Edição 1921 . 7 de setembro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Saúde
Cerco aos males do coração

Colesterol, PCR ultra-sensível, fosfolipase A2...
A lista de indicadores de risco cardíaco não
pára de crescer. O mais novo é a combinação
de dois tipos de gordura encontrados no sangue


Paula Neiva

EXCLUSIVO ON-LINE
Mais sobre doenças cardíacas em VEJA Saúde

Um dos progressos mais notáveis da medicina pode ser observado na área da cardiologia. Hoje, os médicos conseguem estabelecer com bastante segurança a probabilidade de uma pessoa vir a sofrer de problemas cardíacos num prazo de dez anos. Precisar dessa forma o grau de ameaça ao coração só foi possível com o aperfeiçoamento das técnicas de diagnóstico e a identificação de substâncias associadas a distúrbios como infarto e angina. Só na última década foram incorporados à prática clínica pelo menos sete marcadores cardíacos. Às tradicionais medições de colesterol, pressão arterial, glicemia e circunferência abdominal, foram adicionadas as análises das taxas da proteína C-reativa ultra-sensível, da enzima fosfolipase A2 e do cálcio depositado nas artérias coronárias. A lista não pára de crescer. O mais novo marcador, que ainda não tem data para ser utilizado na prática clínica, acaba de ser divulgado pela revista científica americana The New England Journal of Medicine. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, demonstraram que a associação de dois tipos de gordura – a lipoproteína Lp(a) e os fosfolipídios oxidados – aumenta em até dezesseis vezes a propensão ao entupimento arterial e, conseqüentemente, ao infarto. "Esse tipo de informação facilita o diagnóstico e o tratamento precoce dos distúrbios do coração", diz o cardiologista Raul Santos, diretor da unidade clínica de dislipidemias do Instituto do Coração, São Paulo. "Pode ajudar a reduzir em até 50% o número de mortes por infarto e outros eventos cardiovasculares."

Ainda não se sabe como evitar altas concentrações de Lp(a) e fosfolipídios oxidados – se por dieta ou por ingestão de medicamentos. Mas, quando se verifica o ritmo de progressos nessa área, isso não deve demorar a ocorrer. A identificação desses marcadores todos permitiu que se fizesse uma análise bem mais minuciosa da saúde do coração. Além disso, em muitos casos possibilitou que se mudasse radicalmente a avaliação cardíaca do paciente. Tome-se por exemplo um homem de 50 anos, não-fumante e ativo fisicamente, mas que apresenta pressão arterial de 14 por 9 (alta, portanto), LDL de 172 (o ótimo é 130) e colesterol bom de 37 (o ideal é acima de 40). Levados em conta apenas esses fatores de risco, a probabilidade de o paciente infartar é de 11%, em dez anos. Ou seja, ele pertence à categoria de risco médio. Se, no entanto, passar por uma tomografia computadorizada e o exame indicar o acúmulo de cálcio nas artérias, o risco de ele sofrer um infarto sobe para 20% no mesmo período. "Tal mudança pode fazer toda a diferença entre a vida e a morte", diz o cardiologista Otávio Rizzi Coelho, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Essa diferença reside no tipo de tratamento preventivo a ser prescrito. Outro grande avanço da cardiologia, aliás, está no desenvolvimento de medicamentos que não só tratam os distúrbios, como também são capazes de evitá-los. A combinação de aspirina (um potente anticoagulante), estatinas (remédios contra o colesterol alto) e anti-hipertensivos reduz em até 70% a taxa de mortalidade por infarto em pacientes de alto risco.

O mapeamento proporcionado pelos novos marcadores representa um passo concreto em direção à individualização dos tratamentos, uma das metas mais ambicionadas pelos médicos. Ainda assim, esses novos exames não são indicados para qualquer paciente. Apenas para os que já passaram por uma triagem. Essa orientação estará presente em diretrizes que a Sociedade Brasileira de Cardiologia deverá divulgar até o fim do ano. De acordo com o documento, os novos marcadores contribuirão para a melhora na classificação (e, conseqüentemente, do tratamento) dos pacientes de médio e alto risco ou daqueles que, embora tenham índices tradicionais razoáveis, despertem no médico alguma desconfiança em relação ao estado de seu coração.

