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Saúde Cerco
aos males do coração Colesterol,
PCR ultra-sensível, fosfolipase A2... A lista de indicadores de risco
cardíaco não pára de crescer. O mais novo é a
combinação de dois tipos de gordura encontrados no sangue 
Paula Neiva
Um dos progressos
mais notáveis da medicina pode ser observado na área da cardiologia.
Hoje, os médicos conseguem estabelecer com bastante segurança a
probabilidade de uma pessoa vir a sofrer de problemas cardíacos num prazo
de dez anos. Precisar dessa forma o grau de ameaça ao coração
só foi possível com o aperfeiçoamento das técnicas
de diagnóstico e a identificação de substâncias associadas
a distúrbios como infarto e angina. Só na última década
foram incorporados à prática clínica pelo menos sete marcadores
cardíacos. Às tradicionais medições de colesterol,
pressão arterial, glicemia e circunferência abdominal, foram adicionadas
as análises das taxas da proteína C-reativa ultra-sensível,
da enzima fosfolipase A2 e do cálcio depositado nas artérias coronárias.
A lista não pára de crescer. O mais novo marcador, que ainda não
tem data para ser utilizado na prática clínica, acaba de ser divulgado
pela revista científica americana The New England Journal of Medicine.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, demonstraram
que a associação de dois tipos de gordura a lipoproteína
Lp(a) e os fosfolipídios oxidados aumenta em até dezesseis
vezes a propensão ao entupimento arterial e, conseqüentemente, ao
infarto. "Esse tipo de informação facilita o diagnóstico
e o tratamento precoce dos distúrbios do coração", diz o
cardiologista Raul Santos, diretor da unidade clínica de dislipidemias
do Instituto do Coração, São Paulo. "Pode ajudar a reduzir
em até 50% o número de mortes por infarto e outros eventos cardiovasculares."
Ainda não se sabe como evitar altas
concentrações de Lp(a) e fosfolipídios oxidados se
por dieta ou por ingestão de medicamentos. Mas, quando se verifica o ritmo
de progressos nessa área, isso não deve demorar a ocorrer. A identificação
desses marcadores todos permitiu que se fizesse uma análise bem mais minuciosa
da saúde do coração. Além disso, em muitos casos possibilitou
que se mudasse radicalmente a avaliação cardíaca do paciente.
Tome-se por exemplo um homem de 50 anos, não-fumante e ativo fisicamente,
mas que apresenta pressão arterial de 14 por 9 (alta, portanto), LDL de
172 (o ótimo é 130) e colesterol bom de 37 (o ideal é acima
de 40). Levados em conta apenas esses fatores de risco, a probabilidade de o paciente
infartar é de 11%, em dez anos. Ou seja, ele pertence à categoria
de risco médio. Se, no entanto, passar por uma tomografia computadorizada
e o exame indicar o acúmulo de cálcio nas artérias, o risco
de ele sofrer um infarto sobe para 20% no mesmo período. "Tal mudança
pode fazer toda a diferença entre a vida e a morte", diz o cardiologista
Otávio Rizzi Coelho, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Essa diferença reside no tipo de tratamento preventivo a ser prescrito.
Outro grande avanço da cardiologia, aliás, está no desenvolvimento
de medicamentos que não só tratam os distúrbios, como também
são capazes de evitá-los. A combinação de aspirina
(um potente anticoagulante), estatinas (remédios contra o colesterol alto)
e anti-hipertensivos reduz em até 70% a taxa de mortalidade por infarto
em pacientes de alto risco. O mapeamento proporcionado
pelos novos marcadores representa um passo concreto em direção à
individualização dos tratamentos, uma das metas mais ambicionadas
pelos médicos. Ainda assim, esses novos exames não são indicados
para qualquer paciente. Apenas para os que já passaram por uma triagem.
Essa orientação estará presente em diretrizes que a Sociedade
Brasileira de Cardiologia deverá divulgar até o fim do ano. De acordo
com o documento, os novos marcadores contribuirão para a melhora na classificação
(e, conseqüentemente, do tratamento) dos pacientes de médio e alto
risco ou daqueles que, embora tenham índices tradicionais razoáveis,
despertem no médico alguma desconfiança em relação
ao estado de seu coração. Como se
trata de um assunto recente, há várias questões em aberto
no que se refere ao uso clínico de certos marcadores. Um exemplo é
a homocisteína, um aminoácido que contribui para a formação
dos radicais livres que lesam a parede dos vasos sanguíneos. Incorporado
à rotina dos cardiologistas cerca de cinco anos atrás, o uso dessa
referência é questionado por um número expressivo de especialistas.
