Edição 1921 . 7 de setembro de 2005

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Ambiente
A cegueira das civilizações

Jared Diamond diz que o sucesso de
sociedades do passado não as deixou
ver o perigo ambiental criado por elas
próprias. Ele teme que isso se repita


Diogo Schelp

 

AFP
NATUREZA NA LATA DO LIXO
Rio poluído em Jacarta, na Indonésia: cada pessoa produz 5 toneladas de lixo por ano


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Individualismo versus coletivismo
Quadro: Não vai dar para todos

O homem nunca tirou tanto do meio ambiente como nos últimos cinqüenta anos. O avanço acelerado sobre a natureza é o efeito colateral do nosso sucesso. Vista pela perspectiva dos avanços relativos de cada civilização, a nossa exibe brilho sem igual. A fartura inédita de alimentos, a tecnologia para salvar vidas e colocar foguetes na Lua e a compreensão científica dos fenômenos naturais nunca foram maiores. A contrapartida preocupante são a perda acelerada de biodiversidade e a degradação do meio ambiente, a pressão sobre os estoques de água potável, o excesso de pesca nos oceanos e indícios de mudanças climáticas causadas pela ação do homem. O que esse processo mostra é que os recursos naturais podem estar sendo consumidos em velocidade maior que a de reposição do planeta. Há o risco de não sobrar o suficiente para as gerações futuras.

A respeito disso, vale a pena prestar atenção no que diz o americano Jared Diamond. Geógrafo da Universidade da Califórnia, ele é autor de um livro de grande repercussão, Armas, Germes e Aço, lançado há seis anos. Nele, explica como fatores ambientais influenciaram a ascensão de muitas civilizações. Dessa maneira, a disponibilidade de animais e plantas passíveis de ser domesticados ajuda a explicar por que o Ocidente conquistou o restante do mundo – e não o inverso. Ou, em outras palavras, por que foram os espanhóis que desembarcaram no México, e não os astecas na Espanha. Mais recentemente, Diamond estudou o declínio e o sucesso de várias sociedades do passado e acredita ter encontrado um padrão na catástrofe: o desastre ambiental provocado por elas foi decisivo no próprio declínio. A queda de um povo nunca é o resultado de um único fator, diz o geógrafo. Ele pode simplesmente ser aniquilado por um invasor poderoso. Outras vezes, o colapso é provocado pela perda de uma conexão vital – um freguês tradicional para seu único produto de exportação, por exemplo. Pode ocorrer uma mudança climática ou um desastre natural. O elemento isolado mais poderoso, contudo, pelo menos nos exemplos estudados, foi a degradação ambiental. Quando a população cresce, em decorrência do sucesso da sociedade, a pressão por alimento se torna excessiva para os recursos naturais. O resultado é a fome, que leva à desagregação social e a guerra civil.

De qualquer forma, no seu entender, a questão mais importante é o modo com que a sociedade reage aos quatro problemas citados. O sucesso pode cegar as pessoas para os riscos de seu próprio comportamento. Os mesmos valores que permitiram a ascensão daquele povo podem igualmente levá-lo à ruína. O exemplo dessa situação, apresentado pelo geógrafo, não é do passado, e, sim, dos nossos dias. A cultura do consumo permitiu a criação do grau de riqueza da sociedade moderna. O risco é o de que os recursos naturais não dêem conta de atender à demanda, fazendo com que a sociedade volte atrás. Diante da necessidade de alimentar uma população crescente, a civilização maia, a mais brilhante entre as pré-colombianas, devastou a mata, expondo a terra à erosão. Por fim, as colheitas fracassaram e a fome dizimou a população. Envolvidos em guerras permanentes e golpes de Estado, os reis maias não foram capazes de pensar nas gerações futuras.

 

Antonio Ribeiro
PESCA E MATA AMEAÇADAS
A pesca excessiva dizimou os cardumes de atum. A Amazônia já perdeu um quinto de sua floresta (acima, queimada em Rondônia)

Diamond acredita que o mesmo tipo de desatenção para com o futuro possa estar ocorrendo atualmente. Há realmente sinais inequívocos de como o homem moderno já está sendo prejudicado pelo uso depredatório que faz dos recursos naturais:

• O consumo de água cresceu seis vezes no último século, em grande parte para aumentar a produção de alimentos. O resultado foi a redução da oferta de água para uso humano. Um terço da população mundial vive em regiões com escassez de água, proporção que deve dobrar até 2025. Metade dos africanos, asiáticos e latino-americanos sofre de alguma doença relacionada à falta de acesso a uma fonte de água limpa.

