Edição 1921 . 7 de setembro de 2005

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PIB
Luxo lá fora...

O Brasil doma a inflação e pega
carona no ciclo de expansão mundial


Carina Nucci e Chrystiane Silva


Erc Feferberg/AFP
Fila em loja de Paris: o mundo nunca teve tanto crédito disponível para consumo e investimento

Vistos a distância, os problemas da economia brasileira parecem condená-la à estagnação. Leis são desrespeitadas, a burocracia é insana e há incentivos legais ao descumprimento de contratos. Além disso, os juros no Brasil são os mais altos do planeta e o mundo oficial chafurda na pior crise dos últimos anos. Por esse motivo, economistas e políticos têm argumentos de sobra para analisar, de maneira diferente, cada variação do PIB. No começo de junho, por exemplo, quando o IBGE mostrou que a economia brasileira havia crescido apenas 0,3% nos primeiros três meses do ano em relação ao trimestre anterior, choveram reclamações e previsões pessimistas. O senador petista Aloizio Mercadante disse que "a taxa (de crescimento) é decepcionante e uma clara conseqüência da meta inflacionária irrealista adotada pelo governo federal". As críticas do senador pareciam fazer sentido até que, na semana passada, se divulgou que, mesmo com os juros altos necessários para cumprir a meta inflacionária, a economia cresceu 1,4% no segundo trimestre – uma taxa que superou até as previsões mais otimistas. Como o senador explica a aparente contradição? Ele responde: "O resultado do PIB no segundo trimestre é positivo, mas os juros não precisam continuar tão altos". Mercadante não é o único a ter dificuldade para manter-se coerente.

O economista Paulo Nogueira Batista Junior chegou a escrever em um artigo no jornal Folha de S.Paulo: "Teremos, na melhor das hipóteses, crescimento medíocre. A galinha está aterrissando". Quando os dados do trimestre seguinte foram divulgados, Batista Junior, que também é professor da Fundação Getulio Vargas, fez a VEJA uma análise menos apocalíptica: "O resultado vai levar a uma revisão de todas as estimativas para um crescimento de 3,5% no ano, abaixo do potencial da economia brasileira".

Sem dúvida, não é fácil entender as peculiaridades da nossa economia. Mas também não deveria ser tão difícil. No caso brasileiro, o contexto mundial e alguns fatores internos têm contribuído decisivamente para o avanço do PIB. A inflação arrefeceu nos últimos meses, fazendo crescer o poder de compra dos trabalhadores e a receita das empresas. Além disso, novas linhas de crédito para o consumo continuam sustentando o comércio de bens duráveis. Mas nenhum desses fatores é tão fundamental quanto o empurrão que o mundo tem dado ao Brasil. Os dois componentes que mais cresceram no PIB foram justamente os que dependem de dinheiro e apetite externos: investimentos e exportações. Os investimentos cresceram 4,5% no segundo trimestre, em grande medida porque as empresas foram buscar lá fora o dinheiro para investir no país. É que as taxas de juros nos países ricos nunca estiveram tão baixas, algo em torno de 0,5% ao ano. Já as exportações seguem na esteira do ciclo virtuoso da economia, que cresceu 5% em 2004 e não deve ficar muito distante disso neste ano. As vendas brasileiras batem sucessivos recordes e atingiram pela primeira vez na história a marca de 110 bilhões de dólares no período de um ano.

Diante de tudo isso, a grande dúvida que se coloca não é se a taxa de juros do Banco Central deve ou não cair, mas até quando a economia global continuará nos ajudando. Na semana passada, os mercados financeiros estremeceram quando o presidente do banco central americano, Alan Greenspan, alertou para o risco de reversão da abundante liquidez internacional por causa das baixíssimas taxas de juros nos países ricos (essas, sim, nos interessam). Se os juros subirem muito por lá para conter a inflação, ficará mais caro para as empresas brasileiras se financiarem. Além disso, o dólar se valorizaria e alimentaria a inflação no Brasil. Há outras ameaças. A China, por exemplo, poderá diminuir drasticamente seu ritmo de crescimento. Ou a bolha imobiliária nos Estados Unidos pode estourar, o que abalaria a estrutura de juros e – novamente – a cotação do dólar.

Diante de tantas ameaças, a lição que fica para o país é que combater a inflação é sempre um bom negócio, ainda que os juros dificultem investimentos e encareçam o consumo. Além disso, como somos pequenos para influenciar o desempenho da economia mundial, a classe política e os economistas fariam um bom trabalho se, em vez de criticar as autoridades monetárias, pedissem a eliminação dos inúmeros entraves ao investimento e ao emprego formal no país.

 
 
 
 
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