Uma alta dosagem de homocisteína no sangue oferece um aumento no risco
de eventos cardíacos de 12% uma cifra tão irrelevante, na
opinião desses médicos, a ponto de não justificar o exame.
Em relação à Lp(a) e aos fosfolipídios oxidados, ainda
não se esclareceram a contento os parâmetros saudáveis de
tais substâncias. Sabe-se que, em excesso, elas prejudicam o coração,
mas ainda se desconhecem as conseqüências que as concentrações
médias podem provocar.
| OS NOVOS MARCADORES RELAÇÃO
LP(a) E FOSFOLIPÍDIOS OXIDADOS A lipoproteína Lp(a), detectada
no sangue, é uma variação do LDL, o colesterol ruim. Na presença
de_fosfolipídios oxidados, ela oferece risco maior de entupimento arterial
Risco Quando_a Lp(a)_está associada_a altas concentrações
de fosfolipídios oxidados,_a ameaça de obstrução arterial
pode aumentar até dezesseis vezes RELAÇÃO
APO B E APO A1 A proteína Apo B contribui para o acúmulo
de gordura nas artérias e a Apo A1 ajuda a eliminar o colesterol ruim.
Ambas são medidas no sangue Risco O valor da relação
Apo B e Apo A1 deve ser inferior a 1,39 para os homens e a 1,21 para as mulheres.
Acima disso, o risco de infarto quintuplica HOMOCISTEÍNA
O aminoácido contribui para a formação de radicais livres
substâncias tóxicas que lesam os vasos sanguíneos e
aumentam o risco de formação de coágulos Risco
Níveis altos de homocisteína no sangue indicam uma probabilidade
até 12% maior de infarto e derrame FOSFOLIPASE
A2 Trata-se de uma enzima que potencializa a oxidação do
LDL, o colesterol ruim. Esse processo agride os vasos sanguíneos e facilita
o depósito de gordura Risco Níveis de fosfolipase
acima de 422 gramas por litro de sangue dobram o risco de problemas cardíacos.
Se associados a concentrações elevadas de PCR ultra-sensível,a
probabilidade de derrame sobe até oito vezes ESPESSURA
DAS CARÓTIDAS Medição da espessura, por ultra-som
de alta resolução, das artérias carótidas as
principais fontes de irrigação sanguínea do cérebro.
Essa análise ajuda na detecção precoce da aterosclerose
Risco Carótidas com mais de 0,1 centímetro de espessura
indicam risco cardiovascular alto. Cada 0,16 milímetro a mais representa
um aumento de até 35% no risco de infarto e de até 25% no de derrame PCR
ULTRA-SENSÍVEL Dentre os novos marcadores cardíacos, é
considerado um dos mais importantes. Trata-se da proteína que indica a
inflamação dos vasos sanguíneos, causada pelo acúmulo
de gordura nas artérias Risco Com níveis acima de
3 miligramas da proteína por litro de sangue, a probabilidade de infarto
e derrame é até 2,5 vezes maior CÁLCIO
CORONÁRIO Um exame de tomografia computadorizada aponta a presença
de cálcio no interior das artérias. Como o mineral integra as placas
de gordura, o marcador sinaliza o risco de bloqueio das artérias coronárias
Risco O acúmulo de cálcio aumenta em até quinze
vezes o risco de infarto MICROALBUMINÚRIA
São fragmentos da proteína albumina que, encontrados na urina
em grande quantidade, indicam lesão no tecido que reveste o interior dos
rins. Esse tecido espelha o que acontece nas artérias de todo o corpo
Risco Os níveis ideais para mulheres são inferiores a
7,5 microgramas. Para os homens, a 4 microgramas. Acima disso, o risco de infarto
triplica Fontes: Raul Santos,
Nabil Ghorayeb, Marcos Knobel e Otávio Rizzi Coelho, cardiologistas
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