• O uso de petróleo aumentou sete vezes nos últimos cinqüenta anos. A queima de combustíveis fósseis contribui para a poluição do ar, que, segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde, mata 3 milhões de pessoas por ano.

• Os gases emitidos por automóveis, pela indústria, pela decomposição do lixo e pelo desmatamento de florestas tropicais contribuem para acelerar o aquecimento global. Nas últimas décadas, a temperatura média do planeta subiu 1 grau. Como resultado, 40% do gelo do Ártico derreteu no último meio século, fazendo subir lentamente o nível dos oceanos. O desequilíbrio climático traduziu-se também em maior quantidade de secas em algumas regiões e inundações em outras.

• A exploração do estoque dos principais peixes de valor comercial ultrapassou a capacidade de reposição da espécies. A pesca industrial já reduziu em 90% a população dos grandes peixes oceânicos.

• Um quarto da área terrestre é usada, hoje, para a produção de alimentos (agricultura e pecuária). Como as melhores áreas para a agricultura já estão em uso há bastante tempo, a fertilidade do solo caiu 13% nos últimos cinqüenta anos. Com isso, tornou-se necessário o uso de maior quantidade de adubos químicos e o avanço sobre terras periféricas ou ocupadas por florestas. Um quinto da Amazônia brasileira já desapareceu neste século.

O paradoxo é que a mesma eficiência em explorar – e, por conseqüência, danificar – os recursos naturais foi o que permitiu à humanidade atingir o padrão atual de conforto. Nunca o ser humano levou uma vida tão boa. Nas últimas quatro décadas, a renda per capita mundial triplicou. A proporção de pobres diminuiu. Jamais uma parcela tão grande da população mundial teve igual acesso a serviços básicos de saúde, alimentação e moradia. A expectativa média de vida passou de 50 para 79 anos em um século. Entre 1960 e 2000, a população mundial dobrou (de 3 para 6 bilhões) enquanto a economia cresceu seis vezes. Duas forças exercem maior pressão sobre o planeta: o crescimento da população global e a melhoria no nível de vida dos moradores dos países pobres. A ONU estima que em 2050, atingiremos o ápice populacional, com 8,9 bilhões de pessoas.

Um dos dilemas existenciais da atualidade é o seguinte: quantas pessoas vivendo com padrões de consumo do Primeiro Mundo o planeta é capaz de sustentar? "A natureza não poderá dar conta sequer dos atuais níveis de consumo, que dizer se 1 bilhão de pessoas, a maioria na China, tiverem acesso à sua primeira geladeira nos próximos dez anos", disse a VEJA o americano Stuart Pimm, especialista em políticas ambientais da Universidade Duke, nos Estados Unidos. "A solução para o problema não é barrar o desenvolvimento econômico, mas tomar decisões mais espertas em relação ao meio ambiente e evitar os desperdícios", completa Pimm. Várias características nos distanciam das sociedades estudadas por Diamond. Tratavam-se de povos isolados, a maioria deles em ilhas ou no meio de florestas impenetráveis, bem diferentes da sociedade global em que vivemos. Em nenhuma outra época alcançou-se o conhecimento que temos agora da relação de causa e efeito existente entre a nossa interferência na natureza e o modo com que isso pode nos atingir. As sociedades do passado não tinham conquistado a tecnologia que hoje nos permite enfrentar e solucionar os problemas ambientais. A tecnologia pode salvar a civilização.

