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PIB
Luxo lá fora...
O Brasil doma a inflação e pega
carona no ciclo de expansão mundial

Carina Nucci e Chrystiane Silva
Erc Feferberg/AFP
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| Fila em loja de Paris: o mundo nunca teve
tanto crédito disponível para consumo e investimento
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Vistos a distância, os problemas da economia
brasileira parecem condená-la à estagnação.
Leis são desrespeitadas, a burocracia é insana e há
incentivos legais ao descumprimento de contratos. Além disso,
os juros no Brasil são os mais altos do planeta e o mundo
oficial chafurda na pior crise dos últimos anos. Por esse
motivo, economistas e políticos têm argumentos de sobra
para analisar, de maneira diferente, cada variação
do PIB. No começo de junho, por exemplo, quando o IBGE mostrou
que a economia brasileira havia crescido apenas 0,3% nos primeiros
três meses do ano em relação ao trimestre anterior,
choveram reclamações e previsões pessimistas.
O senador petista Aloizio Mercadante disse que "a taxa (de crescimento)
é decepcionante e uma clara conseqüência da meta
inflacionária irrealista adotada pelo governo federal". As
críticas do senador pareciam fazer sentido até que,
na semana passada, se divulgou que, mesmo com os juros altos necessários
para cumprir a meta inflacionária, a economia cresceu 1,4%
no segundo trimestre uma taxa que superou até as previsões
mais otimistas. Como o senador explica a aparente contradição?
Ele responde: "O resultado do PIB no segundo trimestre é
positivo, mas os juros não precisam continuar tão
altos". Mercadante não é o único a ter dificuldade
para manter-se coerente.
O economista Paulo Nogueira Batista Junior
chegou a escrever em um artigo no jornal Folha de S.Paulo:
"Teremos, na melhor das hipóteses, crescimento medíocre.
A galinha está aterrissando". Quando os dados do trimestre
seguinte foram divulgados, Batista Junior, que também é
professor da Fundação Getulio Vargas, fez a VEJA uma
análise menos apocalíptica: "O resultado vai levar
a uma revisão de todas as estimativas para um crescimento
de 3,5% no ano, abaixo do potencial da economia brasileira".
Sem dúvida, não é fácil
entender as peculiaridades da nossa economia. Mas também
não deveria ser tão difícil. No caso brasileiro,
o contexto mundial e alguns fatores internos têm contribuído
decisivamente para o avanço do PIB. A inflação
arrefeceu nos últimos meses, fazendo crescer o poder de compra
dos trabalhadores e a receita das empresas. Além disso, novas
linhas de crédito para o consumo continuam sustentando o
comércio de bens duráveis. Mas nenhum desses fatores
é tão fundamental quanto o empurrão que o mundo
tem dado ao Brasil. Os dois componentes que mais cresceram no PIB
foram justamente os que dependem de dinheiro e apetite externos:
investimentos e exportações. Os investimentos cresceram
4,5% no segundo trimestre, em grande medida porque as empresas foram
buscar lá fora o dinheiro para investir no país. É
que as taxas de juros nos países ricos nunca estiveram tão
baixas, algo em torno de 0,5% ao ano. Já as exportações
seguem na esteira do ciclo virtuoso da economia, que cresceu 5%
em 2004 e não deve ficar muito distante disso neste ano.
As vendas brasileiras batem sucessivos recordes e atingiram pela
primeira vez na história a marca de 110 bilhões de
dólares no período de um ano.
Diante de tudo isso, a grande dúvida
que se coloca não é se a taxa de juros do Banco Central
deve ou não cair, mas até quando a economia global
continuará nos ajudando. Na semana passada, os mercados financeiros
estremeceram quando o presidente do banco central americano, Alan
Greenspan, alertou para o risco de reversão da abundante
liquidez internacional por causa das baixíssimas taxas de
juros nos países ricos (essas, sim, nos interessam). Se os
juros subirem muito por lá para conter a inflação,
ficará mais caro para as empresas brasileiras se financiarem.
Além disso, o dólar se valorizaria e alimentaria a
inflação no Brasil. Há outras ameaças.
A China, por exemplo, poderá diminuir drasticamente seu ritmo
de crescimento. Ou a bolha imobiliária nos Estados Unidos
pode estourar, o que abalaria a estrutura de juros e novamente
a cotação do dólar.
Diante de tantas ameaças, a lição
que fica para o país é que combater a inflação
é sempre um bom negócio, ainda que os juros dificultem
investimentos e encareçam o consumo. Além disso, como
somos pequenos para influenciar o desempenho da economia mundial,
a classe política e os economistas fariam um bom trabalho
se, em vez de criticar as autoridades monetárias, pedissem
a eliminação dos inúmeros entraves ao investimento
e ao emprego formal no país.
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