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Medicina Desafio
precoce A preocupação com o desenvolvimento
intelectual dos prematuros deve começar na saída da UTI neonatal 
Roberta Salomone
Nas
últimas duas décadas, duplicaram as chances de vida de bebês
que nascem com pouco mais de meio quilo e são tão pequenos que quase
cabem na palma da mão. Superado o grande obstáculo da sobrevivência,
no entanto, a medicina vê-se às voltas com outro tipo de problema.
Estudos recentes mostram que o impacto da prematuridade sobre o desenvolvimento
intelectual da criança é muito maior do que se imaginava. Cerca
de 80% dos bebês que nascem com menos de trinta semanas de gestação
têm o desenvolvimento do cérebro afetado e demoram mais tempo para
processar informações do que as outras crianças. Por esse
motivo, quem nasceu com menos de 1 quilo é mais propenso a ter QI abaixo
da média (veja quadro abaixo). Além disso, os prematuros
desenvolvem problemas neurológicos e de comportamento, como hiperatividade,
distúrbio de déficit de atenção e dificuldades de
aprendizado, com muito mais freqüência do que as crianças que
nascem no tempo certo. Estatisticamente, essas constatações ganham
importância porque os tratamentos de infertilidade que resultam quase
sempre em gravidez de múltiplos provocaram aumento expressivo no
número de prematuros. Nos Estados Unidos, por exemplo, a incidência
de partos antes do tempo cresceu quase 30% nos últimos 25 anos.
A
maior pesquisa já realizada no mundo foi feita pela Universidade de Nottingham,
na Inglaterra, e acompanhou 314 crianças que nasceram com menos de 26 semanas
de gestação. Os resultados, apresentados neste ano, são preocupantes.
Aos 2 anos e meio de idade, um terço dos meninos e um sexto das meninas
o estudo não explica o porquê da diferença apresentavam
distúrbios de comportamento, a maioria deles relacionada a dificuldades
de atenção. Entre 5 e 6 anos, metade deles tinha problemas no desenvolvimento
cognitivo. Outra pesquisa, da Universidade Yale, nos Estados Unidos, mostra que,
aos 8 anos, uma em cada cinco crianças nascidas prematuramente já
repetiu uma série no colégio. É o dobro da taxa de repetência
entre as que nasceram no tempo normal. "Hoje, temos todas as condições
para assegurar cada vez mais a sobrevivência dos prematuros, mas ainda não
temos todas as ferramentas para garantir o futuro deles", diz Wladimir Taborda,
ginecologista e obstetra, coordenador da maternidade do Hospital Albert Einstein,
em São Paulo. O grande desafio
é reduzir o impacto do período de permanência nas UTIs neonatais
sobre o cérebro. O esforço para tornar esse ambiente menos inóspito
tem sido grande e já resultou em mudanças importantes, como a redução
do ruído e da luminosidade e o estímulo ao maior contato com os
pais, mesmo com o bebê ainda dentro da incubadora. Mas, evidentemente, nenhuma
dessas medidas é capaz de transformar a UTI em algo minimamente parecido
com o ambiente uterino. Até porque, para garantir a sobrevivência
da criança, muitas vezes é preciso submetê-la a uma série
de procedimentos fisicamente agressivos. Assim, é possível salvar
bebês a partir da 24ª semana (quando os órgãos vitais
já estão formados), mas não se consegue prevenir limitações
neurológicas. "A maioria dos pais acha que depois que o filho sai da incubadora
está tudo resolvido, mas não é isso que ocorre. Independentemente
do quadro clínico, todo prematuro deve receber acompanhamento médico
especial durante os anos seguintes", diz Alice Deutsch, coordenadora da UTI neonatal
do Hospital Albert Einstein. Como
a prevenção é difícil, a saída é realmente
identificar a existência desse tipo de problema quanto antes. Todo pai e
toda mãe acompanham o desenvolvimento do filho, comemoram os avanços
e se preocupam se percebem algum atraso. Os pais de prematuros devem ter atenção
redobrada para esse aspecto e pedir orientação ao pediatra se houver
qualquer dúvida em relação ao comportamento do bebê.
A partir de 1 ano, quando ele começa a andar e falar, fica mais fácil
acompanhar sua evolução. "Se alguma coisa parece não estar
indo bem, é hora de procurar ajuda de um especialista", explica Ênio
Roberto de Andrade, diretor do Serviço de Psiquiatria da Infância
e Adolescência do Hospital das Clínicas da USP.
Adotado o tratamento adequado a cada caso, ganha-se um tempo precioso e são
dadas à criança condições muito melhores de aprendizado.
É importante ter claro que o parto prematuro impõe, sim, desafios
especiais, mas não pode ser encarado como uma condenação
à limitação intelectual. Há muitos exemplos de grandes
figuras do pensamento que nasceram antes da hora. O primeiro-ministro inglês
Winston Churchill, uma das maiores lideranças da história de seu
país, era prematuro, assim como o alemão Johannes Kepler, que revolucionou
o estudo da astronomia depois de provar que a Terra e os demais planetas descrevem
órbita elíptica em torno do Sol. O físico inglês Isaac
Newton, formulador da lei da gravidade, nasceu tão pequeno que ninguém
acreditou que ele fosse viver nem um dia sequer. Viveu e deixou um legado intelectual
incomparável. |