"A humanidade não precisa voltar a andar de carroça para evitar a destruição dos recursos naturais", disse a VEJA o biólogo americano George Woodwell, um pioneiro da ecologia moderna. "Basta mudar um pouco os hábitos atuais de desperdício e substituir as tecnologias poluentes." Woodwell foi um responsáveis pela descoberta dos efeitos nocivos do DDT, nos anos 60. O produto foi proibido nos Estados Unidos na década de 70 e, em 1985, no Brasil. Quatro décadas atrás, o avanço na tecnologia agrícola multiplicou a produção de alimentos e permitiu o aumento da população mundial. Chamou-se a isso revolução verde. A parte negativa foi o uso indiscriminado de produtos químicos, entre eles alguns inseticidas que depois se mostraram devastadores para a saúde humana e para o meio ambiente, como o DDT.

Isso foi resolvido com novas gerações de defensivos e com o melhoramento genético das sementes, os chamados transgênicos. São lavouras que reduzem sensivelmente a necessidade de insumos químicos. Outro exemplo é a queima dos derivados de petróleo, cujos gases estão entre os maiores responsáveis pelo aquecimento global. Melhorias tecnológicas permitiram que o consumo total de combustível, em relação ao produto interno bruto dos Estados Unidos, tenha caído a quase a metade desde 1973. Os combustíveis fósseis terão de ser substituídos por fontes alternativas de energia, pois a estimativa é a de que o consumo só possa ser mantido, nos níveis atuais, por mais meio século. A tecnologia para isso – fissão nuclear, energia eólica ou a célula a hidrogênio – já existe. Nem sempre é simples convencer uma sociedade a mudar seus hábitos. "As pessoas têm dificuldade em se preocupar com questões que parecem muito distantes e incertas, como o aquecimento global", disse a VEJA o jurista americano Richard Posner, autor de Catástrofe – Risco e Resposta. Nesse livro, ele analisa as possibilidades de a humanidade vir a ser aniquilada por cataclismos naturais ou causados pelo homem.

 

O teórico do colapso

Divulgação
Diamond: "O consumo americano funcionava enquanto tínhamos recursos infinitos"


Em Armas, Germes e Aço, lançado em 1999, o geógrafo Jared Diamond explicou por que a Europa dominou o mundo. Em seu novo livro, Colapso, há trinta semanas na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos, ele analisa o que leva as sociedades ao fracasso. Aos 68 anos, Diamond, da Universidade da Califórnia, concedeu a seguinte entrevista a VEJA.  

O SENHOR DIZ QUE O COLAPSO OCORRE, EM GERAL, QUANDO AS SOCIEDADES ESTÃO NO AUGE. POR QUÊ?
O colapso tende a ocorrer no auge do poder porque é justamente quando a sociedade tem a maior população, o que exige uma quantidade cada vez maior de recursos retirados da natureza. Os recursos esgotam-se com rapidez e ela se torna vulnerável a calamidades. Em geral o colapso é repentino, porque os problemas são relacionados. Em termos simples, significa que a incapacidade de produzir alimentos suficientes leva a revoltas populares, que, por sua vez, causam a derrubada de governantes e guerras civis.  

POR QUE HÁ SOCIEDADES CAPAZES DE PLANEJAR A LONGO PRAZO, EVITANDO A DESTRUIÇÃO DE SEUS RECURSOS NATURAIS, E OUTRAS NÃO?
Um fator é o tipo de problema ambiental enfrentado. O Japão tinha um grave problema de desmatamento no século XVII. Mas se trata de uma ilha bastante úmida e com muita chuva. Lá as árvores crescem com bastante rapidez. Já na Ilha de Páscoa, onde a civilização rapa nui devastou os bosques, o clima é seco. A mata demora para se restabelecer. Outro fator é a maneira como a sociedade reage diante da devastação do meio ambiente. Os japoneses tentaram resolver o problema, pois tinham consciência de que seus filhos iriam precisar daqueles recursos. Os polinésios da Ilha de Páscoa não pararam até arrancar a última árvore.

ATÉ QUE PONTO OS VALORES CULTURAIS DETERMINAM SE UMA SOCIEDADE SERÁ CAPAZ OU NÃO DE LIDAR COM O USO CORRETO DOS RECURSOS NATURAIS?
Os valores culturais de fato têm influência no sucesso de uma sociedade. O maior perigo está em valores culturais que funcionaram bem durante séculos e, de repente, deixam de ser adequados às mudanças. Nesse caso, os valores que antes eram positivos e ajudaram aquela sociedade começam a atrapalhar. O exemplo são os Estados Unidos. O país enriqueceu e se tornou o mais rico do mundo sendo consumista. Isso funcionava muito bem enquanto ele dispunha de recursos infinitos. Hoje, o hábito cultural americano de consumo exacerbado pode comprometer seriamente nossa sobrevivência.  

