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Brasil Morte
da ética em Severino Defensor
das piores causas, o presidente da Câmara aceita pressões para
melar as CPIs  Otávio
Cabral Ricardo
Stuckert
 | O
SILÊNCIO Lula condecora Severino: medalha
no peito do defensor do trabalho escravo |
Mesmo antes de se saber da propina
de 10.000 reais envolvendo o deputado Severino Cavalcanti, sua condição
política e moral de comandar o processo de cassação de dezoito
deputados do mensalão já vinha sendo questionada. Na semana passada,
esse questionamento chegou ao seu ponto mais alto depois que Severino deu uma
entrevista ao jornal Folha de S.Paulo na qual enfileirou barbaridades muito
condizentes com sua biografia mas que soaram chocantes. Disse duvidar que o mensalão
tenha existido, ignorando a profusão de provas nesse sentido. Disse que
é menos grave receber dinheiro numa bolada só do que em forma de
mesada, estabelecendo uma originalíssima distinção entre
corrupto à vista e corrupto a prazo. Disse, ainda, que financiar campanhas
com dinheiro clandestino é um crime menor, razão pela qual defendeu
que os acusados recebessem penas mais brandas, como censura ou repreensão,
e não a dureza de uma cassação de mandato. A entrevista foi
mais uma prova da inadequação moral, ética
de Severino ao cargo que ocupa e deflagrou um movimento por sua cassação,
sob o argumento elementar de que defender um crime é uma afronta ao decoro
parlamentar. Eugenio
Novais
 | Celso
Junior/AE
 | ACM
NETO (PFL-BA) "A denúncia (da propina
de Severino) é grave e exige investigação completa.
É preciso esclarecer a ação de Severino." | JOSÉ
CARLOS ALELUIA (PFL-BA) "Isso (a propina
de Severino) não é caso de fazer uma CPI. É caso
de investigação sumária no Conselho de Ética."
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"Ou
vossa excelência começa a ficar calado ou vamos iniciar um movimento
para derrubá-lo", ameaçou o deputado Fernando Gabeira, do PV do
Rio de Janeiro, ao falar em plenário sobre a entrevista do presidente da
Câmara. Na prática, o movimento já começou. Além
do PV de Gabeira, o PPS e o PDT já anunciaram apoio ao pedido de cassação
do mandato de Severino por quebra de decoro parlamentar. O deputado José
Carlos Aleluia, do PFL baiano, ameaçou pedir a convocação
de Severino para prestar esclarecimentos à CPI do Mensalão. "E não
é nada agradável ver o presidente da Câmara depondo numa CPI",
completou. A evidência de que lhe falta estatura para comandar a Câmara,
aliada ao seu périplo para que o mensalão acabe em pizza, levou
Severino a uma cena constrangedora na quinta-feira passada. Em solenidade no Itamaraty,
Severino recebeu das mãos do presidente Lula uma cobiçada comenda
do governo, a Ordem de Rio Branco. Eram 140 homenageados, e 139 foram aplaudidos
ao receber a comenda. Na vez de Severino, os aplausos não foram ouvidos.
Talvez fosse até melhor que houvesse uma vaia. Mas não. Houve silêncio.
Ed
Ferreira/AE
 | Dida
Sampaio/AE
 | MICHEL
TEMER (PMDB-SP) "É uma surpresa extraordinária
imaginar que o presidente Severino esteja envolvido em uma denúncia como essa
(de propina)." | FERNANDO
GABEIRA (PV-RJ) "Com essa agora (a propina
de 10 000 reais), acho que o processo contra Severino
passa a ser prioritário." |
Agora, com a denúncia da propina de 10.000 reais, o que o futuro reserva
ao deputado Severino Cavalcanti? "Minha idéia era pedir uma investigação
sobre Severino depois de encerrado o caso dos mensaleiros. Mas, com essa agora,
acho que o processo contra Severino passa a ser prioritário", disse o deputado
Fernando Gabeira ao ser informado por VEJA da reportagem que a revista publicaria
sobre a propina. O líder da minoria, deputado José Carlos Aleluia,
do PFL baiano, também informado sobre o caso dos 10.000 reais mensais,
disse que seu partido fará, nesta semana, uma representação
no Conselho de Ética contra o presidente da Câmara. "Isso não
é caso de CPI. É caso de investigação sumária
no conselho", disse Aleluia, para quem Severino deveria ser afastado do comando
da Câmara enquanto durasse a investigação. O deputado Eduardo
Paes, do PSDB fluminense, tem opinião semelhante. "É necessário
abrir imediatamente um processo de investigação contra o presidente
Severino", disse. "A denúncia é gravíssima e coloca em dúvida
se ele tem condições de continuar presidindo a Casa." Valter
Camapanato/ABR
 | Sergio
Castro/AE
 | EDUARDO
PAES (PSDB-RJ) "A denúncia (da propina de Severino)
é gravíssima e coloca em dúvida se ele tem condições de continuar presidindo a
Casa." | DELCÍDIO AMARAL (PT-MS) "Se
tudo for verdade (a propina de Severino), é um caso grave de quebra de
decoro. É preciso investigar já e com todo o rigor." |
Severino
Cavalcanti, 74 anos, terceiro mandato, base eleitoral em João Alfredo,
no sertão de Pernambuco, sempre foi um homem do baixo clero parlamentar
e, mesmo depois de virar presidente da Câmara, jamais deixou de sê-lo.
