como O Agente Secreto, publicada em 1907 por Joseph Conrad. Mas foi no mundo dividido entre Estados Unidos e União Soviética que o "romance de espionagem" se fixou como gênero, com autores tão distintos quanto o fantasioso Ian Fleming – pai do bon vivant James Bond – e o sombrio John Le Carré, criador do desencantado agente Smiley. Não se deve supor, porém, que os escritores só tenham descoberto a espionagem no século XX. A história da literatura registra muitos casos de escritores que, embora não tenham se debruçado sobre o tema, atuaram eles próprios como agentes de inteligência. Em Escritores e Espiões (tradução de Angela Dutra de Menezes; Relume Dumará; 277 páginas; 39,90 reais), o jornalista espanhol Fernando Martínez Laínez revisa a vida secreta de espiões como Miguel de Cervantes e Voltaire.

Com sua vida dupla, o espião é sempre um personagem fascinante. E o fascínio cresce quando essa figura soturna se conjuga à imagem pública luminosa do grande escritor. Apesar de combinar esses elementos promissores, a compilação de Martínez Laínez é muitas vezes uma leitura frustrante. Boas histórias morrem na sensaboria de uma prosa de enciclopédia escolar. Também há uma certa dose de sensacionalismo: o capítulo dedicado ao dramaturgo inglês Christopher Marlowe (1564-1593), por exemplo, leva o título espetaculoso de "o homem que pode ser Shakespeare". O jornalista espanhol dá crédito à teoria esdrúxula de que Marlowe teria forjado a própria morte (foi apunhalado numa briga de taverna) e depois assumido o pseudônimo William Shakespeare para escrever obras como Hamlet. Não havia necessidade de recorrer a essas bizarrias acadêmicas para falar de Marlowe: o autor de Doutor Fausto já é uma figura suficientemente misteriosa. Ao que tudo indica, foi agente secreto de Francis Walsingham, o poderoso secretário da rainha protestante Elizabeth I, que o teria empregado para investigar as maquinações dos católicos.

Como Marlowe, a maioria dos literatos examinados em Escritores e Espiões – oito de onze autores – atuou numa Europa dominada por monarquias absolutistas. Nas cortes reais, a espionagem ainda não se convertera na função especializada que é hoje. Interceptar cartas confidenciais e ouvir atrás das portas era apenas mais uma das atribuições do cortesão, assim como adular o rei e fazer rapapés para a rainha. O escritor-cortesão tinha uma tarefa extra: dar brilho intelectual à corte. É por isso que Frederico II, rei da Prússia, apreciava a companhia do pensador francês Voltaire (1694-1778) – que retribuiu a hospitalidade tentando roubar segredos para a França. O autor de Cândido foi a encarnação maior da inteligência iluminista do século XVIII. Como espião, no entanto, revelou-se um fiasco. Descuidado, mostrava cartas secretas à amante. Frederico II sabia das intenções ocultas de Voltaire – e o manipulava à vontade.

O espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616) também foi um espião frustrado – não por incompetência, mas por desinteresse da Coroa espanhola. A serviço do rei Felipe II, viajou em 1581 para o norte da África (região que conhecia bem, pois foi prisioneiro e escravo por cinco anos na Argélia) para investigar as movimentações da armada turca na região. De volta à Europa, não conseguiu obter mais nenhuma missão da corte, o que muito o desapontou (mas não aos leitores: largando sua vida aventuresca, Cervantes pôde se dedicar à composição de Dom Quixote). Contemporâneo mais jovem de Cervantes, Francisco de Quevedo (1580-1645) foi um espião bem mais ativo. Ele é um dos maiores poetas do Século de Ouro da literatura espanhola – um período que, na verdade, se estende por dois séculos (XVI e XVII), nos quais viveram autores como Calderón de la Barca e Luis de Góngora. Sob as ordens do duque de Osuna, um nobre espanhol que tinha interesses na Itália, Quevedo se tornou a versão barroca do "homem da mala": em 1616, foi enviado à corte do rei espanhol Felipe III com um "mensalão", na forma de um grande carregamento de ouro. Comprou a nobreza para que o vice-reinado de Nápoles fosse concedido a Osuna. Alguns anos mais tarde, o poeta fracassou em uma missão secreta na República de Veneza, então o grande inimigo dos interesses espanhóis na península italiana. Seu objetivo era insuflar uma insurreição popular, mas ele foi descoberto e teve de fugir da cidade – disfarçado de mendigo, segundo relatos.

No século XX, o espião se profissionalizou. As intrigas palacianas deram lugar a burocráticas agências de inteligência, como a americana CIA, a britânica MI6 e a soviética KGB. Dois romancistas ingleses se celebrizaram por escrever obras inspiradas em suas experiências nas comunidades de informação: Graham Greene (1904-1991) e John Le Carré (pseudônimo literário de David Cornwell). Greene trabalhou no serviço secreto britânico na II Guerra Mundial, espionando na África e em Portugal, contra os alemães. Mas se aborreceu com a rotina do MI6, do qual se demitiu antes do fim do conflito. Seu superior era Kim Philby, que mais tarde se revelaria um agente duplo a serviço dos soviéticos. Apesar da traição, Greene manteve uma amizade duradoura com o antigo chefe. O grande escritor da Guerra Fria, contudo, é Le Carré, hoje com 73 anos. Disfarçado de diplomata na Alemanha, ele controlava a atividade de agentes secretos ocidentais que agiam no mundo comunista. Nos livros de Le Carré, os agentes são seres humanos prosaicos, angustiados com as traições que a profissão os obriga a cometer. Essa visão realista dos serviços de inteligência desmente o glamour que os filmes e livros de James Bond associaram à espionagem. Le Carré, aliás, argumenta que o mulherengo Bond seria um agente muito pouco confiável: "Ele é o desertor ideal. Se lhe dessem mais dinheiro, melhores bebidas e mulheres mais fáceis em Moscou, num minuto ele trocaria de lado".

 

Francisco de Quevedo
Nascimento: 17/9/1580
Morte: 8/9/1645
Obra pública: Poeta, foi um dos maiores nomes do Século de Ouro da literatura espanhola
Serviço secreto: Foi o "homem da mala", uma espécie de "mensalão" na corte espanhola, distribuindo dinheiro para conquistar favores para um duque. Participou ainda de uma conspiração fracassada em Veneza

John Le Carré
Nascimento: 19/10/1931
Obra pública: Autor de O Espião que Saiu do Frio, é o mais celebrado criador de romances de espionagem
Serviço secreto: Sob o disfarce de diplomata na Alemanha, controlava o trabalho de agentes secretos que atuavam no mundo comunista durante a Guerra Fria

Voltaire
Nascimento: 21/11/1694
Morte: 30/5/1778
Obra pública: O autor de Cândido foi um dos grandes nomes do Iluminismo e um agudo satirista da sociedade francesa de sua época
Serviço secreto: Era um espião incompetente: pretendia roubar segredos do rei da Prússia, Frederico II – mas o soberano sabia que Voltaire trabalhava para a França

Graham Greene
Nascimento: 2/10/1904
Morte: 3/4/1991
Obra pública: Autor de grandes romances políticos, como O Americano Tranqüilo e Nosso Homem em Havana
Serviço secreto: Atuou na Inteligência inglesa durante a II Guerra, quando fez amizade com Kim Philby, um dos mais célebres agentes duplos, que trabalhava para os soviéticos

 
 
 
 
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