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Televisão O
legítimo comandante Chaves Sem querer
querendo, o humorístico criado pelo mexicano Roberto Bolaños
virou o santo milagreiro do SBT  Ricardo
Valladares
Há
anos ele vive de falar asneiras, e ainda assim ninguém consegue derrubá-lo
do seu posto. Não, não se trata do presidente da Venezuela, Hugo
Chávez, mas do seu xará, o Chaves do seriado infantil mexicano
homônimo, cujos 150 episódios produzidos ainda na década de
70 o SBT reprisa assiduamente desde 1984 sempre com ótimas médias
de audiência, que hoje andam em torno dos 10 pontos. Frise-se: há
21 anos, não importa se no verão ou no inverno, de dia ou de noite,
Chaves obtém esse tipo de resultado. Enfatize-se de novo:
sempre com os mesmos velhos e surrados 150 episódios. Graças a essa
popularidade, o seriado virou o santo milagreiro do SBT. Toda vez que há
mudanças na grade de programação uma rotina na emissora
de Silvio Santos , o personagem pobre e órfão, que mora num
barril, é convocado para remendar lacunas e alavancar ibopes claudicantes.
No mês passado, por exemplo, a ida da jornalista Ana Paula Padrão
para o horário das 19h15 desmontou várias outras atrações.
O Programa do Ratinho foi um dos mais atingidos: deslocado para anteceder
o jornalístico de Ana Paula, despencou para 5 pontos de média. Chaves
entrou em seu lugar, às 18 horas, e imediatamente dobrou a audiência
do horário. Em sua outra janela, às 12h45, surtiu o mesmo efeito.
Não só as estrelas do SBT morrem de inveja dele. Em 2000, quando
a global Ana Maria Braga disputava com Chaves a audiência do início
da tarde, seu programa tomava surras diárias. No páreo com Malhação,
no ano anterior, o mexicano fizera ainda mais estrago: ao livrar vários
pontos de vantagem sobre o concorrente, deflagrou uma crise na direção
da atração da Globo. Não
é apenas pela audiência que Chaves alarma os seus rivais de
emissora. Há que considerar, primeiro, que seu criador e intérprete,
o mexicano Roberto Gómez Bolaños, não é funcionário
do SBT portanto não circula pelos corredores reclamando de mudanças
no horário, pedindo aumentos de cachê nem provocando dores de cabeça
em geral. Chaves também custa relativamente pouco a Silvio Santos:
3,5 milhões de reais ao ano, contra os 18 milhões anuais que ele
despende apenas com o salário de Ratinho, sem contar os custos com produção.
Chaves é, enfim, o sonho de todo executivo de televisão.
Por isso a mexicana Televisa, que produziu e atualmente vende o seriado a mais
de oitenta países, aumentou seu preço de 500.000 dólares
anuais para o triplo desse valor: todas as emissoras, inclusive a Globo, estavam
interessadas na atração. O mérito
por esse sucesso está nos textos de Bolaños, hoje com 76 anos. Seu
humor tem muito pastelão, mas não abusa da vulgaridade e evita qualquer
ligação com modas ou tópicos do noticiário
ou seja, parece sempre fresquinho. "Chaves é uma criança
de rua, como as muitas que brincam com o que têm à mão",
disse Bolanõs a VEJA. Chaves tem, ainda, um ótimo bordão
("foi sem querer querendo") e bons companheiros de aventura, como Kiko
e Chiquinha (ambos também adultos vestidos como crianças), Seu Barriga,
a Bruxa do 71 e Seu Madruga, que vive de bicos e trambiques. "São
personagens típicos dos países subdesenvolvidos. Esse é um
dos motivos da popularidade da série", diz o jornalista Luís
Joly, co-autor de um livro sobre o personagem, que chegará às livrarias
neste mês. Ao contrário do que se poderia imaginar, o apelo de Chaves
é maior ainda entre os adultos que entre as crianças: segundo o
instituto Ibope, 58% dos seus espectadores no Brasil têm mais de 18 anos.
"Seu humor conquistou várias gerações e se tornou cult.
Eu diria até que se deveria mudar a estratégia de venda de Chaves
e não dirigi-la apenas à criançada", diz o publicitário
e sócio-diretor da F/Nazca Ivan Marques. Para quem não consegue
viver sem o programa, já está nas locadoras um DVD com cinco episódios,
o primeiro de uma coleção. Ex-boxeador,
Bolaños inicialmente fez fama sob o apelido de Chespirito (ou "Pequeno
Shakespeare", na contração "muy mexicana"), por causa
do talento e do escasso 1,60 metro. Além de Chaves, criou outras
séries, como a estrelada pelo estrambótico super-herói Chapolin
(aquele do bordão "não contavam com a minha astúcia")
e Chómpiras & Peterete, sobre uma dupla de ladrões regenerados.
Hoje, o comediante mora na Cidade do México com a mulher, Florinda Meza
(a Dona Florinda de Chaves, também autora de novelas), e perto dos
seis filhos e doze netos. Aposentado da televisão desde 1994, Bolanõs
continua escrevendo e promovendo seu trabalho. Na semana passada, esteve em El
Salvador para lançar o livro El Diário del Chavo del Ocho,
e já planeja uma autobiografia. "Ele está muito lúcido,
apesar do diabetes e do tique que adquiriu por ter parado de fumar", diz
a assessora do artista, Beatriz Leon. O tique foi sem querer querendo. |