POR QUE, MESMO QUANDO IDENTIFICAM UM RISCO AMBIENTAL, ALGUMAS SOCIEDADES RELUTAM EM PROCURAR UMA SOLUÇÃO PARA ELE?
A pergunta poderia ser: por que existem sociedades que aprendem com os erros enquanto outras não? O fato é que, muitas vezes, há conflitos de interesse que impedem as autoridades de tomar atitudes para evitar o colapso. Algumas pessoas ficam ricas causando o problema ambiental, enquanto o restante da sociedade sofre com ele. Se esses indivíduos fazem parte do governo ou o influenciam, fica difícil resolver a questão.

O FATO DE VIVERMOS EM UMA SOCIEDADE GLOBALIZADA SIGNIFICA QUE O COLAPSO DE UMA SOCIEDADE IMPORTANTE PODE SE TORNAR GLOBAL?
Sim. Os atentados de 11 de setembro de 2001 contra o World Trade Center, nos Estados Unidos, tiveram reflexos políticos e econômicos sobre outras sociedades. Não chegaram a causar um colapso, mas ilustram como o que acontece em uma nação importante tem potencial para afetar o restante do mundo. Se um país grande, como os Estados Unidos, entrar em declínio, isso com certeza afetará o resto do planeta.

EXCLUSIVO ON-LINE
Íntegra da entrevista

 

A diferença entre o sucesso e o desastre

O modo como as sociedades respondem aos problemas de escassez de recursos naturais define, em muitos casos, se elas sobrevivem ou entram em colapso

Sucessos

JAPÃO

O problema
No século XVII, um período de paz e prosperidade econômica levou ao crescimento da população e da demanda por madeira para construir casas e para ser usada como lenha.O desmatamento desmedido causou escassez de madeira

O que foi feito
Os xoguns estabeleceram normas para dificultar a extração de madeira. Foram criados programas de reflorestamento.O carvão substituiu a lenha no aquecimento doméstico e nas cozinhas

Resultado
Apesar de ser um dos países de maior densidade populacional, o Japão tem 70% de sua área coberta por florestas

 

NOVA GUINÉ

O problema
Milhares de anos de agricultura devastaram as florestas da Nova Guiné e a erosão do solo fez cair a produtividade. Com o aumento da população, a procura por madeira para as construções e o uso doméstico cresceu

O que foi feito
No século IX, a população plantou mudas de árvores retiradas do leitodos rios em meio às áreas de cultivo agrícola. A espécie escolhida, a casuarina, ajuda a fixar nitrogênio no solo, deixando-o mais fértil

Resultado
Os moradores da Nova Guiné sobrevivem há mais de 7 000 anos praticando a agricultura de maneira sustentável

 

Fracassos

MAIAS

O problema
A destruição da floresta para abrir espaço à agricultura provocou a erosão do solo. Isso, aliado a secas e guerras, levou à redução na produção de alimentos e à fome

O que foi feito
Envolvidos em disputas internas pelo poder, os reis maias isolaram-se do resto da sociedade e continuaram a cobrar impostos pesados dos camponeses

Resultado
Em apenas 150 anos, a mais desenvolvida das sociedades pré-colombianas perdeu 90% de sua população e a selva cobriu suas cidades e templos

 

ILHA DE PÁSCOA

O problema
As árvores foram derrubadas para abrir espaço para lavouras, fornecer material para a confecção de canoas e para arrastar imensos ídolos de pedra. A destruição da mata levou à erosão do solo e à extinção de muitos animais

O que foi feito
O desmatamento continuou. Os caciques optaram por construir ídolos ainda maiores, com a esperança de que os deuses resolvessem a crise

Resultado
A ilha perdeu todas as suas árvores e as fontes de alimento se esgotaram. No século XVII, a sociedade ruiu em uma série de guerras civis e os sobreviventes tiveram de comer ratos e recorrer ao canibalismo

Com reportagem de Ruth Costas

 
 
 
 
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