Desde que assumiu o cargo, em fevereiro passado, Severino vem consolidando as
piores expectativas em relação à sua gestão e à
sua biografia. Chegou ao posto aumentando a verba de cada deputado de 35 000 para
44 000 reais, sem se preocupar com a folia de gastos. Na semana passada, articulou
a derrubada do veto presidencial ao aumento de 15% no salário dos funcionários
do Legislativo, novamente sem se importar com a despesa adicional de 500 milhões
de reais por ano. Em suas maquinações de bastidores, Severino tem
feito coisas homéricas. Chegou a ponto de tentar, junto aos órgãos
federais, facilitar a vida de um usineiro que por quatro vezes!
foi punido por escravizar trabalhadores em sua fazenda em Mato Grosso. Severino
queria que o usineiro, seu amigo, voltasse a entrar na lista dos fornecedores
de álcool para a BR Distribuidora, da qual fora excluído exatamente
por seu histórico escravista. Ana
Araújo
 | DEDOS
EM RISTE Severino, no bate-boca com Gabeira no
plenário: depois das barbaridades |
Agora mesmo, Severino fez um lobby intenso para emplacar o deputado Augusto Nardes,
seu amigo do PP gaúcho, como ministro do Tribunal de Contas da União.
O caso é um constrangimento do início ao fim. Nardes é processado
por crime eleitoral, peculato e concussão, mas fez um acordo para livrar-se
da condenação: doaria 1.000 reais ao Fome Zero e faria oito palestras
em escolas públicas, uma a cada três meses, durante dois anos, sobre
democracia e eleição. Fechado o acordo, nem isso o deputado cumpriu.
Tentou dar um aplique dizendo que concedera as oito palestras em dois dias. Em
abril, o procurador-geral da República denunciou a malandragem à
Justiça, exigindo que a pena fosse cumprida ao longo de dois anos
e não de dois dias. Informado da ação criminal e do acordo
fraudado, o presidente do TCU, Adylson Motta, ficou horrorizado. Escreveu ao presidente
Lula pedindo que não sancionasse a nomeação de Nardes devido
à "inobservância do requisito constitucional da reputação
ilibada e idoneidade moral". Lula não deu a mínima. A nomeação
foi publicada no Diário Oficial da União na semana passada.
Ana
Nascimento/ABR
 | ONDE
ESTÁ? Nardes, o amigo de Severino que foi indicado
ao TCU: cadê a tal reputação ilibada? |
Além de tudo, Severino circula pelos corredores da Câmara a bordo
da suspeita amplamente disseminada de que trabalha para transformar o mensalão
em pizza porque vem sendo chantageado. Ninguém conhece exatamente os termos
da chantagem, mas todo mundo sabe que seu autor é o deputado José
Janene, líder do PP, partido de Severino, e um dos reis dos milhões
sacados das contas de Marcos Valério. Janene nunca contou o destino da
dinheirama que recebeu do valerioduto. Qual será o segredo de Janene contra
Severino? O presidente da Câmara, para sorte sua, não tem apenas
inimigos. O deputado Benedito Dias, do PP do Amapá, é um aliado.
Na semana passada, Dias pediu a cassação de Fernando Gabeira por
ofender Severino em plenário. No mesmo dia, o procurador-geral da República
solicitou ao STF a abertura de inquérito contra Dias. O amigo de Severino
é acusado de desviar recursos públicos destinados à construção
do Hospital do Câncer de Macapá e... Bem, digamos, resumidamente,
que é um aliado de Severino, o homem que, nesta semana, embarca com destino
a Nova York para discursar na ONU como representante do Brasil. Se a crise deixar,
é claro. Fotos
Victor Soares/Agência Brasil/divulgação/Ana Araújo/José Varella/CBPress/ Bruno
Stucker/Folha Imagem
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