Como se trata de um assunto recente, há várias questões em aberto no que se refere ao uso clínico de certos marcadores. Um exemplo é a homocisteína, um aminoácido que contribui para a formação dos radicais livres que lesam a parede dos vasos sanguíneos. Incorporado à rotina dos cardiologistas cerca de cinco anos atrás, o uso dessa referência é questionado por um número expressivo de especialistas. Uma alta dosagem de homocisteína no sangue oferece um aumento no risco de eventos cardíacos de 12% – uma cifra tão irrelevante, na opinião desses médicos, a ponto de não justificar o exame. Em relação à Lp(a) e aos fosfolipídios oxidados, ainda não se esclareceram a contento os parâmetros saudáveis de tais substâncias. Sabe-se que, em excesso, elas prejudicam o coração, mas ainda se desconhecem as conseqüências que as concentrações médias podem provocar.

 

OS NOVOS MARCADORES

RELAÇÃO LP(a) E FOSFOLIPÍDIOS OXIDADOS
A lipoproteína Lp(a), detectada no sangue, é uma variação do LDL, o colesterol ruim. Na presença de_fosfolipídios oxidados, ela oferece risco maior de entupimento arterial
Risco
Quando_a Lp(a)_está associada_a altas concentrações de fosfolipídios oxidados,_a ameaça de obstrução arterial pode aumentar até dezesseis vezes

RELAÇÃO APO B E APO A1
A proteína Apo B contribui para o acúmulo de gordura nas artérias e a Apo A1 ajuda a eliminar o colesterol ruim. Ambas são medidas no sangue
Risco
O valor da relação Apo B e Apo A1 deve ser inferior a 1,39 para os homens e a 1,21 para as mulheres. Acima disso, o risco de infarto quintuplica

HOMOCISTEÍNA
O aminoácido contribui para a formação de radicais livres – substâncias tóxicas que lesam os vasos sanguíneos e aumentam o risco de formação de coágulos
Risco
Níveis altos de homocisteína no sangue indicam uma probabilidade até 12% maior de infarto e derrame

FOSFOLIPASE A2
Trata-se de uma enzima que potencializa a oxidação do LDL, o colesterol ruim. Esse processo agride os vasos sanguíneos e facilita o depósito de gordura
Risco
Níveis de fosfolipase acima de 422 gramas por litro de sangue dobram o risco de problemas cardíacos. Se associados a concentrações elevadas de PCR ultra-sensível,a probabilidade de derrame sobe até oito vezes

ESPESSURA DAS CARÓTIDAS
Medição da espessura, por ultra-som de alta resolução, das artérias carótidas – as principais fontes de irrigação sanguínea do cérebro. Essa análise ajuda na detecção precoce da aterosclerose
Risco
Carótidas com mais de 0,1 centímetro de espessura indicam risco cardiovascular alto. Cada 0,16 milímetro a mais representa um aumento de até 35% no risco de infarto e de até 25% no de derrame

PCR ULTRA-SENSÍVEL
Dentre os novos marcadores cardíacos, é considerado um dos mais importantes. Trata-se da proteína que indica a inflamação dos vasos sanguíneos, causada pelo acúmulo de gordura nas artérias
Risco
Com níveis acima de 3 miligramas da proteína por litro de sangue, a probabilidade de infarto e derrame é até 2,5 vezes maior

CÁLCIO CORONÁRIO
Um exame de tomografia computadorizada aponta a presença de cálcio no interior das artérias. Como o mineral integra as placas de gordura, o marcador sinaliza o risco de bloqueio das artérias coronárias
Risco
O acúmulo de cálcio aumenta em até quinze vezes o risco de infarto

MICROALBUMINÚRIA
São fragmentos da proteína albumina que, encontrados na urina em grande quantidade, indicam lesão no tecido que reveste o interior dos rins. Esse tecido espelha o que acontece nas artérias de todo o corpo
Risco
Os níveis ideais para mulheres são inferiores a 7,5 microgramas. Para os homens, a 4 microgramas. Acima disso, o risco de infarto triplica

Fontes: Raul Santos, Nabil Ghorayeb,
Marcos Knobel e Otávio Rizzi Coelho, cardiologistas

 

 
 
 
 
topovoltar